Governadores da Amazônia querem que presidente mude discurso sobre a região

Governador do Amapá, Valdez Góes, presidente do consórcio interestadual da região, defende planejamento conjunto

Por Chico Alves

Valdez Góes, governador do Amapá
Valdez Góes, governador do Amapá -

Não deve ser ameno o clima da reunião entre os governadores do Consórcio da Amazônia e o presidente Jair Bolsonaro, marcada para amanhã. Eles não gostaram do tom adotado pelo governo federal no início do megaincêndio e acham que a política ambiental implementada pelo ministro Ricardo Salles faz com que madeireiros ilegais se sintam autorizados a fazer o que quiserem na floresta. "Uma coisa é defender alternativas de desenvolvimento e outra é abrir a guarda e ser permissivo com as pessoas que já cometem ilegalidades, fazendo com que se sintam autorizadas a continuar cometendo (crimes). Aí não dá", comentou à coluna o governador do Amapá, Valdez Góes, que também é o presidente do consórcio que reúne os nove chefes de Executivo estadual da região. Diante da pouca tolerância de Bolsonaro com as críticas, a conversa deve ser quente.

A primeira reação do presidente, ao perceber que a proporção das queimadas eram maiores do que imaginava foi culpar ONGs e governadores da Amazônia. "Não é campo bom esse de buscar responsabilizar sem a devida prova. Um governador, um secretário, um ministro, um presidente da República quando levanta uma tese sobre uma situação de ilegalidade tem que estar com o respaldo de algum levantamento e colocar na mesa, porque a sociedade tem o direto de conhecer isso. Não me senti bem, como nenhum outro colega governador, quando a responsabilidade foi passada aos governadores", diz o governador do Amapá. Mas Góes acredita que agora Bolsonaro está disposto a corrigir o rumo e acredita que é possível seguir por um caminho de integração entre as autoridades estaduais e federais.

Os governantes da Amazônia vão levar ao governo federal a reivindicação de que essa ação conjunta não aconteça apenas nesse momento de emergência, mas que passe a ser uma política permanente. "Por melhor aparato que tenham, não é fácil para os estados cobrirem todas as áreas. Por isso é fundamental um plano integrado de órgãos federais com estaduais, visando a prevenção e o monitoramento, de vigilância e de punição dentro da lei daqueles que ousam praticar ilegalidades por achar que não vão ser punidos", diz Valdez Góes.

O governador do Amapá não vê problema na reunião do ministro Salles com os madeireiros, justamente a categoria apontada com a responsável pelo incêndio gigante que atraiu a atenção do mundo. "O governo, seja ele federal, estadual ou municipal, tem mesmo que dialogar. Mas nesse diálogo é preciso deixar muito claro que só vai permitir atividade dentro da legalidade total", opina.

Depois de ficar sem a verba bilionária do Fundo Amazônia, os integrantes do consórcio pretendem se reunir em setembro com representantes dos governos da Alemanha e Noruega em busca de recursos para manter a sustentabilidade da região. Góes não vê nenhum risco para a soberania na parceria com outros países, ao contrário do que disse o ex-comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas. "Os governadores têm a livre iniciativa de abrir contato com a China ou com outros países para discutir estratégias de desenvolvimento econômico, tratar de projetos, captar recursos externos. O Brasil tem uma grande legislação. Eu sou nacionalista, o povo da Amazônia também e não permitiríamos uma parceria prejudicial à nossa soberania".

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