Thiago Voltolini fala sobre trabalho no filme ’Precisamos Falar’ Divulgação/Caio Brum

Uma escolha que coloca duas famílias diante de um dilema extremo é o ponto de partida de "Precisamos Falar", produção em cartaz nos cinemas. No longa-metragem, Thiago Voltolini interpreta Michel, personagem envolvido em um crime e que, na adaptação, ganhou mais espaço do que na obra literária que deu origem à história. O ator conta que precisou abandonar uma visão simplificada do jovem cuja trajetória é atravessada pelo ambiente em que cresceu.
O artista passou por um processo de seleção com cinco etapas, entre testes presenciais, online e leituras. "O curioso é que, depois que enviei meu primeiro teste, tive certeza de que não ia passar. Comecei a me sabotar, achando meu teste fraco e que tinha interpretado o texto pelo caminho errado. Depois descobri que era justamente esse o caminho que a direção estava procurando. Quando recebi o roteiro, foi um choque. Ali percebi o tamanho da responsabilidade e fiquei mais empolgado ainda com o projeto", diz. 
A primeira impressão era de que o personagem fosse um psicopata. Com isso, Voltolini chegou a estudar o tema e leu "Mentes Perigosas", escrito pela Dra. Ana Beatriz. "Quanto mais eu mergulhava na história, mais percebia que esse seria o caminho mais fácil. Para mim, o Michel é fruto do ambiente em que cresceu, da criação e das relações que teve. Isso torna tudo muito mais humano e também mais assustador, porque faz a gente perceber que essa realidade pode estar mais perto do que imagina".
O desafio era provocar essa reação no público sem transformar o personagem em uma caricatura. "A diretora Rebeca Diniz me disse que, na primeira cena, o Michel precisava ser odiado. Era justamente o meu desafio: sem negar o que ele faz, não transformá-lo em um vilão caricato, e sim em um menino real. Procurei a humanidade. Mesmo sendo frio, ele também poderia ser doce. Não existe só uma camada. Acho que é isso que torna a história tão incômoda e verdadeira", explica. 
"Precisamos Falar" coloca em xeque os princípios de duas famílias quando seus filhos adolescentes assassinam uma mulher que dormia em um caixa eletrônico. O crime ganha repercussão depois que uma câmera de segurança registra a agressão, mas não revela a identidade dos responsáveis.
"O que mais me impacta é que essa decisão vai muito além de moral e ética. É impressionante como nossos valores podem mudar quando a situação tem a cara de um filho. A pergunta do filme é 'o que você faria se fosse seu filho?', mas eu gosto de ir um pouco além: 'será que você realmente conhece seu filho?' Porque essa história parece distante, mas pode estar muito mais perto da nossa realidade do que imaginamos". 
No longa-metragem, Michel é filho de Sandra e Alexandre, vividos por Marjorie Estiano e Alexandre Nero. O ator destaca a oportunidade de contracenar com os artistas em seu primeiro filme. "Eu me senti um espião durante todo o processo. Ficava de canto de olho vendo os roteiros deles, como estudavam, como construíam os personagens, o que anotavam e como chegavam em uma cena. Eu queria absorver o máximo que eu pudesse daquela experiência", relata. 
Thiago Voltolini revela que uma das cenas mais difíceis de gravar foi o momento em que o personagem conta aos pais o que aconteceu. O desafio era interpretar alguém que não se arrepende do ato cometido, mas de ter sido exposto. 
"Queria trazer o sentimento real dele sobre o acontecido, ao mesmo tempo trazer a versão que ele queria contar para os pais. Gosto muito da dubiedade. Levar isso para a cena, deixando o público desconfortável sem saber o que de fato aconteceu e o que era inventado, foi a parte mais delicada da construção. Era trabalhar nessas duas camadas e fazer isso chegar ao público", afirma. 
O artista também menciona situações descontraídas nos intervalos das gravações. "Tivemos momentos muito leves nos bastidores. Lembro de uma noturna, por volta das quatro da manhã, em que estava fazendo mágica para o Nero e o restante do elenco para descontrair, totalmente diferente da tensão do filme. Tive momentos muito especiais tocando piano com a Marjorie. São memórias que vou levar comigo".

Espetáculo

Além de mergulhar no universo de "Precisamos Falar", Thiago Voltolini integra o elenco de "Em Meu Filho é Um Musical", peça na qual interpreta Fábio Porchat. A montagem conta a história de Paulo Gustavo, humorista que morreu em 2021 vítima da Covid-19. 
"Foi assistindo 'A Família Addams', no Teatro Renault, em 2022, que eu me apaixonei pelos musicais. Lembro de uma vez que me perguntaram que tipo de artista eu queria ser e respondi que queria ser 'tipo um Porchat'. Não pela comédia, mas por admirar alguém que atua, faz cinema, teatro, apresenta, produz e cria os próprios projetos. O mais curioso é que eu nunca fui de imitá-lo. Fui construindo a minha própria versão do personagem", conta. 
A peça estabelece, ainda, uma conexão afetiva com a história de Paulo Gustavo. O ator cresceu vendo os trabalhos do humorista e guarda lembranças ligadas à mãe. "Ela que me acompanhou e me assistiu nas peças de teatro desde os meus seis aninhos. Ainda mais agora contando a história do Paulo, um artista que a gente assistiu tantas vezes juntos, isso torna tudo ainda mais especial. Eu faço essa peça para ela. Mesmo ela estando em outro lugar, assim como o Paulo, sinto comigo todos os dias". 
Voltolini comenta a importância de exaltar a trajetória de Paulo Gustavo. "Ele revolucionou a comédia, o cinema e a forma como enxergamos o alcance de uma produção brasileira. Um filme de um homem vestido de mulher, contando a história da própria mãe e ser a maior bilheteria da história do Brasil é algo muito simbólico", ressalta.