Procedimento para coleta de amostra de água no Canal do Cunha, na Zona Norte da capital fluminense Josué Damacena/Fiocruz

Rios e canais do Rio de Janeiro apresentam contaminação por cocaína e por uma substância formada pelo organismo após o consumo da droga. A constatação é de uma pesquisa liderada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), que identificou os contaminantes em cursos d’água da capital e de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Os resultados indicam riscos para organismos aquáticos e reforçam a preocupação com a poluição provocada pelo lançamento de esgoto sem tratamento adequado.
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O estudo analisou cinco cursos d’água que deságuam na Baía de Guanabara: os rios Irajá e Carioca e os canais do Cunha e do Mangue, no município do Rio, além do Rio Meriti, em Duque de Caxias. Entre julho de 2022 e junho de 2023, os pesquisadores recolheram mensalmente 60 amostras de água. A cocaína foi detectada em 59 delas. Já a benzoilecgonina, principal metabólito da droga, apareceu em todas as amostras.

A benzoilecgonina é produzida durante o processamento da cocaína pelo organismo e eliminada principalmente pela urina. Sua presença na água é um indicativo de que resíduos associados ao consumo da droga estão chegando aos rios por meio do esgoto.

De acordo com os pesquisadores, os níveis de contaminação encontrados superaram os registrados em estudos semelhantes realizados em países como Bélgica, Espanha e Estados Unidos.

Testes apontam danos aos peixes



Para avaliar os efeitos dos contaminantes, a equipe realizou experimentos com embriões de zebrafish, espécie de peixe amplamente utilizada em pesquisas científicas. A exposição às concentrações observadas nos rios provocou aumento da mortalidade, deformações e alterações cardiovasculares e neurológicas nos animais.

Os resultados também indicaram que a benzoilecgonina pode apresentar toxicidade ainda maior que a cocaína. Em laboratório, foram observados efeitos nocivos com concentrações do metabólito equivalentes a 13% do nível encontrado no ambiente.

Embora os rios estudados estejam sujeitos a forte degradação ambiental, os cientistas ressaltam que a contaminação não fica restrita a esses locais. Todos os cursos d’água analisados deságuam na Baía de Guanabara, que abriga peixes e outras espécies marinhas.
A pesquisa foi coordenada por Enrico Saggioro, do IOC/Fiocruz. Segundo a Fiocruz, o caso chamou atenção para a necessidade de ampliar o monitoramento ambiental e melhorar o saneamento. Além disso, a presença dessas substâncias também serve de alerta para a circulação da droga e para a deficiência dos sistemas de tratamento de esgoto na remoção de contaminantes químicos.

Contaminação aumenta no período chuvoso



As análises identificaram níveis mais elevados de contaminação entre outubro e março, durante a estação chuvosa, com pico em janeiro. O padrão é compatível com pesquisas que apontam maior presença de resíduos de drogas ilícitas no ambiente em períodos associados a férias e festas.

Na maior parte das amostras, a quantidade de benzoilecgonina superou a de cocaína, comportamento que os pesquisadores consideram compatível com a chegada de resíduos por meio do esgoto. Em uma das coletas, porém, a concentração de cocaína foi quatro vezes superior à do metabólito, o que pode indicar descarte direto da substância na água.

Pesquisa foi ampliada para outros rios



Diante dos resultados, os cientistas deram continuidade à investigação e ampliaram o monitoramento para 13 rios do estado. A segunda etapa incluiu coletas realizadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. As análises ainda estão em andamento, com previsão de conclusão no primeiro semestre de 2027.

O trabalho foi desenvolvido em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). O financiamento foi da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Os resultados foram publicados na revista científica Aquatic Toxicology. 
 
Por meio de nota, a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade e o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) informaram que atuam com várias frentes na Baía de Guanabara.
"Por meio do Programa de Saneamento Ambiental (PSAM), a secretaria executa intervenções para levar saneamento básico para municípios do entorno da Baía de Guanabara. O PSAM conta, atualmente, com um investimento total de cerca de R$ 938,4 milhões, oriundos do Fundo Estadual de Conservação Ambiental e Desenvolvimento Urbano (FECAM) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).", concluiu. 
Já a concessionária Águas do Rio informou em nota que a concessão de saneamento foi estruturada pelo Estado do Rio de Janeiro para "enfrentar o déficit histórico de cobertura dos serviços de água e esgoto"., segundo a empresa. 
Diz ainda que uma "eventual presença de elementos químicos nos rios envolve fatores que vão além do tratamento de esgoto, como a drenagem urbana e outras fontes de poluição.", completou.