'Vida de negro é difícil, é difícil como o quê, Eu quero morrer de noite, na tocaia me matar...". Os versos da música Retirantes, de Dorival Caymmi em parceria com Jorge Amado e tema da novela Escrava Isaura, de 1976, ainda continuam atuais. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. E pode ser, caro leitor, que enquanto você lê essa matéria, em algum lugar do país, uma pessoa negra e pobre tenha sua caminhada ceifada, de forma brutal, porque, muitas vezes, ao contrário do que se apregoa, nem sempre vidas negras importam.
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De acordo com o relatório Pele Alvo (sétima edição, publicado em julho de 2026, com dados referentes a 2025) da Rede de Observatórios da Segurança, 64,8% das pessoas mortas em decorrência de intervenções policiais no Brasil são jovens negros (pretos e pardos) de até 29 anos, moradores de favelas e periferias. Entre as 4.330 mortes registradas, 2.804 foram de jovens negros nessa faixa etária, incluindo 312 crianças e adolescentes.
No Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado em maio deste ano, o país registrou 32.820 homicídios de pessoas negras em 2024 — o equivalente a 77% de todos os assassinatos cometidos naquele ano, uma média de 89,9 vítimas negras por dia.
A taxa de homicídios entre negros chegou a 27,3 mortes para cada 100 mil habitantes, contra 10,1 entre não negros (brancos, amarelos e indígenas) — uma diferença de 170,3%. Isso significa que uma pessoa negra tem 2,7 vezes mais chances de ser assassinada no Brasil do que uma pessoa branca, amarela ou indígena.
Levantamentos anteriores da série, referentes ao início da década, já mostravam esse padrão: em 2022, a taxa de homicídio entre jovens pretos era de 94 por 100 mil habitantes e entre pardos, de 136 por 100 mil — respectivamente 2,3 e 3,3 vezes a taxa média registrada entre jovens no país. No mesmo ano, 10.764 homens negros morreram vítimas de disparo de arma de fogo em vias públicas, contra 2.406 homens brancos.
'Projeto histórico de apagamento'
Se os números falam por si só, artistas, professores e outras camadas da sociedade tentam denunciar o problema para que não haja o apagamento como fala a atriz, ativista do movimento negro feminino, doutoranda em Artes Cênicas e História do Teatro Negro pela Unirio, e professora Cyda Moreno, que faz a peça Luísa Mahin...Eu ainda continuo aqui, que aborda justamente a matança de jovens negros de favelas e periferias.
Com texto original de Márcia Santos e direção artística e corporal de Édio Nunes, o espetáculo chega aos cinco anos de existência levando aos palcos os relatos de mães de morros, favelas e periferias que perderam filhos para a violência — e resgatando a figura histórica de Luiza Mahin, mãe do advogado abolicionista Luiz Gama.
Para Cyda Moreno, esses números não são acidente, mas herança direta de um processo que remonta ao século XIX. Ela lembra que, após a abolição, o Estado brasileiro não criou condições estruturais de sobrevivência para a população negra recém-liberta — sem acesso a trabalho, educação e moradia, restaram a exclusão social e, muitas vezes, a morte.
"Décadas depois, as teorias eugenistas reforçaram a ideia de um apagamento gradual da população negra, projeto que, segundo a atriz, persiste no século XXI sob novas formas, entre elas a atuação policial que trata comunidades inteiras como suspeitas", pontua.
Moreno também chama atenção para os efeitos dessa violência que vão além da estatística: famílias — especialmente mães — adoecem, desenvolvem quadros de depressão e ansiedade, e enfrentam um sofrimento que se prolonga nos processos judiciais quando os responsáveis pelas mortes são inocentados. No plano econômico, a perda de jovens em idade produtiva reduz a força de trabalho e aprofunda a vulnerabilidade social das famílias atingidas.
Apesar do cenário, a atriz diz encontrar na arte e na educação um caminho de resistência. É esse compromisso que a levou a criar Luiza Mahin, peça que resgata uma figura ancestral de luta para reafirmar, segundo ela, que a população negra sobreviveu à escravização e segue existindo — e reexistindo — apesar das violências seguidamente cometidas contra ela.
'Pele negra é alvo da discriminação e preconceito'
Outro ator, Déo Garcez, que vive no teatro o abolicionista Luiz Gama, fala a respeito do extermínio. "O jovem negro no Brasil é o alvo, a pele negra é o alvo da discriminação, do preconceito, do racismo, da exclusão. Isso é uma consequência direta da escravidão neste país. A gente sabe que o Brasil foi o último país das Américas e do Ocidente a declarar oficialmente a abolição da escravidão negra. Isso é terrível, porque essa tardia decisão, declaração oficial do Brasil deixou sequelas", diz o ator, acrescentando que se sabe que no Brasil um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos.
"Hoje está comprovado. A população carcerária, em sua maioria, é composta por pessoas negras. Por isso acho assim: uso a arte como um instrumento de resistência de reparação histórica para nossos irmãos afrodescendentes protagonistas em vários sentidos na construçãodeste país.", pontua Garcez.
