‘Papagaios de pirata’ fazem de tudo para aparecer nas reportagens de telejornais

No currículo, os ‘papagaios de pirata’ carregam aparições em grandes notícias e sonham em virar artistas

Por O Dia

Rio - Enquanto o repórter da televisão tenta se concentrar para uma entrada ao vivo, lá estão eles tentando uma vaga na telinha. Há 20 anos, Nil Ramos, de 72 anos, Célio Barreto, 69, Luciano Ezequiel, 54, e Oseias da Conceição, 46, aparecem nos bastidores da reportagem em busca de gloriosos minutos de fama. No currículo, os ‘papagaios de pirata’ carregam aparições em grandes notícias e sonham em virar artistas.

Nil ou Cowboy do Asfalto%2C como também é conhecido%2C já caiu dentro de um túmulo na tentativa de aparecer melhor durante o cortejo do enterro de Vera Verão%2C em 2003 Daniel Castelo Branco / Ag. O Dia

O ponto de encontro é a Central do Brasil, no Centro do Rio. De lá, às 6h, os papagaios partem para a pauta do dia. Nil é o veterano e encarregado de avisar aos colegas qual o destino. A dinâmica é a seguinte: de manhã cedo eles monitoram os primeiros telejornais e, da Central, local estratégico escolhido por eles, seguem às pressas para a pauta do dia. Quando o lugar é distante, Nil é avisado por amigos que, nem sob tortura, revela quem são.

Cemitérios, sede da Polícia Federal, Largo da Carioca... Eles estão em todas e colecionam grandes histórias. No enterro de Vera Verão, em 2003, Nil queria ser destaque a qualquer custo e subiu em um túmulo para ganhar mais visibilidade. Quando o cortejo passou, o inesperado aconteceu: a estrutura desabou e ele caiu na cova. “Nem me importei. Eu só queria aparecer mesmo”, brincou o papagaio.

Cada um tem sua marca registrada. Baixinho, Nil é aquele que está sempre com um chapéu e ficou conhecido comio Cowboy do Asfalto. Já o Célio opta sempre pela camisa do Brasil e Oseias é conhecido por vestir a blusa do Flamengo. “Aqui tem muito flamenguista, vão gostar mais de mim”, brinca Oseias. Luciano ou Azulão tem o hábito de usar a camisa azul e olhar o tempo todo para o relógio no braço esquerdo.

Repórter Daniel Penna-Firme%2C do SBT%2C está acostumado e não se incomoda com a presença dos ‘papagaios’ em suas reportagens%3A ‘Eles só querem aparecer. Que mal há nisso%3F’Daniel Castelo Branco / Agência O Dia

Nil é natural do Recife, mora em Copacabana e atua como corretor de imóveis quando não está à frente das câmeras. Ele já trabalhou como figurante em ‘Os Trapalhões’ e novelas da Rede Globo. “Tenho até registro de ator. Mas há 20 anos sofri um acidente e decidi ser papagaio de pirata”, revela Nil, que sonha em ter um programa na televisão, como o companheiro Luciano, morador da comunidade do Parque União.
A rotina de aparições na telinha é sagrada, mas eles juram que não ganham um centavo com isso. Dos três, Oseias, que mora em Niterói, é o único que ainda não tem a gratuidade no transporte público e gasta, pelo menos, R$ 80 por mês para acompanhar a turma. Aposentado, há 10 anos Celio tem preferência por links ao vivo, apesar da falta de paciência de alguns repórteres que. “Mas nem Cristo agradou a todos, não é mesmo?”, brinca.

Repórter do SBT leva na esportiva: ‘Até trazem água’

Habituado a lidar com os ‘companheiros de quadro’ toda manhã, o repórter do SBT Rio Daniel Penna-Firme não se incomoda com a presença dos papagaios e até acha divertido. “Eles são educadíssimos. Em manifestações ou outras aglomerações, eles até nos ajudam, fazem um tipo de cordão de isolamento. Levam até água e biscoito pra gente. Os caras só querem aparecer. Que mal há nisso? Eu também quero, ué, afinal, trabalho na TV”, pontua o profissional.

O mais famoso entre os papagaios, Jaime Sabino, o Jaiminho, faleceu em outubro de 2013, aos 83 anos. Ficou conhecido por participar de cerca de 1.150 enterros de celebridades e políticos e colecionou mais de 300 mil aparições.

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