Luiz Antonio Simas: Primeiro sinal do Natal

Aproveito o ensejo e lanço uma campanha urgente: ainda dá tempo de substituir o Papai Noel pelo Vovô Índio

Por tabata.uchoa

Ainda dá tempo de substituir o Papai Noel pelo Vovô ÍndioAgência O Dia

Rio - Na semana passada, no camelódromo da Central do Brasil, vi um boneco do Papai Noel. É o primeiro sinal, em meados de outubro, de que o Natal se aproxima. Aproveito o ensejo e lanço uma campanha urgente: ainda dá tempo de substituir o Papai Noel pelo Vovô Índio na festa de 2014. É por isso que dou a dica com alguma antecedência.

O Vovô Índio foi um personagem criado na década de 1930 pelo jornalista Cristovam Camargo, adepto do movimento integralista. Nacionalistas radicais, os integralistas resolveram substituir o Papai Noel, que ainda não gozava de grande prestígio, por um índio amazônico imenso, que saía pelo ciclo da natividade a distribuir presentes entre as crianças.

A substituição, porém, nunca colou. Acontece que as crianças se pelaram de medo do tal silvícola natalino. O Vovô Índio parecia mais um daqueles caboclos de Umbanda, que usam cocares comprados no Mercadão de Madureira e dão consultas e passes com charutos. Comerciantes chegaram a estimular cerimônias para receber com festas o personagem nacionalista. Não deu certo.

Houve uma ocasião em que a chegada do Vovô Índio a uma festa de Natal promovida no Estádio de São Januário, campo do Vasco da Gama, terminou em memorável furdunço. A entrada do aborígene no gramado — de cocar, tanga, arco e flecha e saco de presentes — causou verdadeiro pânico entre as crianças. Em meio a um chororô dos infernos e correria generalizada, um guri encapetado, certamente estimulado por doses cavalares do Biotônico Fontoura, arrancou o cocar do tupi-guarani e se empirulitou. O índio ameaçou flechar, em legítima defesa, os curumins mais afoitos e acabou perseguido por mães furiosas. Depois do fracasso do evento, o Vovô Índio voltou para as profundezas amazônicas e o Papai Noel se afirmou com força cada vez maior entre nós.

Apesar do fracasso nos anos 30 e 40, sou pela volta do Vovô Índio; ainda mais num calor de alto forno de siderúrgica, como o do verão canarinho em tempos de cataclismos ambientais e sob risco de racionamento de água. Apavoro-me ao imaginar um verão sem encher a minha piscina Tone, a alegria da garotada.

Aposto também que o cidadão que descola uns caraminguás no Natal bancando o Papai Noel de shopping preferirá, ao invés de vestir-se para um frio de Polo Norte, meter uma tanga e um cocar vendido por uns merréis em alguma loja de macumba.

Portando discreta zarabatana, o Vovô Índio ainda terá condições de lidar melhor com pais histéricos e crianças aos berros, personagens típicos de mais um Natal que se avizinha.

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