Volta para casa tem filas, apagões e ônibus lotados após ventaniaReprodução X

Rio - A volta para casa dos cariocas nesta quarta-feira (29) foi marcada por transtornos após a forte ventania que atingiu o estado. Com apagões, semáforos desligados, trens e metrô paralisados e congestionamentos em diferentes regiões, milhares de trabalhadores enfrentaram longas filas e ônibus lotados para conseguir chegar em casa. Assista: 

A estudante de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Maria Alice Oliveira, 27 anos, saiu do trabalho, na Rua da Assembleia, no Centro, pouco depois das 17h, mas encontrou um cenário de caos.
"A luz acabou por volta das 16h30 por causa dos ventos. Nós tivemos que descer 18 lances de escada porque o prédio ficou sem energia. Quando colocamos o pé na rua, a luz voltou, mas o metrô e o trem continuavam sem funcionar. Os pontos de ônibus estavam lotados e uma corrida de aplicativo da Carioca até a Tijuca estava custando R$ 120", contou.

Segundo ela, a cidade parecia paralisada: "Tinha folhas voando por toda parte, placas de propaganda sendo levadas pelo vento e os pedestres andando com o rosto coberto, procurando abrigo dentro dos comércios".

Morador do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Zona Norte, Pedro Soares também enfrentou dificuldades para voltar para casa. "Eu estava no ônibus quando começou uma ventania absurda. O trânsito ficou completamente engarrafado e os carros praticamente não conseguiam andar, bem na hora do rush. Quando cheguei perto de casa, vi que o bairro inteiro estava sem luz. Subi o morro e continuava tudo às escuras", relatou.
O estudante de Psicologia Tawan Ferreira, 29, enfrentou uma longa jornada para voltar para casa. Ele deixou o trabalho, na Tijuca, Zona Norte, com destino a São Gonçalo, na Região Metropolitana, mas viu o trajeto se transformar em um verdadeiro desafio.

"Saí do trabalho às 17h. Normalmente, levo cerca de duas horas para chegar em casa, mas, nesse tempo, eu só consegui percorrer metade do caminho", destacou.

Segundo Tawan, a ventania e a falta de energia comprometeram a circulação na região. "Na Tijuca, estava ventando muito, com árvore caindo e um bom tempo sem luz. Fui para o metrô, mas a estação estava fechada. Tive que voltar. A própria passarela de São Cristóvão estava complicada, com muita coisa voando, telha, tampa de caixa d'água. Os sinais também não funcionavam direito e muita gente acabava avançando", contou.

Quem passou pela Central do Brasil encontrou uma das cenas mais críticas do dia. A secretária Dulce Carvalho precisou descer do ônibus antes do ponto por causa do congestionamento.

"Copacabana estava fechada e o ônibus precisou fazer um desvio pelo Flamengo. Quando cheguei ao Centro, estava tudo parado. A Central parecia o fim do mundo. Nunca vi tanta gente junta. Consegui pegar outro ônibus, mas a cidade inteira estava travada", afirmou Dulce.
A estudante Ashley Franco, 19, presenciou um arrastão, viu pessoas correndo pela rua e precisou se proteger dentro de uma loja. Na Central do Brasil, ela encontrou o sistema de transporte parado e aguardou por quase duas horas a liberação das viagens. "Eles deram a passagem de volta para as pessoas e depois ficamos quase duas horas esperando abrir. Teve discussão perto das catracas. Depois de muito tempo liberaram apenas as linhas para Uruguaiana e Jardim Oceânico", disse.

A arquivista Raimunda Maria descreveu o clima de apreensão entre quem deixava o trabalho. Com semáforos apagados, pedestres precisavam atravessar as ruas entre os carros. 

"Todo mundo saiu no mesmo horário. Sem sinal funcionando, as pessoas faziam fila para atravessar e os carros paravam. Os pontos de ônibus estavam superlotados e muitos coletivos já passavam cheios, sem conseguir parar. Fui em pé até São Cristóvão, perto do motorista. Dava para sentir o desespero das pessoas querendo apenas chegar em casa", disse.
A falta de energia causou momentos de tensão para a esteticista Julia Triunfo, 24. Ela e mais duas amigas ficaram presas no elevador de um prédio em Botafogo, Zona Sul.

"Conseguíamos escutar o barulho do vento e das coisas batendo e quebrando do lado de fora. Quem nos tirou de lá foi o porteiro do prédio, porque a equipe de manutenção do elevador não chegou", relembrou.

A ventania, com rajadas superiores a 100 km/h em alguns pontos, provocou falta de energia em diferentes bairros da capital e da Região Metropolitana, interrompeu a circulação do MetrôRio e dos trens, além de afetar aeroportos e o trânsito. Até o início da noite, o Corpo de Bombeiros contabilizava 185 ocorrências, sendo 93 de cortes de árvores, 31 salvamentos de pessoas, 5 desabamentos relacionados ao fenômeno.

O Centro de Operações da Prefeitura colocou a cidade em Estágio 2, enquanto o Centro Estadual de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden-RJ) emitiu alerta para a atuação da frente fria, com previsão de rajadas de vento até a manhã de quinta-feira (30).
*Reportagem dos estagiários Aretha Dossares e Rodrigo Maciel, sob supervisão de Larissa Amaral.