Delegado Henrique Damasceno era titular da 16ª DP na época da morte do menino Henry BorelReginaldo Pimenta/Agência O Dia
Questionado pelos advogados de defesa, Damasceno reafirmou que manteria integralmente as conclusões apresentadas no inquérito conduzido pela 16ª DP (Barra da Tijuca), responsável pelo caso na época. "Não tem nada que eu queira modificar nas mais de 100 páginas do inquérito", declarou aos jurados.
Ao longo do depoimento, o delegado reforçou que a investigação concluiu que Henry morreu em decorrência das lesões sofridas e descartou a hipótese de que algum problema de saúde tenha provocado a morte. "Nunca vi nada diferente do que deveria constar no IML [Instituto Médico Legal], nada diferente do que deveria", afirmou Damasceno, ao comentar os laudos periciais.
De acordo com Damasceno, os diálogos revelaram que o menino já havia apresentado sinais de violência semanas antes da morte. Em uma das conversas analisadas pela polícia, a babá relatou, no dia 12 de fevereiro, que a criança ficou sozinha com Jairinho dentro de um quarto e deixou o local mancando, reclamando de dor na cabeça e chorando muito. A funcionária teria pedido que Monique retornasse para casa naquele momento.
Durante a audiência, ele também voltou a citar as imagens do circuito interno do condomínio onde Henry morava com a mãe e o então padrasto. Segundo ele, a análise feita pela equipe de investigação indicou que o menino já estava sem reação quando foi levado ao elevador na madrugada de 8 de março de 2021.
A defesa de Jairinho concentrou parte dos questionamentos na condução do inquérito e tentou apontar possível parcialidade da investigação. Damasceno negou qualquer favorecimento, rebateu insinuações de proximidade com Leniel Borel, pai de Henry, e afirmou que nunca recebeu "presente" ou qualquer tipo de benefício relacionado ao caso.
Em outro momento, ele falou sobre o atendimento médico prestado à criança e explicou que algumas marcas registradas no processo precisam ser analisadas tecnicamente dentro do contexto da tentativa de socorro. "A própria Monique relatou manobras de ressuscitação. Algumas lesões podem ter relação com esse atendimento e isso precisa ser avaliado pelos peritos", afirmou.
O delegado também voltou a mencionar a ida de Henry ao Hospital Barra D'Or e relatou que Jairinho teria feito contatos insistentes com integrantes da unidade após a chegada da criança. Segundo Damasceno, a perícia feita pelo IML foi decisiva para esclarecer a causa da morte.
"Me chamou atenção a avó não ter perguntado sobre o neto logo depois do ocorrido. O natural seria querer saber o que aconteceu. Foi exatamente o contrário do que eu vi", disse.
O julgamento entrou na fase de depoimentos depois de um primeiro dia marcado por pedidos da defesa de Jairinho para adiar o júri e por questionamentos sobre provas e laudos reunidos na investigação. Todos os requerimentos foram rejeitados pela magistrada.
Henry Borel morreu aos 4 anos, na madrugada do dia 8 de março de 2021, no apartamento onde estava com a mãe e o então padrasto, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. O Ministério Público sustenta que Jairinho agrediu o menino e que Monique se omitiu diante da violência. O ex-vereador responde por homicídio triplamente qualificado e tortura. Já Monique é acusada de homicídio por omissão e outros crimes relacionados ao caso. Ambos negam as acusações.
A previsão do Tribunal de Justiça é que o júri continue pelos próximos dias, com depoimentos de delegados, peritos e testemunhas antes dos interrogatórios dos réus e da decisão do Conselho de Sentença.
Início da sessão
Por volta das 9h40, a juíza Elizabeth Machado Louro deu início aos questionamentos ao delegado Henrique Damasceno, que recebeu o registro de ocorrência da morte de Henry quando estava à frente da 16ª DP (Barra da Tijuca). O depoimento dele já dura mais de 6 horas.
Durante seu depoimento, o delegado explicou que o crime não foi direto para a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) porque foi registrado como violência doméstica. Os relatos e as marcas de violência no corpo do menino, no entanto, contestaram esta versão.
"O depoimento dos dois era absolutamente compatível. Foram versões absolutamente mentirosas. Eles sabiam das agressões que o menino sofria. Ficou muito demonstrado pela investigação que o menino já havia tido episódios muito sérios de violência na casa. Era o mesmo advogado para os dois. O normal é ver uma família destruída. Já trabalhei em casos em que morre uma criança e ela está preocupada em saber o que aconteceu, não em treinar com advogado para prestar depoimento. Isso não é comum, posso assegurar que não é comum", afirmou
Para Damasceno, o caso se demonstrava complexo desde o início. Ele revelou que chegou a pensar em encaminhá-lo para a DHC, mas foi aconselhado por Antenor Lopes Martins Júnior, Diretor do Departamento-Geral de Polícia da Capital (DGPC), à época, a manter na delegacia, já que a ocorrência havia sido narrada como violência doméstica.
O primeiro dia de julgamento ficou marcado por reviravoltas envolvendo a defesa de Jairinho e embates entre os representantes jurídicos dos dois réus. Os advogados do ex-vereador ainda apresentaram uma nova série de pedidos de nulidade e questionaram desde provas digitais e laudos periciais até a participação da assistência de acusação.
Ao fim das manifestações, a juíza rejeitou todos os requerimentos e determinou a continuidade do júri. A sessão, porém, foi encerrada sem ouvir as testemunhas que estavam previstas para depor.
No plenário, o clima ficou tenso após a defesa de Monique apresentar argumentos que, na avaliação dos advogados de Jairinho, tentavam direcionar a responsabilidade do crime exclusivamente ao ex-vereador. Os representantes da mãe de Henry rebateram que não alteraram a atuação no processo.







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