Bebianno: 'Desgaste de Bolsonaro se refletirá na eleição municipal'

Ex-ministro diz que presidente deverá mergulhar nas campanhas dos municípios, de olho na reeleição

Por Chico Alves

O ex-ministro da Secretaria-Geral Gustavo Bebianno
O ex-ministro da Secretaria-Geral Gustavo Bebianno -

Ex-ministro de Jair Bolsonaro e um dos principais articuladores da campanha presidencial vitoriosa, Gustavo Bebianno explica de forma resumida o motivo que o fez sair do governo: "Eu tenho vergonha na cara". A frase contundente é dita com o tom sereno de sempre, depois de recordar como, após ser exonerado da Secretaria-Geral da Presidência da República, recusou as ofertas para continuar no governo e trabalhar na Hidrelétrica de Itaipu ou em alguma embaixada. Essa mesma mistura de serenidade e contundência ele vai usar agora para concorrer à Prefeitura do Rio nas próximas eleições.

Não sabe ainda em qual partido. "Pela amizade com Paulo Marinho (empresário que apoiou a candidatura de Bolsonaro) e admiração pelo João Doria, tenho conversas com o PSDB. Mas também aprendi a respeitar Rodrigo Maia, o DEM é outra possibilidade", diz ele. Seja qual for a legenda, terá como adversário um candidato apoiado pelo presidente, que vai participar ativamente das campanhas nos municípios. Para Bebianno, Bolsonaro sabe que para tentar a reeleição vai precisar muito mais das estruturas regionais do que aconteceu na última campanha. "O efeito espontâneo que aconteceu não vai se repetir", acredita. Ele atribui essa certeza ao desgaste em episódios como a indicação de Eduardo Bolsonaro à embaixada em Washington, à paralisação de investigações originadas no Coaf (por iniciativa de Flávio Bolsonaro) e a inúmeras polêmicas desnecessárias. "O governo Jair Bolsonaro está se revelando um desastre", avalia.

O ex-ministro prevê que Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte serão os principais territórios onde o presidente vai jogar o seu peso. Em entrevista a BASE, ele faz uma previsão de como será o embate na próxima campanha municipal:



BASE - O sr. acredita que o presidente Jair Bolsonaro vai participar ativamente das campanhas municipais no ano que vem?

Gustavo Bebianno - Vai tentar exercer uma influência muito grande, porque tudo o que ele quer é a reeleição. O foco dele é voto, voto, voto. Sabe o quanto é importante uma estrutura municipal para as próximas eleições presidenciais e por isso acredito que vá mergulhar de cabeça, ao contrário do que fez na última eleição, em que fez um voo solo e desprezou por completo as candidaturas regionais dos deputados federais, estaduais e dos próprios governadores. O PSL conseguiu eleger três (governadores) e ele não teve o mínimo interesse na eleição de nenhum deles, não moveu uma palha para eleger esse pessoal, preferiu fazer uma coisa voltada só para si. No entanto, agora, uma vez presidente, ele está sofrendo e vai continuar a sofrer os desgastes naturais para uma pessoa que está nessa posição. Vai precisar de muito mais apoio nas próximas eleições do que na última, porque o efeito espontâneo que aconteceu não vai se repetir. Houve uma conjuntura de momento que pegou a população brasileira completamente decepcionada e irritada com as teses de esquerda defendidas pelo PT e pegou uma população desiludida com a sucessão que houve em relação ao governo da presidente Dilma, com Michel Temer. Passou a não acreditar mais na lisura, acha que não há político honesto. E ainda teve a questão do Aécio Neves. Então, o Jair se apresentou como a pessoa honesta e tudo mais. Houve um fenômeno político que não vai se repetir.



BASE - O que o faz levar a crer que esse fenômeno não vai se repetir?

Bebianno - Ele está sofrendo desgastes também, como no caso do Flávio. Essa paralisação das investigações que tiveram como origem as informações do Coaf está pegando muito mal para ele. Sempre defendeu as investigações sem qualquer limite contra o PT. Mesmo com possíveis excessos que possam ter ocorrido nessas investigações ou no curso dos processos, sempre defendeu a Lava Jato. Ele mesmo disse no caso do Flavio que iria investigar, doesse a quem doesse...mas ficou no discurso. Nesse caso, partir do filho dele uma medida que foi pedida pelo advogado que é amigo do Jair, interromper a investigação da forma que foi feita, acho muito ruim para a imagem dele. É aquela história: se não deve, abre as contas, mostra. Por qual motivo paralisar? O ministro Toffoli sempre foi alvo de ataques muito contundentes por parte de seguidores do Jair. E agora, curiosamente, silêncio absoluto. O pedido do Flavio simplesmente paralisou uma gama enorme de investigações e procedimentos contra a corrupção. Curiosamente, ninguém falou nada. Acho muito ruim do ponto de vista político. Sou uma pessoa que acredita na inocência do Flavio, acho que é um bom cara, mas ele está cometendo suicídio político. É esse tipo de desgaste que obriga Jair a construir uma estrutura política que ele pôde desprezar nas últimas eleições.



BASE - Acha que vai conseguir?

