Perseguido por décadas, o samba chega ao centenário amado pelos brasileiros

O preconceito contra o samba não se materializou somente na repressão policial das primeiras décadas. No fim dos anos 70, as emissoras de rádio e TV praticamente só tinham espaço para músicas americanas

Por O Dia

Rio - O samba corria solto em uma das esquinas da Rua Dona Vicência, no bairro de Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio, quando o sargento Vésper chegou. De cara fechada, o policial encarou  o grupo de rapazes que batucava. “Alô, seus vagabundos! Vou ali embaixo e quando voltar não quero mais ver essa pouca-vergonha aqui. Se ainda tiver samba, eu vou sentar o cacete”, sentenciou.

O episódio, ocorrido na década de 1940, é contado por um dos sambistas reprimidos pelo sargento: Monarco, hoje com 84 anos, compositor portelense, autor de algumas das composições mais bonitas da música brasileira. “Nós éramos discriminados. Vi muito sambista ser preso só porque tinha na mão um pandeiro.”

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Centenário do sambaArte O Dia

Ao completar hoje 100 anos (data que marca o registro da música ‘Pelo Telefone’), o samba nem parece o mesmo de décadas atrás. Artistas do gênero vendem milhões de CDs e DVDs, as emissoras de rádio abrem espaço generoso e os shows são lotados Brasil afora. “Atualmente, a polícia que nos reprimia abre espaço para nós”, constata Monarco. “O samba conseguiu superar essas dificuldades”. O caminho para chegar até aqui, no entanto, não foi nada fácil.

Surgido no meio dos negros, ex-escravos, o ritmo sofreu o mesmo preconceito racial que seus criadores. A imprensa das décadas de 1920 a 1930 tem vários registros de ações da polícia contra os sambistas. Um desses foi João da Baiana, autor de clássicos e considerado por muitos como o introdutor do pandeiro nas rodas. Nos anos 20 e 30, ele foi assíduo frequentador da cadeia. “Fui preso várias vezes por tocar pandeiro”, contou João, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som.

Diante de tantas barreiras, como o samba conseguiu chegar até aqui? Um dos pontos favoráveis foi que a paixão pelo ritmo atravessou gerações, passando de pai para filho.  Aconteceu assim na família de Monarco, onde os filhos Marquynhos e Mauro, além da neta  Juliana são sambistas. “É uma coisa inexplicável, a inspiração vem e a música nasce”, conta Marquynhos Diniz, autor, entre outras, de ‘Caviar’ e ‘Dona Esponja’, sucessos gravados por Zeca Pagodinho.

Também na casa de Martinho da Vila, o vírus do samba se espalhou. De seus oito filhos, sete estão mergulhados no samba — inclusive Mart’nália, que é uma das mais famosas sambistas da atualidade. “Foi uma consequência natural da convivência com os músicos e cantores em casa”, explica Martinho. A filha Analimar, que faz participação vocal em shows de artistas como Fundo de Quintal e Alcione, confere ao ritmo uma importância fundamental.

“Se não fosse pelo samba, eu nem tinha nascido, já que meu pai e minha mãe se conheceram na quadra da Vila Isabel”, diverte-se. Ela cuida hoje da escola-mirim Herdeiros da Vila, cujo samba enredo é de autoria de seu filho, Raoni, neto de Martinho.

O  preconceito contra o samba não se materializou somente na repressão policial das primeiras décadas. No fim dos anos 70, as emissoras de rádio e TV praticamente só tinham espaço para músicas americanas. A batucada era considerada brega, ultrapassada. “Foi por isso que, em 1979, eu compus a letra que diz ‘Samba/ Agoniza mas não morre’,  conta o mangueirense Nelson Sargento, 92 anos.

A cantora Teresa Cristina, da nova geração, não acha que esse tipo de preconceito esteja superado por completo: “Toda vez que uma rádio diz que não pode tocar samba na programação porque a emissora é muito sofisticada, eu entendo isso como um tipo de discriminação. E acontece muito”.

NA ÉPOCA EM QUE SAMBAR ERA CRIME

Assim que nasceu, no começo do século passado, o samba aparecia com frequência nas páginas policiais dos jornais. A batucada só era aceita quando tocada por orquestras em roupagem folclórica, estilizada, nos teatros frequentados pela elite. Já as rodas improvisadas em bares ou nas ruas, onde os sambistas negros e pobres tocavam pandeiro, tamborim e violão, eram vistas pelas autoridades como reunião de desocupados e bandidos. Muitas vezes, os músicos e cantores, vários deles ex-escravos, acabavam levados para a cadeia simplesmente por sambar.

