Operação Magen, que mira grupo ligado ao TCP, foi realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério PúblicoDivulgação / Polícia Federal

Dados restritos sobre propriedades de veículos e imóveis, bem como a localização de foragidos da Justiça, podem ter sido usados para extorsões realizadas por um grupo que teria ligação com o Terceiro Comando Puro (TCP). A denúncia do Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ), que embasou a Operação Magen, identificou a participação de um policial civil no esquema. O agente foi preso no dia seguinte à ação.
De acordo com o MPRJ, Carlos Barnabé Santos Souza, conhecido como Alemão, é acusado de consultar o Portal de Segurança do Estado para repassar informações de propriedades de veículos e endereços a dois ex-policiais militares, com o objetivo de conseguir dinheiro por meio de extorsão.
O órgão apontou que, em um dos episódios, o policial civil teria informado a localização de um procurado da Justiça e a existência de um mandado de prisão contra ele, para que o extorquissem antes da chegada das equipes para prendê-lo.
A investigação também apontou o acesso a dados de geolocalização de celulares e a registros de circulação de veículos em benefício do grupo. Uma das consultas teria como finalidade auxiliar um homem investigado por homicídio, mediante pagamento.
A apuração mostrou que há uma rede de policiais e de ex-agentes com objetivo de, através de informações sigilosas, localizar pessoas e obter vantagens financeiras indevidas. 
Carlos foi um dos sete alvos da Operação Magen, deflagrada na última quarta-feira (7). As equipes não o encontraram na data, mas ele se entregou no dia seguinte na Corregedoria-Geral da Polícia Civil (CGPOL).
Em nota, a corporação informou que segue acompanhando a investigação.

Fornecimento de armas a Peixão

A investigação que gerou a operação teve início na Polícia Federal, a partir da apuração do poder bélico de traficantes que atuam no Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio. Com o avanço das diligências, a PF identificou outras frentes de atuação da organização.

De acordo com o MPRJ, Vitor Hugo Marinho Garcia, o Batata, ex-policial militar apontado como líder da quadrilha procurada na quarta-feira (7), era um dos principais fornecedores de armas e informações privilegiadas a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, também denunciado no esquema.
Em uma das transações identificadas, em outubro de 2022, o ex-PM teria transportado e vendido ao chefe do TCP dez fuzis, modelo AR-15.

A denúncia descreve outras negociações de armamentos. José Carlos Ribeiro de Campos, o Ferrugem, outro ex-policial militar, é acusado de fornecer dois fuzis, modelo Colt M4, e quatro carregadores para revenda por integrantes do grupo.
Já o policial militar Johan Borja Portela teria colocado à venda um revólver calibre .38, nove pistolas Glock 9 mm e 22 carregadores.

Investigação financeira

Análises bancárias e fiscais identificaram movimentações e patrimônio considerados incompatíveis com os rendimentos declarados pelos integrantes do grupo. A apuração descreveu o uso de empresas, contas bancárias e bens registrados em nome de terceiros para dissimular a origem de recursos e ocultar patrimônio.
As cinco empresas relacionadas no pedido de bloqueio feito pelo MPRJ movimentaram, aproximadamente, R$ 173,7 milhões. O órgão informou que os valores correspondem à soma de créditos e de débitos identificados pela investigação.
Segundo a denúncia, Vitor Hugo Marinho Garcia movimentou cerca de R$ 31,9 milhões entre 2019 e 2023 e possuía um patrimônio estimado em mais de R$ 5 milhões.
O denunciado Marcel Rodrigues Fernandes, que atuou como assessor parlamentar na Assembleia Legislativa do Estado do Rio (MPRJ) até outubro de 2025, movimentou aproximadamente R$ 33,2 milhões no mesmo período, sem fonte de renda compatível. Conforme identificado pelo MPRJ, embora ele não declarasse à Receita Federal bens em seu nome, possuía patrimônio estimado em quase R$ 3 milhões.
Eduardo Thales Lopes Pires, outro ex-PM e ex-ocupante de cargo comissionado na Alerj, movimentou aproximadamente R$ 33,4 milhões entre 2019 e 2023.
Em uma das conversas descritas na denúncia, Vitor teria explicado a Marcel que poderia utilizar sua empresa de crédito para movimentar dinheiro em espécie de terceiros e reinserir os valores na economia formal com aparência legal.
A ação penal encaminhada à Justiça atribuiu a participação das companheiras de Vitor, de Marcel e de Eduardo no esquema. Elas foram denunciadas por lavagem de dinheiro, mas não tiveram as prisões decretadas.

Prisões e apreensões

A Operação Magen, realizada na última quarta-feira (7), terminou com cinco presos. As equipes da Polícia Federal e do MPRJ apreenderam seis armas de fogo, sendo dois fuzis, duas pistolas, uma carabina e um revólver. 
Além do armamento, houve a apreensão de: uma granada de mão; 13 carregadores; centenas de munições de calibres diversos; sete veículos; quatro relógios de pulso de alto valor; um lote de joias e semijoias; R$ 73,7 mil em espécie; 760 libras esterlinas (R$ 5 mil); 310 euros em espécie (R$ 1,7 mil), 18 celulares em uso; 14 aparelhos novos, lacrados em suas caixas originais; três notebooks; dois aparelhos de carteira de criptoativos; um tablet; diversas folhas de cheque preenchidas; cartões bancários; e mais documentos diversos.
Com a prisão do policial civil Carlos Barnabé no dia seguinte à ação, o único foragido é o traficante Peixão.
A reportagem ainda não localizou a defesa dos acusados. O espaço está aberto para manifestação.