Bebianno - Aí são outros quinhentos. Acho que o governo federal hoje se divide em dois, são dois governos, na verdade. Existe o governo do ministro Paulo Guedes, que é exitoso, está na direção certa, tem uma visão liberal sob ponto de vista econômico que o Brasil nunca experimentou de verdade. Então o "governo Paulo Guedes" traz um ingrediente novo para a economia, um olhar próspero, moderno, do meu ponto de vista vai ser um sucesso, vai resultar em coisas boas para o país. E há o "governo do Jair Bolsonaro", que está se revelando um desastre. Ele perde muito da energia em questões pequenas, polêmicas que poderiam ser evitadas, uma postura autocrática, como quando indicou o próprio filho para a embaixada mais importante. Isso gera um desgaste que é um equívoco político. Ele foi eleito de verdade por pessoas que não estão muito vinculadas a ideologias políticas, é o brasileiro normal que quer ganhar o seu dinheiro, ter o seu emprego, tomar sua cervejinha no final de semana, quer ir ao jogo de futebol. Esse brasileiro normal, que é a grande massa, não está preocupada com questões ideológicas. Esse brasileiro estava preocupado em combater uma bandeira que tinha sido fincada pelo PT que começou a incomodar, o excesso de politicamente correto. Isso tudo incomodou e o brasileiro rejeitou. O Jair está cometendo o erro de ir para o extremo oposto. Quando exagera na questão do conservadorismo, esse eleitorado que botou ele na presidência está com mil questionamentos. Está vendo esse excesso de assuntos pequenos, de polêmicas, está vendo ele querer beneficiar o filho para colocar na embaixada de Washington, está vendo a questão do Flávio, vê que por causa do outro filho (Carlos) teve um grande desgaste na ala militar, está vendo o presidente ter uma postura inadequada na questão da reforma da Previdência. Esse desgaste é grande e pode se refletir nas eleições municipais.



BASE - Acha que na verdade o seu grande opositor na eleição municipal do Rio será Jair Bolsonaro?

Bebianno - Eu não sou opositor, muito pelo contrário, torço por ele. Torço para que dê certo. dediquei dois anos da minha vida a um projeto que eu acreditava de coração. Algumas coisas me decepcionaram pelo ponto de vista pessoal, mas o pessoal é uma coisa, o público é outra. Do ponto de vista pessoal, me decepcionou o fato de ele não ter uma gota de lealdade por nenhum amigo. O que ele fez com o general Santos Cruz, um amigo de 40 anos... Eu não tinha tanto tempo de amizade, apenas dois anos, mas ele sabe o que eu fiz. Não é ninguém, ele sabe todos os obstáculos que eu consegui romper para que chegasse à Presidência da República. Sob o ponto de vista pessoal, me decepcionou a falta dessa característica militar, a lealdade, que ele não tem. Do ponto de vista público, me decepciona essa atitude de dar filé mignon para o filho, um garoto que ele sabe que não tem nenhuma condição de desempenhar a função de embaixador, muito menos em Washington. O garoto não fala nem inglês, sequer sabe qual seja o papel de um embaixador, questões na OMC (Organização Mundial do Comércio)... ele não faz ideia.



BASE - Então, em nenhuma hipótese ele subiria no seu palanque?

Bebianno - Nem eu quero. Quando eu optei por sair do governo, já que ele me tirou do ministério e me ofereceu Itaipu, me ofereceu embaixadas, eu preferi me desligar. A decepção foi tamanha com a conduta e com a forma desleal com que fui tratado, que preferi romper. Eu tenho vergonha na cara. Quando houve essa ruptura, eu não sabia como seria recebido, como as pessoas reagiriam na rua, não sabia se seria ofendido, agredido. Mas, para minha surpresa, as pessoas sempre falaram comigo de forma muito carinho, me apoiando. A maioria das pessoas viu que foi uma injustiça o que aconteceu. Começaram a falar "você tem que disputar uma prefeitura", depois passei a ouvir isso do meio político, algumas siglas começaram a fazer contato. Está sendo um processo natural, nada que eu esteja correndo atrás. Acho que o Rio não pode mais pulverizar o eleitorado do centro, ou então vamos de novo vamos ter um segundo turno com Freixo e Crivella. O Rio precisa de um grupo que se una em benefício da cidade. (Veja aqui os planos de Bebianno para a prefeitura)



BASE - O centro é o seu foco?

Bebianno - Acho que Jair teve o mérito de manter uma conduta ao longo dos anos que, quando chegou o momento de crise e descrença por parte da população, ele deu o "corte no baralho". Mas na próxima eleição vamos ver o movimento pendular. Estávamos com o pêndulo à esquerda, depois foi para a direita, mas a tendência é o pêndulo parar no meio. O Brasil, que sempre foi um país ecumênico, que nunca teve perseguição religiosa, a não ser por fatos pontuais, hoje está adotando até um perfil meio fundamentalista. O Brasil tem que manter as tradições dele, a religião africana, o candomblé, isso é tão bonito, tão forte. Faz parte do ar que a gente respira, principalmente no Rio de janeiro, Salvador. O Brasil precisa parar com essa polarização e voltar ao que sempre foi. O bom governante tem que ser acima de tudo generoso.





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