Uma dessas ocorrências, publicada no jornal ‘Correio da Manhã’ no dia 9 de agosto de 1920 (quatro anos depois do registro de ‘Pelo Telefone’), dá a medida de como a polícia e a própria imprensa enxergavam os sambistas. A nota contava que, na tarde anterior, vários “desocupados” formaram um “ruidoso samba” na Rua Visconde de Niterói, ao pé do Morro da Mangueira. Acionados , o delegado, o inspetor e outros policiais do 18º Distrito foram ao local e “conseguiram prender parte do pessoal do batuque”. A notícia termina com a informação de que foram apreendidos cinco pandeiros e um tambor.

Nem sempre, no entanto, as ações da polícia eram recebidas sem reação. Em dezembro de 1921, o ‘Correio da Manhã’ noticiava que policiais foram a um botequim em Bento Ribeiro para reprimir um samba, frequentado por “indivíduos de má nota”. Segundo a matéria, o destacamento da Estação de Marechal Hermes foi recebido a tiros. Houve confronto e, por fim, quatro mulheres e quatro homens foram presos, entre eles Tião da Favella, que resistiu à prisão dando cabeçadas e rasteiras nos policiais. Acabou dominado e levado para a cadeia.

“Nas primeiras décadas do século passado, o simples ato de caminhar pelas ruas carregando instrumento poderia levar uma pessoa para a cadeia — sobretudo se o indivíduo fosse negro e se vestisse como sambista” , afirma Reinaldo de Almeida Júnior, doutor em Direito pela Uerj, pesquisador da relação da lei com o samba e outros elementos da cultura afro-brasileira. Como não havia tipificações penais, diz ele, a detenção pela polícia geralmente atingia grupos bem determinados, quase sempre negros, sambistas, praticantes de capoeira e adeptos de religiões afro.

A vingança dos sambistas contra essa repressão era denunciar em suas músicas a violência que sofriam. Há muitos exemplos. Uma deles é a composição ‘Delegado Chico Palha’, de Tio Hélio e Nilton Campolino. Regravada recentemente por Zeca Pagodinho, o samba foi feito em 1938. Era um tempo em que a polícia de Getúlio Vargas fazia perseguição pesada. A letra é bastante clara: “Delegado Chico Palha/Sem alma, sem coração/Não quer samba nem curimba/Na sua jurisdição/ Ele não prendia/Só batia”.

Para o policial, descrito como “muito forte’ e de “gênio violento”, os sambistas “vagabundos” e as mulheres “sem-vergonha”.

Assim como na vida, também na letra dessa música os sambistas venceram: os cultos afro e o batuque ganharam seu espaço e o delegado acabou virando mendigo. “A curimba ganhou terreiro/ O samba ganhou escola/ Ele expulso da polícia/Vivia pedindo esmola."

EVOLUIR SEM PERDER O TOM

Entre várias datas possíveis para marcar o centenário do samba, a mais aceita é o dia do registro da música ‘Pelo Telefone’, de Donga, considerada a primeira música do gênero, 27 de novembro de 1916. O próprio pioneiro do ritmo foi vítima da perseguição da polícia. “Nós dávamos um samba e de repente éramos intimados para ir à delegacia. Você já pensou? Eu tinha minha revolta”, contou Donga, ao Museu da Imagem e do Som.

Nada faria prever que, 100 anos depois, os sambistas estariam tão firmes e fortes. “O samba é dinâmico e consegue conciliar tradição e transformação com rara potência”, observa o historiador Luiz Antonio Simas, autor do ‘Dicionário da História Social do Samba’, em parceria com Nei Lopes, vencedor de uma das categorias do Prêmio Jabuti deste ano. “Basta ver como o samba engendrou subgêneros a partir do contato com outras manifestações: samba-canção, bossa nova, samba-rock (o esquema novo de Benjor), samba de gafieira”, comenta Nei Lopes.

Nélson Sargento concorda e diz que o gênero evolui sem perder a essência. “São várias modalidades, mas todas estas têm como origem o samba. Nossa raiz é muito forte, foi tratada por artistas de talento como Cartola, Paulo da Portela , Nelson Cavaquinho e muitos outros. Por isso, resiste”, acredita.

Para Monarco, a luta para manter o ritmo em alta nunca vai acabar. “As coisas melhoraram muito, mas é preciso ficar esperto, estão sempre querendo puxar nosso tapete”, alerta.


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