Por nicolas.satriano
Rio - Minha segunda cidade é Manaus, terra de meus avós maternos, de minha mãe, de meus tios e primos. Meu pai foi morar por lá nos anos 60 do século passado, levado pelo primo Cesar, que havia sido convidado para trabalhar no projeto urbanístico da capital do Amazonas.
Ambos arquitetos, com seus vinte e poucos anos, aprontaram muito por lá e essas histórias sempre surgem nesta época, nas impagáveis noites natalinas. Meu pai se casou com minha mãe e vieram para o Rio de Janeiro, onde eu e meu irmão nascemos. Depois se separaram e, em 84, ela voltou para sua terra natal, comigo na bagagem, e reencontrou Cesar, com quem é casada há 30 anos. Totalmente diferentes, Cesar e meu pai, Ivan, são os melhores amigos, o que me orgulha muito.
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Lembro-me sempre de duas músicas que meu pai fez nesta época. Uma é impublicável e fala da abundância de mulheres no Norte do país. A outra tem uma frase que não esqueço: “Manaus cidade engraçada, movida a ventilador.” É claro que ela se refere ao calor insuportável e que devia ser bem pior quando não havia ar-condicionado por lá.
Foi em Manaus que saí pela primeira vez numa escola de samba. Me deram um tamborim e passei a integrar a Sem Compromisso. O samba era do grande poeta Aníbal Ferro de Madureira Beça. Sempre achei que o ‘Ferro de Madureira’ fosse um apelido por alguma passagem pelo bairro de Paulo da Portela, mas acabei de saber que este era o nome dele mesmo. Colunista Google é isso. O samba-enredo, gravado por Aroldo Melodia, até hoje me vem à lembrança. “Paris da Selva/ Mon amour, très jolie/ Com vinte mil réis/ As cocottes dizem oui, voilà mon chéri”. Bom demais.
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Foi em Manaus também muitas outras primeiras vezes. A primeira transa; a primeira aula de direção e, consequente ou inconsequentemente, a primeira batida; o primeiro porre; a primeira namorada à vera; a primeira composição; o primeiro emprego; a primeira expulsão de um colégio; e outras primeiras coisas que é melhor deixar pra lá. E eu só tinha 14 anos e fui para um lugar onde tudo era permitido, pro bem e pro mal.
Tive a oportunidade de conhecer as cachoeiras de Presidente Figueiredo, provar as frutas, a costela de tambaqui, o pirarucu e o guaraná Tuchaua da casa da minha avó Diva, uma das figuras mais fantásticas que conheci. Meu avô Sérgio, de quem herdei meu segundo nome, havia ficado cego por causa de um derrame e, sempre que eu saía do colégio, ia para a casa dele, atrás do Palácio do Rio Negro. Lá, almoçava, lia todo o jornal para ele e fazíamos a sesta no único quarto com ar-condicionado da casa. Dele herdei uma máquina de escrever onde tentei vários poemas. Acho que ali virei jornalista. Manaus foi uma revolução na minha vida e a oportunidade de conhecer parte fundamental de minhas origens.
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A viagem de uma amiga, Chris, a Manaus, me fez lembrar tanta coisa que uma só coluna não é suficiente. Há alguns anos, quando minha avó morreu, voltei à cidade. Por coincidência, era época do festival de cinema que, acho, ainda acontece por lá. Numa festa, no Palácio do Rio Negro, me apresentaram a ninguém menos que o diretor Alan Parker. Estávamos a um ou dois quarteirões da casa do meu avô, a poucos metros de onde havia um cinema. Neste cinema, por conta de um cartaz, entrei para ver o clássico ‘The Wall’, de Parker, com meu primo Eduardo. Outra primeira vez. O cinema não existe mais, nem meu avô, nem meu primo Eduardo. Talvez nem o que fui e a Manaus dos meus tempos.