Todos têm que colaborar e evitar focos para que o mosquito não prolifereDivulgação

A chegada da primavera reforça o alerta para a prevenção da dengue antes do verão. Temperaturas elevadas e água acumulada favorecem a reprodução do Aedes aegypti, mosquito que também transmite zika e chikungunya. Segundo o Ministério da Saúde, o período de maior transmissão no Brasil costuma ocorrer entre outubro e maio."A dengue do verão começa a ser enfrentada agora. Quando os casos aumentam, a rede já precisa estar preparada. Este é o momento de reduzir criadouros, identificar áreas mais vulneráveis, orientar a população e organizar os serviços para reconhecer e acompanhar os pacientes com rapidez", afirma Roberto Rangel, médico de Família e Comunidade, professor universitário e gestor público.

Na cidade do Rio, 15 bairros receberam ações de prevenção entre os dias 23 e 25 de setembro. Até 12 de setembro, o município havia realizado mais de 8,6 milhões de vistorias em imóveis em 2026 e tratado ou eliminado mais de 1,17 milhão de recipientes que poderiam servir de criadouro. Os dados são da Secretaria Municipal de Saúde.

Queda de casos não dispensa prevenção

O histórico recente mostra como a transmissão pode variar de um ano para outro. Segundo balanço divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde em janeiro de 2026, o estado do Rio registrou 294.095 casos prováveis de dengue e 235 mortes em 2024. Em 2025, foram 29.659 casos prováveis e 25 óbitos confirmados.

"Um ano com menos casos não deve produzir uma falsa sensação de segurança. É preciso saber onde a transmissão começa a crescer, preparar as equipes e organizar o atendimento antes que a procura pelas unidades aumente", explica Rangel.
A quarta edição do Painel El Niño 2026-2027 prevê temperaturas acima da média em quase todo o país no trimestre de outubro a dezembro. A previsão reforça a importância da preparação, mas não permite, sozinha, antecipar quantos casos de dengue ocorrerão no Rio.

Além do clima, a transmissão depende da circulação dos diferentes tipos do vírus, da imunidade da população, da presença do mosquito e das condições urbanas e de saneamento. Existem quatro sorotipos do vírus da dengue. Por isso, ter contraído a doença anteriormente não dispensa os cuidados: uma pessoa pode voltar a adoecer ao ser infectada por outro sorotipo.

Uma vistoria por semana faz diferença

A prevenção deve fazer parte da rotina. A orientação do Ministério da Saúde é verificar, pelo menos uma vez por semana, os locais que podem acumular água. A atenção precisa alcançar quintais, varandas, áreas de serviço e espaços comuns de condomínios, incluindo os pontos menos visíveis.

Caixas-d’água e reservatórios devem permanecer bem tampados. Calhas precisam ficar desobstruídas, garrafas devem ser guardadas de boca para baixo e pneus precisam ser protegidos da chuva. Pratinhos de plantas, lonas e objetos deixados ao ar livre também merecem inspeção.

Esvaziar um recipiente nem sempre basta. Os ovos podem permanecer aderidos às paredes, mesmo sem água. Por isso, quando o objeto precisa ser mantido, é importante lavar e esfregar sua parte interna. A limpeza deve ser repetida regularmente.

Telas em portas e janelas, roupas que cubram mais o corpo e repelentes podem complementar a proteção. O uso do repelente deve seguir as instruções do fabricante, inclusive quanto à faixa etária e ao intervalo de reaplicação. Essas medidas precisam ser associadas à eliminação dos criadouros.

Na capital, pedidos de vistoria e denúncias de possíveis focos podem ser feitos pelo telefone 1746 ou pelo portal de atendimento da prefeitura. O serviço permite comunicar locais que necessitam de avaliação e controle do mosquito.

Preparar a rede e acompanhar quem adoece

A organização do atendimento é outra frente de prevenção de complicações. Reconhecer sinais de agravamento, avaliar a necessidade de hidratação e definir quando o paciente deve retornar são etapas do cuidado. A orientação precisa ser compreendida também pelos familiares que vão acompanhar a recuperação em casa.

Idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas precisam de atenção especial. Condições como diabetes, doenças cardiovasculares e problemas renais devem ser informadas durante a consulta, assim como os medicamentos de uso contínuo. Esses fatores ajudam a equipe a definir o acompanhamento adequado.

Febre baixou? Atenção aos sinais de alarme

Febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, fraqueza, dores musculares ou articulares, enjoo e manchas vermelhas podem indicar dengue. A orientação é procurar um serviço de saúde para avaliação e evitar a automedicação.

A redução da febre não significa necessariamente recuperação. Entre o terceiro e o sétimo dia do início dos sintomas, alguns pacientes podem entrar na fase crítica da doença e apresentar piora.

Dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, tontura ou sensação de desmaio, sangramentos, dificuldade para respirar e sonolência ou irritabilidade exigem atendimento imediato. Diante desses sinais, não se deve esperar a próxima consulta.

Hidratação e cuidado com medicamentos

A hidratação é parte central do tratamento, mas a quantidade e a forma de reposição de líquidos precisam considerar a idade, o peso e as condições clínicas. Pessoas com doenças cardíacas ou renais, por exemplo, necessitam de orientação individualizada. Dificuldade para beber líquidos ou vômitos que impedem a hidratação também exigem reavaliação.

Medicamentos como ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios, incluindo ibuprofeno e diclofenaco, não devem ser usados para tratar sintomas de suspeita de dengue, pois podem aumentar o risco de sangramento. Quem já utiliza medicamentos prescritos para outras doenças deve informar a equipe e receber orientação sobre como proceder.

Mesmo quando o atendimento inicial permite a recuperação em casa, é necessário seguir os retornos indicados e observar mudanças no quadro. O acompanhamento continua durante a melhora da febre, justamente quando podem aparecer sinais de agravamento.