Seteira encontrada no Morro do Turano, no Rio CompridoReginaldo Pimenta / Arquivo O Dia

O combate às organizações criminosas é um desafio diário enfrentado pelas forças de segurança do estado do Rio. Além do terror imposto a cariocas e fluminenses, as facções se especializam cada vez mais, adotando até táticas de guerra - como drones para arremessar artefatos explosivos e seteiras (buracos criados em veículos e muros para colocar armas), conforme mostra o quarto capítulo da série especial Rio em disputa.
Para o professor José Ricardo Bandeira, presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina (Inscrim), um dos obstáculos centrais enfrentados por agentes é a geografia do Rio, que propicia o controle de territórios.
“Temos morros íngremes. Houve uma expansão urbana com vielas, ruas e casas não sinalizadas. Para a polícia fazer operações, é muito complicado. A gente precisa treinar os policiais para essa realidade e dotar de equipamentos de ponta para que possam cumprir o seu trabalho”, avalia.
Para monitorar policiais e bandidos rivais, criminosos utilizam câmeras e os próprios integrantes. Na estrutura do Comando Vermelho, por exemplo, há os cargos de “radinhos” - que avisam a presença de inimigos por meio de rádios comunicadores - e de “olheiros”, que vigiam em vielas.
Além de aproveitar as características dos terrenos, Bandeira destaca que o CV se especializou em técnicas de guerrilha após mandar soldados para a guerra da Ucrânia. Um dos suspeitos desse “intercâmbio” é Philippe Marques Pinto, que já apareceu em imagens portando fuzil e vestido com roupa camuflada, em um local que seria uma área de mata do país. Ele teria ido para o leste europeu, ao menos três vezes, com objetivo de entender táticas dos guerrilheiros e, depois, colocar a serviço da facção contra policiais no Rio.
“O crime organizado está usando tecnologia. O Comando Vermelho está se especializando em mandar soldados do tráfico para lutar na guerra da Ucrânia, aprender a tecnologia e passar, em tempo real, aqui pro Rio. Por isso, estamos vendo drones sendo usados para lançar granadas. Isso foi aprendido com a guerra. A polícia do Rio precisa se aperfeiçoar, ter o salto tecnológico, para que a gente possa combater, de igual para igual, essa modernização do crime organizado. A gente precisa reformular a atuação e o treinamento dos policiais, a metodologia e dotar de equipamentos e condições dignas de trabalho. Se a gente não fizer isso, vamos continuar mandando policiais para a morte, para matar ou morrer e isso não vai funcionar”, afirma Bandeira.
O antropólogo e capitão veterano do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Paulo Storani, ressalta que um dos principais desafios a ser enfrentado é a quantidade de criminosos em liberdade. Segundo ele, há cerca de 55 mil pessoas envolvidas diretamente com organizações criminosas no Rio, sendo 80% traficantes.
“Nessa conta nem entra a população carcerária. Esse é o tamanho do problema no Rio quando falamos de Segurança Pública. Podemos considerar que 80% desses criminosos portam fuzis e pistolas para proteger suas áreas e o restante está na parte administrativa. Estamos falando de cerca de 22 mil fuzis nas mãos de traficantes e milicianos, fora armas guardadas que são usadas para repor ou fortalecer as quadrilhas em ações específicas, como, por exemplo, ataque a territórios rivais”, detalha Storani.
Sobre as leis brasileiras, Storani também é enfático. Para ele, o atual código penal é obsoleto, leniente e só favorece quem pratica crimes.
"A forma branda e condescendente que as leis tratam os criminosos é um grande empecilho no combate à criminalidade. Outra questão central nesse debate é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que, a princípio, serviria para proteger o menor para que não fosse alvo de violência, mas, na prática, produziu o contrário. O ECA foi um grande fracasso. Não atendeu a sua demanda inicial de política pública e ainda possibilitou que menores sejam facilmente aliciados pela criminalidade, já que crianças, cada vez mais novas, são apenas apreendidas e cumprem medidas socioeducativas. Em, no máximo, três anos já estão de volta às ruas. A lei precisa ser revista. Precisa haver penas justas, mas duras. A sociedade e os criminosos precisam saber que o crime será punido. Do contrário, seremos vítimas cada vez mais dos criminosos, que estão ousados e tranquilos, porque há uma legislação que os protege", considera.
