A redução da Selic pode estimular o financiamento imobiliário e novos negócios, mas efeitos tendem a ser graduais, analisam especialistasAI
Apesar de mais uma queda, taxa Selic ainda desafia a construção civil
Movimento precisa ser constante para estimular o crédito imobiliário e novos investimentos, avaliam especialistas
A quinta queda consecutiva da Selic, taxa básica de juros, de 14% para 13,75% ao ano, foi bem recebida pelo mercado imobiliário, mas com ressalvas. Em nota, a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) considerou positiva a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária), alertando que o percentual continua elevado, o que impõe desafios ao setor produtivo e limita uma retomada mais consistente do crédito e dos investimentos.
“Estamos com juros de dois dígitos desde o início de 2022, o que representa um grande desafio para o empresário, especialmente em um setor como a construção, que trabalha com projetos de longo prazo e depende de crédito e previsibilidade. Precisamos avançar na construção de um ambiente macroeconômico estável, que permita a continuidade desse movimento de redução dos juros de forma sustentável e estimule novos investimentos”, disse Eduardo Aroeira Almeida, presidente da CBIC.
A economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, lembrou que a nova redução ocorre em um cenário de desaceleração da economia brasileira, mesmo com um mercado de trabalho ainda dinâmico. A construção também apresentou perda de ritmo nos últimos meses. “Os dados mostram que a construção perdeu dinamismo no segundo trimestre, e os juros elevados ajudam a explicar esse cenário. A construção tem um ciclo produtivo longo e precisa de planejamento, crédito e previsibilidade. Quando as taxas permanecem elevadas por muito tempo, o impacto não fica restrito à atividade no presente: ele alcança também as decisões sobre novos projetos e pode comprometer os investimentos futuros. A continuidade do processo de redução dos juros, respeitadas as condições econômicas, é fundamental para estimular o crédito, ampliar os investimentos e contribuir para um crescimento mais sustentável do setor e da economia brasileira”, explicou Ieda.
A coluna ouviu mais especialistas sobre o assunto. Confira as opiniões:
“Qualquer redução ajuda não só o mercado imobiliário, mas a economia como um todo. Espero que o Banco Central possa continuar reduzindo as taxas e que as outras instituições financeiras também tomem consciência da importância destas quedas e que cada um faça a sua parte. O que não pode é ser uma medida pontual para conter a inflação devido à desaceleração da economia. Existem outras medidas que também ajudariam a reduzir a Selic como a redução dos gastos do governo. Com os juros atuais fica difícil empreender no país”, Leonardo Mesquita, presidente da Ademi-RJ (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário) e co-presidente executivo da Cury Construtora.
“É uma excelente sinalização para o mercado imobiliário e para a construção civil, apesar de ainda estarmos em um patamar elevado de juros. O fato de estarmos em um ciclo de redução a cada reunião do Copom indica uma tendência de queda, o que traz expectativas positivas para o mercado, especialmente porque trabalhamos com juros futuros, principalmente nos financiamentos à produção. Essa redução também deve gerar impacto nas taxas de concessão de crédito imobiliário por parte dos bancos, melhorando a situação do comprador de imóveis. O nosso mercado é muito sensível à taxa de juros, e toda redução ou sinalização de queda é muito bem-vinda, seja para aumentarmos o volume de produção de novos imóveis, seja para ampliar as oportunidades de concessão de crédito para quem sonha com a casa própria”, Claudio Hermolin, presidente do Sinduscon-Rio (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio de Janeiro).
“A redução de 0,25 ponto percentual na Selic reflete, entre outros fatores, a desaceleração do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Apesar da tendência de queda, vale ressaltar que a alta dos juros americanos pressiona o câmbio e a inflação importada, o que deve pesar para a manutenção da Selic até o final deste ano, ou, no máximo, uma redução tímida. Diante desse cenário, temos observado que os bancos vêm acompanhando a queda da Selic de forma ainda conservadora, mas já reduzindo gradualmente suas taxas de financiamento, o que ajuda a estimular o mercado de compra e venda de imóveis. A expectativa é de uma melhora nas negociações imobiliárias no médio prazo, à medida que essa redução das taxas continue, com perspectiva de valorização dos ativos”, Fernando Canato, diretor administrativo e financeiro da Abadi (Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis).
“O corte na Selic é um impulso para o mercado imobiliário, mas ainda é pequeno, quase um movimento inicial. O mais importante é a tendência de redução dos juros, que pode facilitar a aquisição tanto de imóveis na planta quanto de usados. O que tem travado um pouco o mercado imobiliário é justamente a falta de dinheiro das pessoas, que inclui também a dificuldade de arcar com os juros elevados que a nossa economia vem impondo ao setor. De certa maneira, também haverá algum benefício para o mercado de locação, mas não necessariamente por causa deste corte isolado, e sim pela perspectiva de continuidade da queda dos juros”, Cláudio Castro, diretor da Sérgio Castro Imóveis.
“A redução pode abrir caminho para financiamentos mais acessíveis e estimular negócios no mercado imobiliário. Mas seus efeitos tendem a ser graduais, sem uma mudança imediata nas condições de compra. Para quem pretende comprar um imóvel, a queda da Selic pode gerar um financiamento mais barato. Se os bancos também baixarem os juros dos novos financiamentos, o comprador poderá financiar o mesmo valor, pelo mesmo prazo, pagando parcelas menores. Assim, a compra pode passar a caber no orçamento de famílias que antes não conseguiam pagar a prestação. Essa melhora, porém, não é automática. Os bancos não olham apenas para a Selic ao definir os juros de um financiamento. Eles também consideram quanto custa obter o dinheiro que vão emprestar, o risco de o comprador não pagar as parcelas e como os juros podem mudar nos próximos anos. Por isso, a queda da Selic não significa que os juros do financiamento vão cair na mesma proporção ou no mesmo momento. Para construtoras e incorporadoras, juros menores podem tornar mais baratos os empréstimos usados para financiar as obras. Isso pode ajudar a tirar novos projetos do papel. Mas, assim como acontece com o comprador, esse benefício depende das condições oferecidas pelos bancos, uma vez que, antes de iniciar uma obra, as empresas também precisam avaliar os custos da construção, se haverá compradores e em quanto tempo conseguirão vender os imóveis”, Leandro Sender, especialista em Direito Imobiliário e sócio do escritório Sender Advogados Associados.

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