Deo acha importante citar a frase dita por Luiz Gama: "em nós, até a cor é um defeito, um vício imperdoável de origem, e vão ao ponto de esquecer que esta cor é a origem da riqueza de milhares de salteadores, ou ladrões, que nos insultam, que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga sob sua superfície escura vulcões onde arde o fogo sagrado da liberdade", finaliza.
Necessidade de estender a cidadania a todos
Para o professor, pesquisador, babalawô e militante histórico dos direitos humanos, Prof. Dr. Ivanir dos Santos, os dados não surpreendem, mas escancaram uma realidade que o movimento negro denuncia há décadas. A lógica das políticas de segurança pública no Brasil ainda carrega marcas do período colonial e escravocrata. Ele afirma :"A mentalidade escravocrata e colonial ainda está presente em algumas instituições brasileiras, especialmente na lógica de segurança pública. Quando você tem a população negra concentrada nas áreas periféricas, com menos desenvolvimento social, a igualdade passa a ser vista como uma ameaça. Essa população não é tratada como cidadã", avalia.
Segundo Santos, esse tipo de prática de segurança é comum e encontra respaldo em discursos que prometem soluções imediatas e violentas para a criminalidade."Os discursos conservadores prometem 'acabar com a violência em seis meses' ou 'dar um tiro na cabecinha'. O pior é que esse discurso tem amparo em uma parcela grande da sociedade", afirma.
Ele contrasta o ideal republicano de cidadania com a realidade vivida por grande parte da população: "Por um lado, temos a ideia de República, segundo a qual todos deveriam ser considerados cidadãos. Mas, na prática, grande parte da população não é tratada como tal. O debate da segurança acaba girando em torno do medo e da coerção — da ameaça a determinados grupos. É o que vemos hoje no Rio de Janeiro: há áreas da cidade onde existe respeito, e outras onde não existe", afirma.
Para ilustrar essa diferença de tratamento, Santos compara a abordagem policial em condomínios de alta renda e em favelas:"Nos grandes condomínios, quando a polícia entra, ela não atira. Toca a campainha, espera até depois das seis horas da manhã, dá tempo para a pessoa se arrumar. Não entra atirando. Já na favela, parte-se do pressuposto de que todo mundo ali é criminoso ou suspeito. Isso mostra a ideologia colonial, escravocrata e racista que está enraizada nessa mentalidade — quando, na verdade, todos deveriam ser tratados de forma igual."
O ativista lembra que a história recente do Rio de Janeiro teve apenas um exemplo de gestão que rompeu com essa lógica: "Precisamos entender a própria história do Rio de Janeiro. Só houve um governador que teve um discurso diferente — e pagou um preço por isso: Leonel Brizola. Ele trouxe uma política mais republicana, dizia que não era possível 'colocar o pé na porta de ninguém', porque a grande maioria das pessoas é trabalhadora e se vira de forma honesta. Além disso, ele articulava isso com uma política de educação — os CIEPs, com horário integral — e, ao mesmo tempo, com uma política de saúde pública para que todos tivessem acesso".
Para Santos, a chave para reduzir a violência está na garantia de direitos básicos "Se você estende a cidadania — o direito à saúde, à habitação, à educação e ao trabalho —, não tenho dúvida de que isso reduziria muito os índices de violência. Uma boa parte dos jovens, inclusive os que estão envolvidos na criminalidade, não terminou o ensino fundamental ou médio, e tem pouca qualificação profissional." Ele finaliza classificando o tráfico de drogas como uma questão estrutural, e não apenas individual: "O tráfico de drogas é uma questão econômica — as pessoas não gostam de ver dessa forma, mas se trata de algo estrutural. Não dá para olhar só o indivíduo. São anos de escravidão, e a instituição policial é colonial. Na política de segurança, na hora de prender alguém, você acaba criminalizando sempre quem é preto."
'O Estado escolhe quais corpos vão viver'
Escritora e mestre em relações étnico-raciais, Luiza Mandela acaba de lançar o livro Manual do Letramento Racial: um convite à consciência e à ação e à transformação. Para a autora, o motivo dos jovens negros serem mais mortos pela polícia é o racismo estrutural que trata a população negra de forma diferenciada por conta da cor da sua pele. "É um reflexo da mentalidade racista eugenista em que as pessoas negras são matáveis, existe um conceito também de necropolítica de Achille Bembe que fala muito sobre essa questão de que o Estado escolhe quais corpos vão viver e quais corpos não vão vive".
Luiza acredita que para essa situação ser amenizada é importante que sejam feitos treinamentos constantes para todo mundo: para policiais, para não policiais para a sociedade sobre letramento racial sobre as relações raciais no Brasil. "É desmistificar realmente essa visão que as pessoas têm de pessoas negras, então a gente precisa desconstruir essa visão mas é só a educação que desconstrói realmente", finaliza.
