Velório de Noca da Portela acontece na quadra da escola de samba em MadureiraReginaldo Pimenta/Agência O DIA
Para os netos Danielle Corrêa e Noca Neto, o legado deixado pelo avô vai além da música. Em meio às homenagens, eles destacaram o reconhecimento que o compositor recebeu em vida.
"Meu avô sempre bateu na tecla de flores em vida. Poderia ter recebido mais reconhecimento, mas recebeu flores em vida por todos aqueles que ele ajudou. Então, hoje eu estou me sentindo abraçada. Foram muitas mensagens de carinho, de gratidão. Eu acho que ele alcançou o que ele queria, o que para ele já era o suficiente, que é o espaço na música, na cultura, na política, e ter o nome dele reconhecido. Ele sempre falava, que por ser um homem negro, você falar o nome dele e a pessoa saber quem é já era um reconhecimento", disse Danielle.
A neta do artista acrescentou ainda que devido a toda a sua trajetória, o nome de Noca da Portela será imortal. "Ele falava muito isso pra gente: 'O que importa é quem eu sou, eu sei meus valores, eu sei onde eu piso, eu sei entrar, eu sei sair'. Então eu acredito que ele se sentia reconhecido. Hoje a gente não tem um reconhecimento assim global, de mídia, mas o reconhecimento pelo que ele fez pelo Brasil, pelo samba e pela cultura é um reconhecimento. O nome dele vai ser imortal", frisou.
Marquinhos também estacou a importância do gênero para a cultura brasileira. "O samba é tão importante que, de tudo que vem da África, as pessoas falam muito do candomblé da Bahia, que manteve essa ancestralidade. Mas algo paralelo ao candomblé é o samba. Por ser uma coisa tão popular, tão nossa, acaba não sendo valorizada como deveria. Talvez, se fosse um compositor de jazz ou de blues, as pessoas teriam dado muito mais valor. E eu digo com o coração apertado e, ao mesmo tempo, com alegria nesse momento, que o samba não perde nada nem para o blues, nem para o jazz. Perde simplesmente no respeito que as pessoas não dão", declarou.
"Nós sabemos o quanto o racismo estrutural tenta invisibilizar pessoas, o quanto ele não reconhece a grandiosidade como deveria da cultura do samba, que é a nossa maior referência e identidade cultural. Mas a Tio Noca teve, com certeza, lugares e ocupou espaços para que nós, hoje, estivéssemos aqui, porque foi uma geração que sofreu muito mais do que a nossa geração de pessoas pretas e do samba, para que nós estivéssemos aqui hoje e ainda temos que continuar muito essa luta", explicou.
A porta-bandeira reforçou a importância do sambista. "Ele era um homem com muito talento, muito digno na política, na cultura, foi secretário de cultura. Imagina a referência que ele é, um homem negro que ocupou cadeiras, assinou documentos. Alguns anos atrás era bem mais difícil, avançamos muito graças a pessoas como ele. Eu sinto muita dor porque essa geração dele, do tio Monarco, me viram pequena. Então, eles são referências para mim. Agradeço por ter convivido muito com eles, com essa geração dos tios que me chamavam de sobrinha e tinham muito carinho por mim", disse.
Vice-presidente da Portela, Nilce Fran descreveu o compositor como "incrível". "Tio Noca era um nobre, um ser humano sensacional e isso já é muito importante, vem da ancestralidade. Toda gratidão! Vem de lá todas as honras, todos os méritos e eu tenho certeza que ele precisava descansar, estava vivendo um momento dificil, de dor, 93 anos. Ele queria ser velado na casa dele, aqui na quadra. O portelense com certeza está de luto, com o coração adormecido, mas certo de que amamos tio Noca, honramos o maior compositor de samba-enredo da nossa escola. Ele deixa um legado de arte, de amor, de família", frisou.
O presidente Junior Escafura destacou a relevância de Noca não só para o samba, mas para todo o Carnaval.
"Eu acho que ele deixou um legado grandioso demais para o samba e para a Portela. As obras dele vão ficar aí para serem cantadas eternamente. Acho que ele foi reconhecido sim e merece muito esse reconhecimento, esse carinho. Além da contribuição que ele deu, não só para Portela, mas para o samba. Noca era uma pessoa alegre, festiva, querida, todo mundo gostava. Era engraçado, aquela pessoa espiritualizada, sempre com uma tirada boa. Então, acho que fica isso de conforto pra gente, saber que ele vai estar num bom lugar lá do Papai do Céu e saber que foi uma pessoa que fez muito quando esteve aqui, não só para Portela como também para samba e para o Carnaval."
Integrante das alas da comunidade, a aposentada Sandra Cavalcante, 65 anos, agradeceu pelos anos dedicados à Portela.
"Cumpriu 93 anos, chegou a hora de descansar um pouquinho, de se juntar à velha-guarda. Ele deixou um legado. E, é aquele negócio, um dia a gente vai e ele graças a Deus foi bem, viveu bastante, curtiu bastante", disse.
Um casal de turistas do Ceará, Vitor e Eliandra Maia, de 34 e 43 anos, que passava pela região fez questão de prestigiar o velório.
Relembre trajetória
Ainda criança, mudou-se para o Rio de Janeiro com a família. Filho de um professor de violão, trabalhou como feirante durante a juventude, mas acabou seguindo o caminho da música.
Noca começou a compor ainda adolescente e iniciou sua trajetória no samba pela Unidos do Catete. Nos anos 1950, participou da fundação da escola de samba Paraíso do Tuiuti, onde assinou sambas-enredo.
Em 1966, foi convidado por Paulinho da Viola para integrar a ala de compositores da Portela. A entrada na escola aconteceu após um teste aplicado por Candeia, um dos sambistas mais respeitados da agremiação. Na azul e branco de Madureira, ele construiu uma das trajetórias mais vitoriosas da história da escola.
Ao longo da carreira, venceu disputas de samba-enredo em sete oportunidades na Portela, tornando-se o segundo compositor mais vitorioso da escola. Entre os sambas de maior destaque estão "Gosto que me enrosco" (1995), "Os olhos da noite" (1998) e "ImagináRio, 450 Janeiros de uma Cidade Surreal", de 2015. Integrou, ainda, a tradicional Velha Guarda Show, com Monarco, Tia Surica e outros bambas.
Militante do Partido Comunista Brasileiro, Noca também ficou conhecido pelo caráter político e social de muitas de suas letras. No fim da década de 1990, apresentou o programa de rádio "Na Casa de Noca", dedicado ao universo do samba e à valorização dos compositores populares.
Em 2006, assumiu a Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro durante o governo de Rosinha Garotinho.
Em 2025, foi homenageado com o projeto “Coleção Flores Em Vida”, idealizado pelo compositor Ciraninho, que reuniu Zeca Pagodinho, Roberta Sá, Péricles e outras estrelas, cantando clássicos de Noca.


























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