Movimentação de passageiros na Central do BrasilFred Vidal/Agência O DIA

Rio - Passageiros revelaram transtornos em meio a greve de rodoviários na manhã desta segunda-feira (29). Na Central do Brasil, uma equipe do DIA constatou pouca circulação de ônibus e grande fluxo de passageiros. Segundo o Rio Ônibus, apenas 860 veículos circulam pelas ruas.
Entre os cariocas que tentavam chegar ao trabalho, o carpinteiro Rodolfo Rocha, 30 anos, ficou mais de duas horas no ponto e decidiu voltar para casa.

"Não está rodando ônibus nenhum da linha 315, nem 361 desde de manhã. Aí eu comuniquei a empresa e estou indo pra casa. Eu fiquei umas 2h30 no ponto, cheguei umas 4h40/5h e até agora (às 7h) não passou nada. Está tudo lotado, o povo está indo embora, nem o cara que fica na cabine ali do ponto deles está lá. Isso acaba prejudicando não só eu, como a empresa também, pois não tem como chegar na empresa", disse.

O militar Ivan Carlos, 53 anos, também enfrentou dificuldades e optou por um carro de aplicativo. "Geralmente, eu saio a esse horário, tem a van e tem o ônibus também, mas os dois meios de transporte estavam demorando demais para passar. Então, tive que pegar um carro por aplicativo para não chegar atrasado no meu trabalho. Tem muita gente na rua, em Campo Grande, onde eu peguei o trem, também estava lotado. Eu já estava ciente da grave, mas eu tenho que pegar ônibus e ficou muito complicado. Aí eu tive que pegar o Uber", contou.

A doméstica Conceição da Silva, 58 anos, explicou que também precisava chegar ao trabalho e reclamou das condições do transporte público na cidade.
"Minha opção vai ser pagar um carro por aplicativo. Cheguei aqui umas 7h. As condições de transporte aqui deixa a desejar, a gente fica na fila, é uma confusão e as condições são péssimas. Nada é a favor do lado do trabalhador, tem que melhorar muita coisa. Tudo bem que os motoristas têm direito, eles têm que ver os lados deles também, mas e aí os trabalhadores ficam à mercê? Porque tem uns que trabalham na diária e se não for, a gente perde, aí fica complicado", afirmou.
O entregador David Ferreira, 43 anos, saiu de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, para o Centro do Rio.

"Eu vim resolver uns problemas aqui no Centro do Rio. Eu demorei uns 45 minutos pra conseguir pegar o ônibus e veio lotado, muito cheio. Se ficar mais dias assim vai piorar porque todo carioca depende da circulação de ônibus. Isso prejudica pra ir ao trabalho, na ida pra casa, na vinda, em tudo, na locomoção em geral", explicou.

O engenheiro Civil, Daniel Braga, 30 anos, soube da greve com antecedência e optou por pegar uma van, mas reforçou que a paralisação está prejudicando a população.

"Isso afetou e paralisou muitas pessoas que estão indo para o seu trabalho. Eu consegui chegar aqui relativamente cedo porque peguei uma van e procurei outros meios, mas, hoje, realmente está difícil a condução. Não sei como vai ser o desenrolar da semana. A van até estava vazia. Eu creio que muitas empresas aderiram ao facultativo, justamente por causa do jogo do Brasil", acrescentou.

Daniel acredita que os motoristas devem reivindicar melhorias, mas espera que a greve não se estenda por muitos dias.

"Eu acho que é complicado para o trabalhador, mas tem uma certa reivindicação. Eu sei que essa greve afeta nós trabalhadores que não temos nada a ver, mas a gente lamenta, né? Vai fazer o que? Eles estão buscando o que é deles, temos que segurar um pouco as pontas, ter paciência por um ou dois dias, não sei quanto tempo vai durar até estabilizar, até ter uma resposta mais positiva", frisou.

O pedreiro Mário César, 49, saiu de Nilópolis, na Baixada Fluminense, para o Centro, e contou ter ficado mais de 40 minutos esperando o ônibus.