Em recente postagem nas redes sociais, o ex-capitão Rodrigo Pimentel, do Bope, faz coro e afirmou que as leis penais brasileiras são retrógradas.
"A lei mais confusa é a de execução penal, que garante ao preso cumprir apenas 1/6 da pena e depois ir para o regime semiaberto. Nas famosas saidinhas, no Brasil, 5% dos bandidos não retornam à cadeia. Estamos falando de assassinos, estupradores, criminosos perigosos", atestou.
Rota de armas
Levantamento divulgado em 2025 pela Coordenadoria de Fiscalização de Armas e Explosivos (Cfae), da Polícia Civil, apontou que apenas 5% das armas apreendidas no Rio têm origem de fabricação nacional. Ou seja, 95% do armamento na mão de criminosos foi fabricado fora do país, como, por exemplo, nos Estados Unidos, Argentina, Romênia, Geórgia, Bélgica, Alemanha, Suíça, Turquia e Israel.
Na megaoperação contra o Comando Vermelho, realizada nos Complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte, em outubro do ano passado - ação que se tornou a mais letal da história do país com mais de 120 mortos -, foram apreendidas armas das forças armadas da Venezuela, Argentina e Peru.
De acordo com as investigações, as principais rotas de entrada de armas e drogas no Brasil são a fronteira com o Paraguai e a região amazônica, fronteiriça com Colômbia e Venezuela. Parte do armamento que chegou, no ano passado, através do Paraguai, foi adquirida por empresas, com objetivo direto de abastecer organizações criminosas.
Ônibus como barricadas
Para atrapalhar e dificultar ações policiais, criminosos também costumam sequestrar ônibus para usar como barricadas em vias movimentadas da cidade do Rio. Em julho, quatro coletivos bloquearam a Estrada do Taquaral, na altura da Vila Aliança, na Zona Oeste, durante uma operação da Polícia Militar.
Segundo o Sindicato das Empresas de Ônibus da Cidade do Rio (Rio Ônibus), mais de 70 coletivos foram utilizados como barricadas de janeiro a julho deste ano. Um deles foi incendiado, causando prejuízo de R$ 1 milhão.
Para o major Maicon Pereira, porta-voz da Polícia Militar, conter o avanço das quatro maiores organizações criminosas do estado é o alvo principal da corporação.
"Hoje, o grande desafio é conseguir impedir a tomada de territórios por parte das facções Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro, Amigo dos Amigos e da milícia. Esses confrontos geram riscos de morte para a população, além da própria questão da exploração de serviços básicos. O combate às barricadas também é nossa prioridade, pois não só impedem a movimentação da polícia, como também a chegada de veículos de serviço e até mesmo de socorro. A gente já viu casos de bombeiros não entrarem em comunidade por causa de uma barricada. Esses são os nossos grandes desafios", explica.
Em nota, a Polícia Civil informou que atua diariamente, de forma firme, técnica e baseada em inteligência, no enfrentamento a criminosos em todo o estado.
“Não há qualquer área onde a instituição deixe de cumprir sua missão. Todas as investigações são conduzidas e todas as medidas judiciais são cumpridas, independentemente da região ou da organização criminosa envolvida. Quem escolhe o confronto é o criminoso, que ataca as forças de segurança na tentativa de impedir a atuação policial e preservar suas atividades ilícitas”, destaca a corporação.
Ainda de acordo com a Civil, os ataques promovidos por traficantes, por meio de barricadas, drones, incêndio de veículos e disparos de arma de fogo, colocam em risco não apenas os agentes de segurança, mas, principalmente, a população.
“Essas ações criminosas buscam intimidar o poder público e manter o domínio territorial pelo medo e pela violência. A Polícia Civil, no entanto, não se intimida e seguirá atuando com inteligência, planejamento e rigor técnico para investigar, localizar, prender e responsabilizar integrantes de facções criminosas, onde quer que estejam.”