Não se trata de coincidência estatística
Do ponto de vista jurídico, de acordo com Ivan Jezler, advogado criminalista e mestre em Ciências Criminais pela PUC-RS, uma concentração de 64,8% dos casos de homicídio entre jovens negros em um único grupo não pode ser lida como coincidência estatística: ela desloca a análise de "eventos isolados" para "padrão sistêmico", patamar que aciona instrumentos jurídicos mais robustos. "A Constituição garante a igualdade perante a lei e o direito à vida (art. 5º), e o Brasil é signatário da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (internalizada pelo Decreto nº 65.810/1969), que reconhece a discriminação indireta — aquela resultante de práticas ou políticas com impacto desproporcional sobre um grupo, independentemente da intenção consciente de cada agente — como violação a ser enfrentada pelo Estado", explica.
O profissional acrescenta que quando uma morte ocorre em decorrência de intervenção policial, há um protocolo legal que deveria garantir uma investigação independente. "Até 2015, essas mortes eram registradas como "autos de resistência" ou "resistência seguida de morte", nomenclatura que, na prática, pré-classificava o caso como legítima defesa antes mesmo de qualquer apuração. A Resolução nº 8/2012 (então CDDPH/Secretaria de Direitos Humanos da Presidência) determinou o fim desses termos, substituídos por "lesão corporal" ou "homicídio decorrente de oposição à intervenção policial" (Resolução Conjunta nº 2/2015, do Conselho Superior de Polícia Federal e do Conselho Nacional dos Chefes de Polícia Civil)".
De acordo com o advogado, o racismo estrutural, categoria consolidada na doutrina jurídica brasileira, sobretudo a partir da obra de Silvio Almeida, não depende de preconceito consciente de um agente específico; ele opera na forma "normal" como as instituições funcionam, e isso aparece em cada etapa da cadeia de responsabilização: na classificação inicial do caso, quando a narrativa do próprio policial tende a moldar a investigação desde o início.
"Na perícia, com cenas de crime historicamente alteradas antes da chegada de peritos independentes, na fase judicial, em que casos de letalidade policial têm taxas de indiciamento e condenação muito inferiores às de homicídios comuns, frequentemente arquivados sob a tese de excludente de ilicitude baseada quase só no relato do agente envolvido", diz acrescentando que: " Soma-se a isso a composição pouco diversa das instituições de justiça e segurança em relação à população negra e periférica que elas policiam, e um viés narrativo recorrente, inclusive na cobertura da imprensa e em peças processuais, que desloca o escrutínio da legalidade da conduta policial para o histórico da vítima. Nenhum desses fatores exige um agente publicamente racista; juntos, produzem o resultado desigual que os números do relatório Pele Alvo documentam.
Princípios constitucionais são desrespeitados
Para o advogado criminalista Jaime Fusco, a concentração de homicídios entre jovens negros no Brasil revela um quadro que contraria os princípios constitucionais de direito à vida, à igualdade e à segurança. Quando um grupo específico é desproporcionalmente atingido pela letalidade, argumenta, cabe ao Estado avaliar se suas políticas públicas realmente garantem esses direitos.
Ele lembra que manifestações culturais negras — como a capoeira, as religiões de matriz africana e o samba — já foram criminalizadas no passado, e vê riscos de que estereótipos semelhantes ainda influenciem a leitura de certos contextos hoje.
Sobre investigações de mortes por intervenção policial, Fusco afirma que o Código de Processo Penal já prevê instrumentos suficientes — inquérito, perícia, exames e acompanhamento do Ministério Público. O problema, segundo ele, é a aplicação desigual dessas regras: casos de repercussão recebem mais atenção, mas a mesma diligência deveria valer para todas as vítimas, independentemente de raça ou classe social. Ele defende que o racismo estrutural pode gerar distorções institucionais, mas pondera que enfrentá-las fortalece o Estado Democrático de Direito.
O advogado reconhece os limites de sua própria vivência — diz não conhecer na prática a realidade de um jovem negro periférico — e defende maior representatividade nos espaços de decisão do sistema de Justiça. Para Fusco, o Direito sozinho não resolve um problema estrutural: é preciso combinar repressão qualificada com políticas de educação, saúde e geração de oportunidades. Ele também considera legítimo o debate sobre descriminalização do porte de drogas para uso pessoal, tema em análise no STF, por seus impactos sobre jovens negros e periferias.
Questionado sobre o termo "genocídio da juventude negra", usado por movimentos sociais, Fusco explica que, juridicamente, o crime de genocídio tem definição própria em lei, exigindo intenção de destruir um grupo racial, étnico ou religioso — o que torna a expressão, no debate público, mais política e sociológica do que técnica. Ainda assim, afirma, os indicadores apontam uma realidade grave, que exige investigações imparciais e respeito pleno aos direitos fundamentais.
Ele encerra dizendo já ter enfrentado preconceitos em sua carreira, mas reconhece que isso não se compara à realidade vivida por jovens negros nas periferias. "O Direito existe justamente para assegurar que todos sejam tratados com dignidade, igualdade e respeito às garantias fundamentais", conclui.
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