Wagner Moura estreia na direção de cinema com MarighellaAriela Bueno
Responsável pela direção do longa, que traz Seu Jorge no papel do guerrilheiro, Wagner Moura comemora a oportunidade de dividir seu trabalho com o público depois de tanta espera. "Eu estou emocionado. Sem papo furado. Porque esse filme, apesar de ser meu primeiro trabalho como diretor, ele sintetiza bastante a minha relação como artista com o Brasil. O cinema nacional, ele é um cinema que historicamente tem essa tradição de pensar o Brasil, de entender que país é esse, falar das regiões, das pessoas, das mazelas. Eu sinto que ‘Marighella’ sintetiza essa relação artística com o país e, não à toa, esse filme tem gerado tantos ataques, tanta violência, tanta ameaça", lamenta o artista, que não deixa de comemorar o lançamento, mesmo que tardio.
“É duro você não ver o seu filme estrear como qualquer outro. Mas eu fiquei emocionado e impressionado como os movimentos sociais abraçaram o filme, como o filme virou uma coisa importante. Era gente que via o filme não como uma simples representação da resistência contra a ditadura militar, mas eles se viam. Gente que está resistindo agora, indígenas, quilombolas, MTST, Coalizão Negra Por Direitos. Eu senti muito amor nesse momento. Até porque essa espera não é só minha. Quando você censura uma obra, você não está censurando somente o artista, você censura as pessoas de assistir aquilo”, declara Wagner.
Obra popular
Apesar de trazer um tema denso, que faz referência a um período histórico brasileiro, o diretor se empolga com a ideia de que o filme ‘fure a bolha’ intelectual e chegue ao grande público. “Eu acho ótimo, acho natural, acho maravilhoso. Eu quero muito que o filme seja popular. Se os fãs de Bruninho (Gagliasso) e de Seu Jorge forem ao cinema para ver os seus ídolos, vão sair de lá com um pedaço da história do Brasil. Quando eu fiz 'Hamlet', eu pensei muito isso. Era uma época que eu tinha acabado de fazer 'Paraíso Tropical' e tinha sido um sucesso muito grande. Então, eu tinha certeza que muitas pessoas iriam ao teatro para ver o cara da novela, o Olavo, e iam sair de lá com Shakespeare. Eu quero que tudo que eu faça seja popular, seja visto por muita gente e atinja muitas pessoas”, declara Wagner.
“Uma das razões pelas quais eu fiz o filme é essa. Marighella é um cara que teve sua história apagada, sua voz silenciada. A narrativa oficial apagou a história de Marighella e todas as histórias em que os personagens principais lutaram contra um poder estabelecido. E quando esses personagens vêm de baixo, essas histórias são sempre narradas do ponto de vista do dominador, do poder. E como é que o poder narra uma história de alguém que luta contra o poder? De forma preconceituosa, a minimizar”, completa o diretor.
Futuro otimista
Apesar da censura ao filme e das críticas ao governo Bolsonaro, Wagner faz questão de reforçar seu otimismo e esperança em relação ao futuro. Nesse sentido, ele ainda defende que ‘Marighella’ é um filme que compartilha desse sentimento.
“É um filme de amor, sobre pessoas que amam. É um filme duro, muito duro, que não poupa o espectador da dureza que foi a ditadura militar. Então o meu filme está aí para dizer que foi horrível, que a gente não quer mais isso, mas não é um filme pessimista. Ela aponta para um futuro que, na minha cabeça, corresponde à vocação que o Brasil tem de ser um país do futuro, esse país único”, declara Wagner, que já vê o horizonte brasileiro sem a participação de Jair Bolsonaro no governo.
“Hoje em dia, o que a gente tem que fazer, é a lutar por reconstrução. Tudo o que havia de bom no Brasil foi destruído. O governo Bolsonaro é um governo de destruição, não foi um governo que construiu nada. Eu estou seguro que o que vem pela frente será diferente. A partir de 2022, se não houver uma tentativa de golpe, uma maluquice dessas, a gente vai ter um governo diferente. Pode ser uma terceira via, pode ser Lula. Mas vai ser diferente. O Brasil já olhou para isso e entendeu que isso não é o que a gente é ou o que a gente quer. O trabalho será de reconstrução, mas o primeiro passo é a gente se livrar definitivamente desse espectro doloroso da nossa própria história”, pondera o diretor.
“Muita gente adoeceu de Brasil. Eu falei com muitos amigos que ficaram doentes com isso, mas, por outro lado, acho que a gente vai sair disso para um lugar melhor, de maturidade. Eu sou otimista”, completa Wagner Moura.












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