Rio - Há mais de quatro décadas à frente de um dos tradicionais pontos de encontro da cultura carioca, o comerciante José Anselmo Filho, 78 anos, enfrenta uma batalha judicial e emocional após o fechamento do Bar do Seu Zé, na Rua Barão de Guaratiba, na Glória, Zona Sul. Segundo a família, uma disputa envolvendo o terreno vizinho, utilizado há décadas como área de apoio ao estabelecimento, culminou em dois desabamentos que comprometeram a estrutura do imóvel e interromperam as atividades do bar.
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O imóvel onde funciona o Bar do Seu Zé, no número 49, pertence ao comerciante desde 1982. Com a compra do estabelecimento, ele e sua mulher, Ivonete Ribeiro Anselmo, 75, passaram a utilizar o terreno ao lado, de número 47, para armazenar cadeiras, engradados e outros materiais.
Filha do casal, a jornalista Mércia Ribeiro, 48, afirma que o uso do terreno de suporte é anterior à chegada da família ao local.
"Historicamente, sempre foi assim. Quando meus pais chegaram, em 1982, era um armazém que pertencia ao senhor Rocha. Meu pai comprou o ponto e começou a trabalhar. O senhor Rocha - e temos cartas de moradores antigos da rua que confirmam - já utilizava o terreno do 47 como suporte para o armazém. O salão da loja é pequeno, então ali colocávamos cadeiras, engradados… Sempre foi assim e ninguém nunca mexeu. Meu pai sempre foi respeitado", disse.
A família relatou que a situação mudou em março deste ano. Seu Zé encontrou um portão preto com três trincos instalado no terreno de apoio e foi informado por uma mulher, identificada como Cláudia, de que ela havia se apropriado da área.
"A gente ouvia barulhos de enxada, quebra-quebra, mas não sabíamos o que ela estava fazendo. Meus pais são idosos, eu e minha irmã somos duas mulheres. Ficamos amedrontadas e a rua inteira ficou indignada", afirmou.
Na madrugada de 27 de março, poucas horas após o fechamento do bar, parte da parede que separava os dois terrenos desabou. A professora Gisele Ribeiro Anselmo, 44, irmã de Mércia, mora no apartamento localizado acima do estabelecimento e conta que acordou assustada com o impacto.
"A gente ainda não sabia o que tinha acontecido, então contratamos vários engenheiros. Eles foram unânimes: a obra irregular no terreno do número 47 fez pressão na parede e, por isso, ela caiu. Aí tivemos dimensão das consequências da invasão ao terreno. Até então, estávamos tentando conversar, mas sempre foram truculentos", disse.
No dia seguinte ao desabamento, engenheiros alertaram para o risco de colapso da estrutura. A família interditou a área com uma faixa, mas afirma que ela foi retirada diversas vezes por pessoas que estavam no terreno vizinho. Segundo Gisele, o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil também instalaram sinalizações de interdição, que foram removidas diversas vezes.
A situação se agravou em junho, quando uma nova parte da parede desabou. "Se o bar estivesse funcionando, eu não estava mais aqui", desabafou o comerciante. Além dos prejuízos materiais, Seu Zé lamenta a perda de um grafite feito em sua homenagem por frequentadores do bar, que foi coberto com tinta.
"Eu fiquei muito chateado… O pessoal gosta de mim, fizeram um grafite em minha homenagem no muro do terreno. Eles foram lá e apagaram tudo… São muito abusados. Era um grafite muito legal e meteram tinta em cima", contou.
No processo judicial, Cláudia afirma ocupar o terreno há 20 anos. A família, no entanto, contesta a versão e destaca que o portão foi instalado apenas em 25 de março. Como forma de reforçar sua alegação, moradores e clientes organizaram um abaixo-assinado com mais de 1.400 assinaturas atestando que Seu Zé utiliza o terreno de número 47 como apoio ao bar há décadas.
A disputa também alterou a rotina da família, que mora nas proximidades do estabelecimento. Mércia afirma que se sente intimidada ao passar pelo local.
"Um dia desses, ela veio gritando para cima de mim. Ela estava fazendo um churrasco na calçada, com facas, e veio em minha direção gritando. Eu tive que olhar para o horizonte e seguir meu caminho, sem olhar para o lado. Nunca passei por isso na minha vida e tem sido muito delicado. O nosso ir e vir está prejudicado", relatou.
Para Mércia, o fechamento do estabelecimento representa a interrupção de uma rotina construída ao longo de décadas de trabalho.