"Geralmente, eu chego aqui um pouquinho mais cedo e com essa dificuldade fiquei quase 40 minutos esperando no ponto de ônibus, geralmente espero só 20 ou 15 minutos. Apesar disso, hoje até que veio vazio por causa do jogo do Brasil mais tarde, mas se permanecer assim, amanhã vai ser bastante complicado", narrou.
Paralisação afetou diversas regiões

Os problemas com transporte se estendem em diversas regiões do município. Em um ponto de ônibus, na Rua Cardoso de Moraes, em Bonsucesso, na Zona Norte, passageiros também relataram horas de espera.

O auxiliar de serviços gerais Wilson Vieira da Silva, 58 anos, revelou que deveria estar no trabalho às 7h, mas por volta das 8h ainda aguardava a condução.

"Olha a hora que estou tentando chegar no trabalho, demorei 1h30 mais ou menos pra pegar um ônibus até aqui, normalmente espero no máximo meia hora.Eu acordei 4h30, sou morador do Andaraí e trabalho no Hospital de Bonsucesso, estou esperando outro ônibus pra conseguir chegar lá", explicou.

Também auxiliar de serviços gerais, Joyce Silva, 38, saiu de casa antes das 6h e mesmo assim estava há mais de uma hora atrasada para o emprego.

"A condução está péssima hoje, o percurso está demorando muito. Eu saí cedo, mas estou chegando tarde no trabalho, saí de casa 5h50, fui pegar o ônibus 6h45, normalmente pego no intervalo 20 minutos. Não estava passando nenhuma condução, eu pego 7h, já são 8h11 e é complicado. Tem muita gente no ponto esperando", lamentou.

Outro passageiro, o auxiliar de serviços gerais João Paulo Alvarenga contou que precisou pegar uma van até Bonsucesso, onde aguarda por outro ônibus.

"Quando não tem ônibus tem muita van, mas estava muito cheio. Estou desde 4h50 tentando pegar o ônibus e eu pego no trabalho às 7h. Eu sempre chego no meu serviço às 6h30 e agora já são 8h e estou aqui ainda", afirmou.

