Delegado Henrique Damasceno era titular da 16ª DP na época da morte do menino Henry BorelReginaldo Pimenta/Agência O Dia

Rio - O segundo dia do julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e Monique Medeiros é marcado nesta terça-feira (26) pelo longo depoimento do delegado Henrique Damasceno, responsável pelas investigações iniciais da morte de Henry Borel, em 2021. Ouvido desde a manhã, no II Tribunal do Júri da Capital, no Centro do Rio, o policial respondeu por horas às perguntas do Ministério Público, da assistência de acusação e das defesas. 

Questionado pelos advogados de defesa, Damasceno reafirmou que manteria integralmente as conclusões apresentadas no inquérito conduzido pela 16ª DP (Barra da Tijuca), responsável pelo caso na época. "Não tem nada que eu queira modificar nas mais de 100 páginas do inquérito", declarou aos jurados.

Ao longo do depoimento, o delegado reforçou que a investigação concluiu que Henry morreu em decorrência das lesões sofridas e descartou a hipótese de que algum problema de saúde tenha provocado a morte. "Nunca vi nada diferente do que deveria constar no IML [Instituto Médico Legal], nada diferente do que deveria", afirmou Damasceno, ao comentar os laudos periciais.
Mensagens no celular da babá e mais
Ele também destacou que a investigação ganhou novo rumo a partir da análise de mensagens encontradas no celular da babá de Henry, Thayná de Oliveira Ferreira. Segundo o delegado, o material ajudou a desmontar a versão apresentada inicialmente pelo casal e apontou episódios anteriores de agressão dentro do apartamento da Barra da Tijuca. "Sem aquelas conversas, a mentira poderia ter seguido", afirmou.

De acordo com Damasceno, os diálogos revelaram que o menino já havia apresentado sinais de violência semanas antes da morte. Em uma das conversas analisadas pela polícia, a babá relatou, no dia 12 de fevereiro, que a criança ficou sozinha com Jairinho dentro de um quarto e deixou o local mancando, reclamando de dor na cabeça e chorando muito. A funcionária teria pedido que Monique retornasse para casa naquele momento.
O delegado afirmou que neste mesmo dia, Monique levou o filho ao médico, onde Henry passou por um raio-X. O delegado, no entanto, não recordou qual foi o resultado do exame, mas alegou que as agressões foram suficientes para que o menino ficasse com dor até o outro dia.
Delegado reforçou que Monique sabia das agressões, mas se omitiu. "O que consta nos autos é que as conversas entre Thayná e Monique reforçam que ela mentiu e se submeteu a ser treinada. E depois admitiu que era uma versão mentirosa, ou seja, ela sabia das agressões", falou ele.

Durante a audiência, ele também voltou a citar as imagens do circuito interno do condomínio onde Henry morava com a mãe e o então padrasto. Segundo ele, a análise feita pela equipe de investigação indicou que o menino já estava sem reação quando foi levado ao elevador na madrugada de 8 de março de 2021.

A defesa de Jairinho concentrou parte dos questionamentos na condução do inquérito e tentou apontar possível parcialidade da investigação. Damasceno negou qualquer favorecimento, rebateu insinuações de proximidade com Leniel Borel, pai de Henry, e afirmou que nunca recebeu "presente" ou qualquer tipo de benefício relacionado ao caso.

Em outro momento, ele falou sobre o atendimento médico prestado à criança e explicou que algumas marcas registradas no processo precisam ser analisadas tecnicamente dentro do contexto da tentativa de socorro. "A própria Monique relatou manobras de ressuscitação. Algumas lesões podem ter relação com esse atendimento e isso precisa ser avaliado pelos peritos", afirmou.
Damasceno relembrou parte do primeiro depoimento de Jairinho, quando o ex-vereador alegou que estava dormindo no momento da morte do menino. "Ele disse no primeiro depoimento que tinha tomado uma medicação Zolpidem e que teria dormido a noite toda, que a defesa se preocupou em dizer que ele estava dormindo a noite toda na noite da morte. Monique disse que não viu, mas disse acreditar que sim, ele teria tomado, porque sempre tomava".

O delegado também voltou a mencionar a ida de Henry ao Hospital Barra D'Or e relatou que Jairinho teria feito contatos insistentes com integrantes da unidade após a chegada da criança. Segundo Damasceno, a perícia feita pelo IML foi decisiva para esclarecer a causa da morte.
Além disso, afirmou que um documento indica quem matou o menino. "Foi feito o relatório e enviado para a justiça apontando o Jairo como autor das agressões e que lá estavam ele e Monique. Verificamos que nas outras torturas ela tinha ciência. Mas eu seria leviano em apontar um nome. Mas ao que tudo indica, quem matou foi o Jairo. Do dia 7 para o dia 8".
Mãe de Monique
Mais um trecho do depoimento chamou atenção ao tratar da postura de familiares de Monique logo após a morte do menino. Segundo o delegado, o comportamento observado pela equipe policial naquele momento foi considerado incomum.

