O Comando Vermelho (CV) está presente em 70 dos 92 municípios do estado do Rio de JaneiroGerado por IA
Um relatório reservado do setor de inteligência da Polícia Militar aponta que o Comando Vermelho (CV) está presente em 70 dos 92 municípios do estado do Rio de Janeiro. Segundo o levantamento, apenas 15 municípios não têm domínio consolidado de facções criminosas ou milícias.
Dos 1.648 locais mapeados, 1.036 (62,8%) são controlados pelo CV, 340 (20,6%) pelo Terceiro Comando Puro (TCP), 229 (13,9%) por milícias e 43 (2,6%) pelos Amigos dos Amigos (ADA).
Ainda de acordo com a Polícia Militar, esses números mudam cotidianamente devido aos confrontos entre grupos criminosos pela conquista de territórios no estado.
A expansão das facções no Rio
Entre 2007 e 2024, a área submetida a algum tipo de domínio armado cresceu 130,4%. No mesmo período, a população que vivia nessas áreas aumentou 59,4%.
O mapa abaixo mostra as áreas sob controle ou influência territorial armada do Comando Vermelho (CV), das milícias, do Terceiro Comando Puro (TCP) e dos Amigos dos Amigos (ADA). As áreas em vermelho representam o domínio do CV; as destacadas em verde, o do TCP; as em amarelo, o da ADA; e as em azul, o das milícias.
A origem e a trajetória de cada grupo criminoso
Conheça a história de cada uma dessas organizações criminosas, saiba quando, como e onde surgiram e entenda como atuam no Rio de Janeiro.
Comando Vermelho (CV)
Na época, o presídio, conhecido como “Caldeirão do Diabo”, era marcado por condições precárias, violência e relatos de tortura e mortes. Durante a ditadura militar, presos políticos integrantes de organizações armadas passaram a ser encarcerados junto com criminosos comuns, principalmente após o roubo a bancos ser enquadrado como crime contra a segurança nacional.
Os dois grupos passaram, então, a dividir as mesmas celas. Muitos dos presos comuns, em sua maioria envolvidos em assaltos a bancos, tinham pouca ou nenhuma educação formal e desconheciam seus direitos. Por meio da convivência com os presos políticos, passaram a ter contato com informações sobre direitos, organização e formas de reivindicação. Os presos políticos também atuavam na intermediação de negociações por melhores condições dentro do sistema penitenciário.
Os integrantes da Falange Vermelha passaram a adotar novas formas de organização. A partir de 1980, uma série de fugas foi registrada no presídio. Mais de cem detentos conseguiram escapar.
Com o dinheiro dos assaltos a bancos, a organização também passou a investir no tráfico de drogas, principalmente na venda de cocaína. Na década de 1980, a Colômbia se consolidou como um dos principais produtores da droga, enquanto o Rio de Janeiro passou a fazer parte de novas rotas de distribuição.
A atuação no tráfico aumentou o poder financeiro da facção e contribuiu para sua expansão. Com o passar dos anos, o Comando Vermelho passou a disputar e controlar territórios não apenas no Rio de Janeiro, mas também em outros estados brasileiros.
Atualmente, além do tráfico de drogas, o Comando Vermelho lucra com o domínio territorial e a exploração de outras atividades ilícitas. Entre elas estão a cobrança de taxas de proteção e de valores pelo acesso à internet, muitas vezes por meio de serviços próprios instalados nas comunidades. A facção também pode impor cobranças pelo fornecimento de serviços básicos, como água e energia elétrica, entre outras atividades.
Terceiro Comando Puro (TCP)
A origem do TCP está relacionada a uma série de conflitos entre grupos criminosos. Em 1998, o Terceiro Comando se aliou aos Amigos dos Amigos (ADA), mas a parceria chegou ao fim em 2002, após uma rebelião no presídio de Bangu I, no Rio de Janeiro. Na ocasião, o traficante Fernandinho Beira-Mar liderou uma revolta que resultou na morte de rivais, entre eles Uê, uma das lideranças da aliança entre os dois grupos.
Após o episódio, a relação entre o Terceiro Comando e o ADA se rompeu definitivamente. Parte dos integrantes do antigo grupo passou a integrar o TCP, enquanto outros se juntaram ao ADA. A letra “P”, de “Puro”, foi acrescentada à sigla para diferenciar a nova organização dos demais grupos.
Ao longo dos anos, o TCP ampliou sua presença em diferentes regiões do Rio de Janeiro. Parte de suas lideranças está associada ao chamado Complexo de Israel, conjunto de comunidades da Zona Norte da capital fluminense, que inclui Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Pica-Pau e Cinco Bocas. A região é associada à atuação do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão.
Uma das características atribuídas à facção é a estrutura descentralizada. Nesse modelo, os responsáveis pelo controle de cada comunidade têm autonomia para administrar seus territórios, sem depender diretamente de uma liderança central para todas as decisões.
Além do Rio de Janeiro, o TCP também aparece em investigações sobre a atuação de grupos criminosos em outros estados, como Ceará, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Em algumas dessas regiões, a facção disputa espaço com o Comando Vermelho e outros grupos criminosos.
Amigos dos Amigos (ADA)
A criação do grupo está relacionada a divergências internas no Comando Vermelho, especialmente à insatisfação de criminosos com o controle das vendas de drogas e a obrigação de repassar dinheiro a lideranças presas. O ADA se aliou ao antigo Terceiro Comando para enfraquecer o CV.
A aliança chegou ao fim em 2002, após Uê ser morto durante uma rebelião, liderada pelo traficante Fernandinho Beira-Mar. O episódio aprofundou as divergências entre os grupos e contribuiu para a divisão dos integrantes do antigo Terceiro Comando entre o ADA e o Terceiro Comando Puro (TCP).
Em 2004, o Amigos dos Amigos passou a controlar a Rocinha, na Zona Sul do Rio, após uma disputa entre traficantes ligados ao Comando Vermelho. O grupo de Lulu, uma das lideranças envolvidas no conflito, rompeu com a facção e migrou para o ADA. Os confrontos deixaram 15 mortos, entre eles civis e policiais. Após a morte de Lulu em uma operação policial, Erismar Rodrigues, conhecido como Bem-Te-Vi, assumiu o controle da comunidade. Ele foi morto em 2005, durante uma operação da Polícia Civil.
O ADA manteve o domínio da Rocinha até 2011, quando a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e a prisão de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, enfraqueceram a atuação do grupo na região. Posteriormente, Rogério Avelino da Silva, conhecido como Rogério 157, assumiu o controle do tráfico na comunidade.
Em 2017, uma nova disputa pelo controle da Rocinha provocou confrontos entre grupos ligados a Rogério 157 e a Nem. A guerra se intensificou após o rompimento entre os dois traficantes. Com a aproximação de Rogério 157 ao Comando Vermelho, a facção assumiu o controle da Rocinha, encerrando o domínio do ADA na comunidade.
Ainda em 2017, houve uma tentativa de aproximação entre o ADA e o TCP para formar uma nova facção, chamada Terceiro Comando dos Amigos (TCA). A proposta, porém, não avançou. A partir de 2018, o ADA perdeu outros territórios e passou a concentrar sua atuação em áreas como a Vila Vintém, na Zona Oeste do Rio, e em outras comunidades da região metropolitana.


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