"Está sendo muito duro para a gente. Meu pai não está sendo respeitado, minha mãe não está sendo respeitada… Meu pai nasceu no interior da Paraíba e veio, aos 18 anos, para trabalhar. O foco dele sempre foi trabalhar para que a gente tivesse melhores condições. A rotina do meu pai era tomar café da manhã e ir ao bar, até aos domingos. Na semana seguinte ao desabamento, meu pai me ligou emocionado e disse: 'Filha, eu estava pronto para sair para trabalhar e aí lembrei que não tenho como trabalhar'. A rotina dele sempre foi essa, faz parte da essência dele. Não temos mais estrutura, temos muitas incertezas, não conseguimos dormir direito e não sabemos o que vai acontecer. É muito impactante emocionalmente, economicamente", desabafou.
Defesa pede paralisação imediata das obras e aguarda decisão do Tribunal de Justiça
Segundo o advogado João Pedro Alves de Souza, que representa a família de Seu Zé, a ação movida pela defesa não é apenas contra a mulher apontada pela família como responsável por invadir o terreno, mas também contra um homem identificado como José Clarismar, que reivindica a posse da área em outro processo. "Resumidamente, a Cláudia invadiu o terreno, o Clarismar reclamou, e a gente não concorda com nenhum dos dois, então entramos contra eles", explicou.
Na ação, a família pede o reconhecimento da posse do terreno utilizado como apoio ao Bar do Seu Zé e a suspensão imediata das obras realizadas no local até o julgamento do processo, sob pena de multa. O pedido de tutela de urgência foi negado em primeira instância, mas a defesa recorreu ao Tribunal de Justiça após reunir novas provas, entre elas o abaixo-assinado com mais de 1.400 assinaturas e declarações de testemunhas.
"Nesse meio tempo, a pessoa que invadiu o terreno avançou nas obras e provocou mais desabamento. A situação está se agravando com o tempo. A gente está com esse perigo da demora justamente por conta do risco de mais desabamento", afirmou o advogado, acrescentando que o relator do recurso pode conceder a liminar de forma monocrática a qualquer momento.
João Pedro explica que a disputa envolve a posse do terreno, e não a propriedade formal do imóvel. Segundo ele, não há registro de titularidade da área no Registro Geral de Imóveis (RGI), o que torna a comprovação da posse dependente de outros elementos, como testemunhos, perícias e documentos. "A posse pode ser provada de qualquer forma. O documento por si só não basta. Pode ser provada por testemunhas, por perícia, por outros meios de prova", afirmou.
De acordo com o advogado, a defesa já apresentou declarações com firma reconhecida de moradores e outros elementos que indicam que o terreno é utilizado pelo bar desde a década de 1980. "A gente tem muitos elementos de prova que podem contribuir com o pleito, mas tem que esperar o Judiciário", concluiu.
Arquiteto aponta risco de novos desabamentos e defende intervenção urgente
Responsável pelo projeto de reforma para a reabertura do Bar do Seu Zé, o arquiteto Rodrigo Azevedo afirma que a movimentação irregular do terreno vizinho foi determinante para o desabamento que atingiu o estabelecimento. Cliente antigo do estabelecimento e fundador da Azevedo Agência de Arquitetura, criada há 20 anos, ele foi procurado pela família para analisar as causas do incidente. Entre os trabalhos assinados pelo profissional estão projetos na Estação Leopoldina e na Praça Onze.
Segundo Azevedo, o terreno de número 47 abrigava uma antiga construção que foi demolida ou desabou ao longo dos anos, formando uma grande massa de entulho. Para ele, a movimentação desse material de forma inadequada, em meio ao período chuvoso, agravou a pressão exercida sobre a parede que dividia os terrenos.
"A gente lida com problemas de estrutura, temos experiência nisso. No terreno de número 47, existia uma construção antiga que caiu ou foi demolida e ficou uma massa de entulho. Uma montanha mesmo, que recebeu chuva, vegetação… Os invasores entraram e começaram a limpar o terreno, mas é impossível limpar manualmente. É uma montanha de entulho. Eles começaram a movimentar essa massa coincidindo com o período de chuvas do Rio de Janeiro. É claro que já havia uma pressão sobre a parede, mas essas movimentações fazem entrar mais água, empurram e aumentam essa pressão. Por isso, a parede desabou."
O arquiteto alerta que o risco estrutural ainda persiste. De acordo com ele, o muro voltado para a Rua Barão de Guaratiba também está sob pressão e pode desabar caso nenhuma intervenção seja realizada. "O muro da rua tem uma estrutura de concreto que também está sofrendo pressão, então ainda pode cair esse muro para a rua", afirmou.
Azevedo informou ainda que a equipe busca autorização para acessar o terreno e iniciar as obras emergenciais. "A gente entrou com uma liminar para que tenhamos autorização para entrar no terreno e começarmos as obras, mas a Prefeitura do Rio já tem essa autorização. Então, estamos tentando conversar para ter esse apoio, que seria superimportante", disse.
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