Por karilayn.areias

Rio - O escritor Marco Carvalho passava todos os dias pela região onde outrora ficava o Morro do Castelo, posto abaixo em 1922 numa época em que se pretendia modernizar o Rio de Janeiro. E se indignava. “O processo foi o de todas as remoções: embeleza-se a cidade tirando o preto e o pobre do caminho. Os moradores foram mandados para favelas distantes”, recorda Carvalho, cujo romance ‘Uma Ladeira Para Lugar Nenhum’ (Editora Record, 160 págs, R$ 32) conta uma história de ficção sobre o Morro e a Ladeira da Misericórdia, que ligava o asfalto ao Castelo, e da qual hoje só resta um pedaço.

Marco (foto)%3A mescla de ficção e fatos reais em ‘Uma Ladeira...’Divulgação

O livro de Marco fala sobre a paixão proibida da mulata Rosário pelo Padre Ernesto — ela vivendo um casamento frustrado com um comerciante português, ele lutando para se manter fiel à Igreja. O amor dos dois se dá entre a ladeira, o morro e seus subterrâneos. “Há documentos que mostram tesouros dos jesuítas por lá. O Lima Barreto escreveu sobre isso no livro ‘O Subterrâneo do Morro do Castelo’”, relata Marco. “O desmanche do local foi conduzido de forma autoritária. Nunca acontece, nessas reformas, um plano para quem acaba sobrando nelas. É como aconteceu recentemente em outras favelas”.

Uma das histórias do livro é real: a dos estudantes de uma escola pública que, em 1920, ensaiaram para cantar o Hino da Bélgica para o Rei Alberto e a Rainha Elisabeth, em visita ao país. “Eles proibiram que os alunos negros se apresentassem junto dos brancos. Isso aconteceu de verdade. No livro, conto essa história como se fosse com o filho da Rosário”, diz Marco. ‘Uma Ladeira’ fala de uma certa vergonha que o Rio tem de seus caracteres afro — Rosário, católica, frequenta escondida centros de umbanda. “Mas isso está mudando. As pessoas têm mais sensibilidade. Principalmente ao abordar o mundo dos orixás, que traz toda uma mitologia.”

Marco é autor de ‘Feijoada no Paraíso’, que originou ‘Besouro — O Filme’, de João Daniel Tikhomiroff, sobre a vida do capoeirista Besouro Mangangá. Caso ‘Uma Ladeira Para Lugar Nenhum’ tenha o mesmo destino, ele já sonha com uma Rosário de carne e osso. “Imagina a Juliana Alves, linda daquele jeito, no papel?”, brinca.

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