Falta de médicos afeta 45% da rede municipal de Saúde

Profissionais agravam quadro com faltas e manipulação das escalas de trabalho

Por O Dia

Rio - Quase metade (45%) das unidades de saúde municipais do Rio sofre com a falta de médicos. E os próprios profissionais contribuem para este quadro, de acordo com o Tribunal de Contas do Município (TCM), que vistoriou 80 centros municipais de Saúde, clínicas da família e policlínicas, no ano passado. Os técnicos descobriram que em 40% dos locais visitados havia divergências entre a escala do dia e o total de profissionais trabalhando. Muitos assinavam o ponto antecipadamente ao dia de expediente e outros não marcavam o cartão há meses ou até anos seguidos.

O Centro Municipal de Saúde Silvio Barboza%2C na comunidade Selva de Pedra%2C em Senador Camará%2C ficou desativado cinco meses%2C reabriu após reforma%2C e voltou a ficar fechado José Pedro Monteiro / Agência O Dia

O caso mais grave de médicos faltosos verificado pelo TCM foi na Policlínica Rodolpho Rocco, em Del Castilho, onde 35 servidores que deveriam estar trabalhando no local não tinham assinado o ponto — muitos não tinham uma assinatura sequer em junho de 2013. Uma médica que faz clínica geral, lotada na policlínica desde 2002, não tinha movimentação funcional registrada desde 2003.

Dois pediatras também não assinavam o cartão desde dezembro de 2009 e, uma enfermeira, desde 2010. O setor de Recursos Humanos da unidade afirmou ao TCM que os quatro funcionários não trabalham lá há muito tempo, apesar de estarem recebendo seus contracheques regularmente.

Assentos no Centro Municipal de Saúde Necker PintoDivulgação

No Centro Municipal de Saúde Cesar Pernetta, no Méier, a situação é bem parecida. Os técnicos descobriram que seis funcionários já tinham assinado o ponto um dia antes do trabalho. Um servidora tinha três vínculos com a mesma unidade, um federal, um municipal e um através de uma Organização Social — mas somente um horário constava no mural.

No dia da visita dos auditores à unidade, esta médica, que deveria estar trabalhando pela manhã e pela tarde, não estava presente. Foi verificado que ela já tinha assinado antecipadamente o cartão do mês inteiro de maio. Outra servidora também tinha três vínculos empregatícios na unidade e os horários coincidiam.

A Secretaria Municipal de Saúde, em nota, informou que as unidades contam com “responsáveis pelo controle da folha de ponto dos funcionários” e que “em caso de divergência, imediatamente deve ser aberta sindicância”.

O relatório do TCM faz ainda a análise das contas do prefeito Eduardo Paes. O tribunal alertou sobre o déficit de profissionais em unidades de atenção primária e registrou que, das 836 equipes de Saúde da Família, 102 estavam “sem o profissional médico”. Além disso, recomendou que “se envidem esforços para solucionar a questão relativa à carência de médicos e demais profissionais da área de saúde”.

A secretaria respondeu que o programa tem 824 equipes completas e 15 incompletas. Porém, admitiu que a cobertura do atendimento chega a apenas 44% da população. A meta, segundo a secretaria é alcançar 70% até o fim de 2016.

Ferramenta de controle é pouco utilizada

O TCM verificou que uma ferramenta de Internet contratada pela Secretaria Municipal de Saúde em 2011, por quase R$ 2,5 milhões, não estava devidamente utilizada. Ela visa a aprimorar a prestação de contas das Organizações Sociais (OS). Um termo aditivo de 2012, que custou R$ 602,5 mil, permitia a utilização da ferramenta pelas secretarias de Esporte e Lazer (SMEL) e de Ciência e Tecnologia (SECT). Segundo o TCM, estas pastas não estão cobrando o preenchimento das informações. A SECT informou que todas as OS já estão alimentando o sistema regularmente. Segundo a SMEL, o modelo está sendo atualizado.

Posto de Saúde que passou por reforma fica fechado cinco meses

A equipe do DIA fez uma ronda em alguns dos hospitais avaliados pelo TCM e se deparou com o Centro Municipal de Saúde Silvio Barboza, em Senador Camará, com portões trancados. Uma equipe da Vigilância Sanitária, que chegou para vistoria, sequer sabia que o posto estava fechado.

Segundo o presidente da associação de moradores, Gilmar Vanderlei, o posto parou de funcionar há cinco meses. Segundo ele, o local reabriu após uma reforma, no mês passado, mas fechou novamente três dias depois: “Os funcionários não querem trabalhar, porque têm medo do tráfico. Tudo aqui funciona normalmente, menos o hospital”. A Secretaria Municipal de Saúde informou que a unidade foi fechada para obras e será reaberta em breve.

Aluízio Botelho acompanhou Sônia Ferreira na fila para exame de sangue%3A espera levou mais de 5 horasJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

Na Policlínica Rodolpho Rocco, em Del Castilho, a falta de recursos revolta o pessoal administrativo. “Aqui não tem maqueiros. Nós fazemos o trabalho deles”, denuncia um dos funcionários. Ele relatar ainda a falta de médicos e vigilantes nos fins de semana. “Quando os pacientes da psiquiatria têm crises, é um caos, porque não há ninguém para contê-los”, acrescenta.

Os pacientes da Policlínica Newton Bethlem, em Jacarepaguá, reclamam da demora para marcação de consultas. “Liguei na semana passada e só consegui um clínico geral para daqui a um mês”, diz o lanterneiro Aluízio Botelho da Silva, de 73 anos, que tem dormência nas mãos. Sônia Silva Ferreira, 60, chegou às 7h para fazer um exame de sangue e, depois de cinco horas de espera, ainda não tinha sido atendida. “Tudo demora”, protesta.

Precariedade e pouco espaço

Os auditores do Tribunal de Contas do Município também flagraram situações precárias das unidades vistoriadas. Cerca de 32% delas não ofereciam conforto aos pacientes; e em quase 50% havia insuficiência de espaço. Em alguns consultórios, o médico tinha que atender de portas abertas por causa do tamanho reduzido das salas.

Além disso, em muitos locais, não havia extintores de incêndio, ventilação, papel higiênico e sabão nos banheiros. Aparelhos e instrumentos médicos também eram depositados no chão, sem proteção. Problemas de infiltração e queda de reboco foram relatadas em muitas unidades, assim como o tratamento inadequado do lixo hospitalar, muitas vezes misturado com o comum.


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