Policiamento segue reforçado em Rio das PedrasReginaldo Pimenta/Agência O DIA

Rio - Comerciantes de Rio das Pedras, na Zona Sudoeste, revelaram ao DIA a rotina de medo em meio à guerra entre traficantes e milicianos na região. Segundo uma das denúncias, além dos constantes confrontos, moradores e trabalhadores enfrentam cobranças de taxas abusivas impostas por criminosos.

Na manhã desta sexta-feira (19), uma nova troca de tiros levou pânico à população e afetou a circulação de ônibus na região. Ao longo da manhã, a Polícia Militar reforçou o policiamento no local.

Segundo um comerciante, que preferiu não se identificar por medo de represálias, os moradores só querem o direito de trabalhar e se locomover normalmente.

"A gente, comerciante, sofre com isso porque, infelizmente, é uma guerra. As pessoas ficam com receio de visitar familiares, amigos, até mesmo namoradas, que moram em outra região de conflito. A gente quer trabalhar em paz e não consegue, é uma coisa bem complicada para a gente que é morador e comerciante, nós só queremos ganhar o pão de cada dia e, infelizmente, não podemos devido a essa guerra", disse.

O trabalhador comentou ainda a dificuldade de transitar na região devido às barricadas. "A gente não tem nada a ver com isso, mas infelizmente quem sofre é o morador. Aqui nem viatura, nem ambulância entra devido à barricada. Infelizmente, é um sofrimento diário para a gente, é a favela tentando viver através do crime organizado", lamentou.

Outro comerciante afirmou que a violência tem se agravado a cada dia. Segundo ele, a disputa pelo controle do território se intensificou com a migração de milicianos para o Comando Vermelho e as sucessivas invasões promovidas pela facção.

"Isso atrapalha a gente para caramba, porque a gente quer trabalhar sossegado e não pode. A gente só quer trabalhar em paz e não consegue", afirmou.

Cobrança de taxas

De acordo com uma denúncia recebida pelo DIA, as cobranças de taxas variam desde água, internet, TV, "segurança" e até mesmo para moradia.

Para a denunciante, a situação está insustentável. "Somos cobrados por tudo para morar aqui, nós somos oprimidos por tudo, temos que andar na linha porque quem desviar um pouquinho, morre. Esse poço que foi achado é o começo de muitas coisas feias que têm acontecido dentro do Rio das Pedras. Infelizmente, a justiça fechou os olhos para tudo isso, não tem leis para nós que vivemos aqui. A gente pede socorro há muitos anos, eles (criminosos) observam a vida de todo mundo, ao ponto de chegar a pedir R$ 50 mil em dinheiro para comerciante, a pessoa passar mal, sofrer infarto, e os caras debocharem da tua cara”, contou.

Ainda de acordo com o relato, os moradores são obrigados a pagar R$ 50 por caixa d´água, além de outras taxas.

"Nós pagamos para morar na nossa própria casa, tem muita gente que não pagou e vive décadas tentando fazer sua casa para ter que pagar R$ 100. Também tem R$ 100 do gato da energia, que foi um sistema implantado. Hoje a bandidagem tomou conta, eles colocaram em alguns prédios grandes, que tem vários apartamentos, uma urna, tipo um cofre com uma câmera e o morador coloca o seu dinheiro semanalmente, aponta para câmera e eles vêm fazer recolhimento na madrugada de domingo para não ser pego", acrescentou.

A denúncia revela ainda a violência imposta pelo crime. "Morador tem fechar a boca, a gente não pode mexer no celular no meio da rua, se acharem alguma coisa no nosso celular, ele é quebrado e a gente leva tapa na cara. A gente não tem respeito. Esse pessoal, eles não querem vender cocaína, maconha, colocar boca de fumo, eles querem o dinheiro que eles cobram dos moradores. Essa região nossa aqui é onde eles vão conseguir ter dinheiro para manter a compra de arma deles e pagar os policiais corruptos que os ajuda", frisou.

Por fim, a denunciante fez um desabafo. "As pessoas aqui estão tentando viver e o pior de tudo é que nós somos obrigadas a viver do jeito que eles querem, da maneira que eles querem, como eles querem, a gente não tem uma outra opção", lamentou.

Região tem histórico de violência

Esta sexta-feira (19) foi o terceiro dia seguido de confrontos na região. Segundo relatos de moradores, traficantes do Comando Vermelho (CV) teriam invadido a comunidade dominada pela milícia.
O tiroteio ocorre um dia depois da Polícia Civil encontrar mais um cemitério clandestino utilizado por milicianos. Na ação, foi localizado, em uma área de mata no alto da Estrada dos Sertões, um poço com cerca de 20 metros de profundidade que era usado para ocultar corpos de vítimas do grupo paramilitar que domina a região. Do interior do fosso foram retirados dois corpos em avançado estado de decomposição, além de um crânio e outros despojos humanos. Todo o material foi encaminhado para perícia e exames de identificação. A suspeita é que sejam dois corpos do sexo masculino.
Ainda na tarde de quinta (18), criminosos sequestraram um ônibus da linha 343 (Jardim Oceânico x Candelária), retiraram a chave e o usaram como barricada na Avenida Engenheiro Souza Filho, uma das principais vias da região. Na ocasião, caçambas de lixo também foram usadas para interditar a rua.
Na quarta (17), equipes da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA) também encontraram uma área usada para a ocultação de cadáveres na localidade conhecida como Sertão. Na madrugada, um intenso tiroteio também foi registrado.