"Me chamou atenção a avó não ter perguntado sobre o neto logo depois do ocorrido. O natural seria querer saber o que aconteceu. Foi exatamente o contrário do que eu vi", disse.
Em outro momento, a defesa de Jairinho mencionou uma carta escrita avó materna de Henry, em que ela relatou como foi o depoimento para o delegado na época. A avô materna disse que ele teria batido na mesa e afirmado que queria prender o ex-vereador logo. Damasceno, então, questionou a afirmação. O advogado, por sua vez, recuou, dizendo que não estava insinuando nada.
A sessão desta terça também teve momentos de tensão entre defesa e acusação. Em um dos debates, houve divergência sobre a quantidade e a interpretação das lesões apontadas no processo. A juíza Elizabeth Machado Louro precisou intervir e ressaltou que a avaliação técnica será detalhada pelas próximas testemunhas.

O julgamento entrou na fase de depoimentos depois de um primeiro dia marcado por pedidos da defesa de Jairinho para adiar o júri e por questionamentos sobre provas e laudos reunidos na investigação. Todos os requerimentos foram rejeitados pela magistrada.
Relembre o caso

Henry Borel morreu aos 4 anos, na madrugada do dia 8 de março de 2021, no apartamento onde estava com a mãe e o então padrasto, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. O Ministério Público sustenta que Jairinho agrediu o menino e que Monique se omitiu diante da violência. O ex-vereador responde por homicídio triplamente qualificado e tortura. Já Monique é acusada de homicídio por omissão e outros crimes relacionados ao caso. Ambos negam as acusações.

A previsão do Tribunal de Justiça é que o júri continue pelos próximos dias, com depoimentos de delegados, peritos e testemunhas antes dos interrogatórios dos réus e da decisão do Conselho de Sentença.

Início da sessão

Por volta das 9h40, a juíza Elizabeth Machado Louro deu início aos questionamentos ao delegado Henrique Damasceno, que recebeu o registro de ocorrência da morte de Henry quando estava à frente da 16ª DP (Barra da Tijuca). O depoimento dele já dura mais de 6 horas.

Durante seu depoimento, o delegado explicou que o crime não foi direto para a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) porque foi registrado como violência doméstica. Os relatos e as marcas de violência no corpo do menino, no entanto, contestaram esta versão.

"O depoimento dos dois era absolutamente compatível. Foram versões absolutamente mentirosas. Eles sabiam das agressões que o menino sofria. Ficou muito demonstrado pela investigação que o menino já havia tido episódios muito sérios de violência na casa. Era o mesmo advogado para os dois. O normal é ver uma família destruída. Já trabalhei em casos em que morre uma criança e ela está preocupada em saber o que aconteceu, não em treinar com advogado para prestar depoimento. Isso não é comum, posso assegurar que não é comum", afirmou

Para Damasceno, o caso se demonstrava complexo desde o início. Ele revelou que chegou a pensar em encaminhá-lo para a DHC, mas foi aconselhado por Antenor Lopes Martins Júnior, Diretor do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), à época, a manter na delegacia, já que a ocorrência havia sido narrada como violência doméstica.

O primeiro dia de julgamento ficou marcado por reviravoltas envolvendo a defesa de Jairinho e embates entre os representantes jurídicos dos dois réus. Os advogados do ex-vereador ainda apresentaram uma nova série de pedidos de nulidade e questionaram desde provas digitais e laudos periciais até a participação da assistência de acusação.

Ao fim das manifestações, a juíza rejeitou todos os requerimentos e determinou a continuidade do júri. A sessão, porém, foi encerrada sem ouvir as testemunhas que estavam previstas para depor.

No plenário, o clima ficou tenso após a defesa de Monique apresentar argumentos que, na avaliação dos advogados de Jairinho, tentavam direcionar a responsabilidade do crime exclusivamente ao ex-vereador. Os representantes da mãe de Henry rebateram que não alteraram a atuação no processo.
Primeiro dia de julgamento
O primeiro dia de julgamento, nesta segunda-feira (25), foi  marcado por reviravoltas envolvendo a defesa de Jairinho e embates entre os representantes jurídicos dos dois réus. Os advogados do ex-vereador ainda apresentaram uma nova série de pedidos de nulidade e questionaram desde provas digitais e laudos periciais até a participação da assistência de acusação.
Ao fim das manifestações, a juíza rejeitou todos os requerimentos e determinou a continuidade do júri. A sessão, porém, foi encerrada sem ouvir as testemunhas que estavam previstas para depor.
No plenário, o clima ficou tenso após a defesa de Monique apresentar argumentos que, na avaliação dos advogados de Jairinho, tentavam direcionar a responsabilidade do crime exclusivamente ao ex-vereador. Os representantes da mãe de Henry rebateram que não alteraram a atuação no processo.