Jovens inocentes são vítimas de linchamento virtual no Facebook

Imagens de adolescente apreendido por suspeita de matar idosa em Niterói e de rapaz preso por suspeita de roubo circularam na rede

Por O Dia

Rio - Casos de compartilhamentos de imagens e notícias falsas ou que não sejam inteiramente verdadeiras têm sido cada vez mais comuns na Internet. Com frequência, tais episódios envolvem inocentes, previamente julgados por usuários nas redes sociais — principalmente no Facebook —  o que pode gerar consequências desastrosas. Dois casos que aconteceram no mesmo dia, um em Niterói e outro em São Gonçalo, na Região Metropolitana, podem causar danos irreparáveis às vítimas. 

Nesta quarta-feira, a apreensão de um adolescente suspeito de participar do assassinato de Maria Alcina Gil, de 66 anos, morta a facadas na terça-feira, colocou em risco à vida do jovem de 16 anos. Ele foi levado à delegacia com um outro menor de 17 anos, que confessou o crime, e liberado após sua participação no crime ser descartada. No entanto, sua foto vem sendo compartilhada nas redes sociais como um dos envolvidos na morte da idosa. Nos comentários da imagem, espalhada por páginas da região, há desde calúnias à ameaças de morte.

Adolescente foi ameaçado de morte. Ele foi apontado como suspeito de matar idosa em Niterói%2C mas é inocenteReprodução Facebook

De acordo com o delegado Allan Duarte, da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), o rapaz inocente foi apreendido junto com o outro adolescente no SkatePark de Francisco, bairro próximo de onde ocorreu o crime, e levado para a delegacia da região. O autor do assassinato confessou ter matado Maria Alcina e inocentou o outro adolescente. A especializada informou que o menor não possui passagem pela polícia.

"Ele é inocente. O outro menor confessou ter matado a idosa e disse que o outro não tinha participação. Nas imagens de câmeras em nenhum momento ele aparece na cena do crime. Ele já estava na praça de skate quando o envolvido chegou lá", disse Allan Duarte.

Segundo o delegado, nas imagens aparecem apenas duas pessoas: o menor que confessou ser o autor do assassinato e Eduardo Alberto da Silva Gonçalves, de 18 anos, que se entregou horas depois. O delegado condenou o compartilhamento de informações sem a veracidade comprovada.

No outro caso, um jovem de 19 anos foi preso junto com outros dois por suspeita de assalto à uma loja do shopping Partage, no Centro de São Gonçalo. O rapaz foi capturado após cumprimentar a dupla, que morava na mesma região. Na 72ª DP (São Gonçalo), o delegado-titular Flávio Narcizo informou que X. não havia participado do roubo.

"Ele estava no shopping para entregar um currículo e acabou encontrando com os autores, que moram em sua região. Ele foi preso e encaminhado à delegacia. O fator determinante para soltá-lo foi verificarmos que ele chegou ao local em um momento completamente dissociado ao dos suspeitos. Dessa maneira, confirmamos a sua história", explicou Narcizo. Na foto, divulgada em grupos sobre São Gonçalo no Facebook, o jovem aparece algemado e sentado sob um envelope — onde guardava seu currículo que entregara em algumas lojas do centro comercial.

Três jovens foram presos por suspeita de assalto à loja do shopping Partage%2C em São Gonçalo. O do meio%2C de camiseta vermelha%2C é inocente e sofreu ataques no FacebookReprodução Facebook

Uma das páginas fez um post explicando que X. não estava envolvido no crime, mas muitos usários o difamaram e ameçaram nos comentários. A delegada Daniela Terra, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) alerta que tais comportamentos são passíveis de prisão.

"Os crimes de calúnia, difamação e injúria, somados, podem dar até seis anos de prisão. O constrangimento e os danos provocados às vítimas provocam danos irreparáveis muitas vezes. A melhor forma é checar antes de compartilhar esses dados. É preciso ter responsabilidade com o outro. As vítimas podem processar os autores na área criminal e cível", pontua Daniela. 

Em nota o Facebook, que já implementou políticas para combater as chamadas 'fake news', pediu que os usuários denunciem os conteúdos considerados impróprios na rede. Confira a nota na íntegra:

"Nossos Padrões de Comunidade não permitem conteúdos que pareçam atacar indivíduos privados propositadamente com a intenção de constrangê-los ou humilhá-los. Contamos com nossa comunidade para denunciar esses conteúdos, para que sejam revisados e, se ferirem nossas políticas, removidos.

Porta-voz do Facebook"

Outros casos famosos

Em casos mais famosos de compartilhamento de boatos que geraram graves consequêncais, uma mulher foi morta por linchamento no Guarujá, em São Paulo, e um casal quase sofreu o mesmo destino em Araruama, na Região dos Lagos.

No dia 4 de agosto de 2014, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, morreu após ter sido espancada por dezenas de moradores de Guarujá. Um boato afirmava que a vítima sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia.

Em abril deste ano, uma multidão tentou linchar um homem e uma mulher depois que boatos sobre o possível sequestro de uma criança começaram a circular em mensagens no aplicativo WhatsApp. Eles foram cercados em um carro, que foi incendiado, e saíram com ferimentos leves.

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