Já Muhammad Ali, 45 anos, tentava chegar à Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste. "Acordei 5h e até agora não tem ônibus nenhum, estou tentando ir para Barra da Tijuca e não consigo. Estou atrasado, já são 8h, daqui a pouco vou pra casa dormir, descansar, porque não vou conseguir chegar, o patrão me ligou e pediu pra eu esperar até 9h", disse.
Devido a paralisação, a Universidade Federal do Estado do Rio (UFRJ) informou que estudantes e servidores que enfrentarem dificuldades de deslocamento poderão justificar suas ausências de forma simplificada.
"A universidade também recomenda que as avaliações previstas para hoje sejam adiadas. Quando isso não for possível, deverá ser garantida a realização de segunda chamada aos estudantes impossibilitados de comparecer, sem prejuízo acadêmico", ressaltou em comunicado.
A estudante Thamires Mendes, de 24 anos, precisou alterar totalmente seu trajeto para chegar ao campus da UFRJ na Praia Vermelha, na Zona Sul do Rio. Ela contou que teve prova e precisou entrar em um coletivo lotado para conseguir desembarcar próximo à faculdade.
"De manhã, costumo pegar a Linha 232 (Lins x Castelo), que me deixa na Central, e depois pego um outro ônibus para a faculdade. Mas hoje não vi nenhum da Linha 232, então tive que mudar totalmente o meu trajeto. Peguei o 457 (Abolição x Copacabana), muito precário, muito lotado", lamentou a jovem.
A operadora de caixa Renata dos Santos, de 23 anos, esperou no mesmo ponto de ônibus, na Avenida Venceslau Brás, para embarcar em direção ao Méier. Ela comentou que, apesar das dificuldades enfrentadas nesta manhã, apoia as reivindicações do sindicato.
"Os ônibus que eu pego costumam passar o tempo todo! O 457 (Abolição x Copacabana), 404 (Cordovil x Leblon)... Mais cedo, até consegui ônibus normalmente, mas agora está complicado. Os motoristas devem reivindicar os direitos deles, eles estão certos, mas acaba nos prejudicando um pouco. Nos próximos dias, deve ficar ainda pior", destacou.
O ponto da Avenida Osvaldo Aranha, em São Cristóvão, ficou lotado de passageiros na espera por um ônibus. A dona de casa Leila Almeida, de 38 anos, esperou por mais de uma hora para embarcar a caminho de uma consulta em um hospital.
"Estou atrasada para uma consulta… O ponto estava cheio, o pessoal está esperando por bastante tempo. Estou há quase uma hora aqui no ponto, estou até pensando em pedir um carro por aplicativo. Moro no Jardim Primavera, em Duque de Caxias, vim de trem e preciso pegar um ônibus para ir ao hospital. Tenho três opções de ônibus e ainda não passou ninguém. Não posso perder essa consulta, já estou esperando há algum tempo", pontuou Leila.
A auxiliar administrativa Naiara Gomes, de 27 anos, sofreu teve dificuldades de encontrar ônibus no bairro do Caju e em São Cristóvão.
"Vim de van porque já tinha visto que aconteceria a greve. Eu saí da casa da minha namorada, no Caju, e vim para esse ponto, fazer baldeação. Já lá no Caju, não vi nenhum ônibus passando, então vim de van, que estava muito cheia. Estou esperando aqui há cerca de 10 minutos", afirmou.
Como alternativa, segundo o Centro de Operações Rio, o sistema de metrô, trens e barcas está em funcionamento regular para atender à população. Em nota, a prefeitura informou ainda que acompanha a situação e reforça que adotará as medidas necessárias para reduzir os impactos aos passageiros e garantir o direito de ir e vir dos cariocas, e que, inclusive, já solicitou à Justiça o aumento do percentual para circulação.
Segundo a Justiça do Trabalho, ao menos, 50% da frota deveria continuar em funcionamento. Em caso de descumprimento das determinações, o TRT fixou uma multa diária de R$ 50 mil, aplicada de forma independente a cada uma das entidades sindicais.
De acordo com o Rio Ônibus, neste primeiro dia de greve, 40 coletivos foram vandalizados. No início da manhã, apenas 600 coletivos estavam nas ruas. Em nota, a empresa informou ainda que desde a 00h todas as garagens estão com as portas abertas e prontas para que os rodoviários coloquem a frota em circulação.
"Nosso objetivo é atender à decisão judicial e, principalmente, garantir o transporte da população carioca. Vale ressaltar que, devido ao jogo do brasil, já havia uma escala com redução de frota previamente definida pela Prefeitura. Os Consórcios fazem um apelo a todos os motoristas e rodoviários para que compareçam às suas garagens para que a normalidade do serviço seja restabelecida o quanto antes, em benefício de todos", explicou.
De acordo com o Sindicato dos Rodoviários, a categoria reivindica reajuste salarial, alegando que os vencimentos estão defasados e cobram melhores condições de trabalho, com a instalação de banheiros e bebedouros nos terminais. Além disso, os trabalhadores também denunciam o aumento da violência, com sequestros e a utilização dos veículos como barricadas.
"A greve está mantida e vamos cumprir o determinado pela Justiça, que é a de que ambas as partes mantenham 50% da frota circulando nos horários de pico, ou seja, pela manhã e à noite. Inclusive já encaminhamos ofício para a direção do Rio Ônibus e consórcios para o cumprimento da tutela de urgência operacional determinado pela justiça. Até o momento ainda não recebemos nenhum retorno por parte dos empresários. Determinação é para ser cumprida e não discutir", disse Sebastião José, presidente do sindicato.
Audiência de mediação
Uma audiência de mediação com Tribunal Regional do Trabalho está marcada para terça (29), às 11h. Logo em seguida, às 11h30 haverá uma assembleia com a categoria.
De acordo com o presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, a expectativa é que os rodoviários já saiam de lá com uma proposta de acordo para por fim a greve.
"Esperamos sinceramente que amanhã o TRT já defina essa situação para que os usuários não continuem sendo prejudicados. O fato da justiça considerar a legalidade da greve é de grande importância e uma grande vitória para a categoria, pois reconhece as dificuldades que os trabalhadores do setor vem sofrendo durante todos esses anos com salários defasados, terminais sem banheiros, bebedouros e que com o aumento da violência", reforçou.