Novo álbum de Marina Iris é uma homenagem para Marina IrisDivulgação/Pedro Curi
A homenagem também passa pela memória de um encontro no Bip Bip, em Copacabana, onde a cantora conheceu o compositor e dividiu uma roda com ele. "Eu pude conhecê-lo. Isso mexeu muito comigo, porque a energia dele era uma coisa de aconchego mesmo, de aproximação. Parecia aquela pessoa que você já conhecia, sabe? O Wilson Moreira me parecia uma daquelas pessoas que você conhece e sente que já são da sua família", recorda.
Na seleção das músicas, Marina considerou diferentes caminhos: reunir sucessos, equilibrar obras conhecidas com outras menos executadas ou seguir suas próprias afinidades. Escolheu a última possibilidade, com atenção à variedade de temas e ritmos. O resultado passa por jongo, partido-alto e samba de roda, além de uma gravação com Juliana Linhares que, segundo ela, se aproxima do maxixe e ganha elementos de maracatu.
Além de manter o repertório em circulação, as rodas também aproximaram Marina das histórias que os convidados levariam para o disco. Uma delas envolve Teresa Cristina e "Alegria Perdida", parceria de Wilson Moreira com Candeia. O convite remete a uma roda do Terreiro de Crioulo, quando Luciano Bom Cabelo cantou a composição e ela percebeu a amiga com os olhos marejados.
Durante as conversas sobre o repertório, a cantora se lembrou da cena e decidiu que a gravaria com Teresa. "Ela gravou comigo, se emocionou muito depois que terminou e chorou bastante. Então eu disse: 'Tem um espaço aí no final da música para você falar o que quiser’' Geralmente as pessoas dizem algo como: 'Fulana, obrigada pelo convite'. Só que a gente já tem essa relação muito próxima e ela já tinha falado alguma coisa no início. Aí ela perguntou: 'Posso dedicar para o meu pai?'. E ela dedica o final da música para o pai dela".
Esses encontros fizeram com que a homenagem também passasse a carregar as histórias dos artistas com Wilson. "Quando você traz participações, as histórias delas vão entrando também no trabalho e viram um pouco o disco delas também. O Zeca contou muitas histórias do Wilson. É óbvio que ele reviveu gravando ali... o Aragão e a Teresa reviveram histórias com o compositor quando se encontraram para gravar e homenagear o Wilson Moreira".
Outro momento marcante aconteceu quando Jorge Aragão pediu para ouvir a composição inédita de Marina com Manu da Cuíca, que abre o álbum. "O Zeca botou a mão por trás do Aragão e segurou a minha mão. Eu levantei a mão pra segurar a mão dele e aí ele falou: 'O Wilson teria muito orgulho, estaria com muito orgulho de você. Gostei muito da música'", relembra.
A reação veio depois de semanas de trabalho intenso, com jornadas de gravação conciliadas com viagens e outros compromissos. "É sempre um desafio, é muito dinheiro investido, carreira de artista independente é uma carreira que convive com muitas alegrias, mas com muita incerteza. Acho que passa um filme na cabeça, você está com seus grandes mestres ali, mostrando uma música sua em homenagem a uma grande figura do samba, com a responsabilidade grande de reapresentar esse repertório nas rodas", afirma.
A responsabilidade de homenagear o compositor ainda dividiu espaço com momentos de descontração. Para a cantora, o encontro traduz a relação do trabalho com o Rio, onde o disco foi gravado, com exceção da voz de Chico César, registrada em Brasília. "Quando eu cheguei, o Momô já estava lá e quem chamou não fui eu, foi o Zeca. E eu fiquei feliz da vida de ver o Momô lá e o Zeca já estava ligando, ligou para o Pretinho da Serrinha, ligou para um, ligou para outro e virou um evento".
A decisão de gravar um álbum com 14 faixas permite explorar mais aspectos da obra do compositor, mas também exige esforço para manter as músicas em circulação após o lançamento. "Eu aprendi com a maturidade um pouco de lidar com essa inquietação de modo a não ficar refém da novidade. O que é uma novidade? O que é o novo? Isso é muito relativo. E parece que a novidade é você ficar negando as coisas que estão aí, ou as coisas que passaram. Na verdade, essa relação com o futuro pode vir de várias formas. A forma que eu escolhi agora de me relacionar com o futuro é olhando para a minha origem. Foi olhando para o que me formou como sambista", reflete.
Essa experiência de construção conjunta também orienta seu entendimento sobre o samba. Ao falar da importância do gênero, Marina destaca os vínculos entre quem canta, toca e frequenta as rodas. "O samba é uma vida em comunidade. Ele tem seus códigos: códigos de conduta, códigos de relacionamento. A hierarquia da roda, de respeito a quem veio antes, é cultuada e cultivada dentro do samba. Eu ouço muitas músicas, muitos gêneros musicais, mas só pertenço a uma comunidade. Então sei como ela funciona", destaca.
A cantora ressalta que essa comunidade também reproduz problemas estruturais da sociedade, como o machismo, ao mesmo tempo que desenvolve formas de apoio. Ela questiona a ideia de que a capacidade de fazer samba com poucos recursos dispense investimentos. "O samba é feito para dar certo com muito pouco. Ao mesmo tempo que isso é um mérito, isso é usado contra o próprio samba. Então pro samba qualquer coisa serve, como se o samba não pudesse, não precisasse, não merecesse estar em grandes palcos, com grandes estruturas”, critica.
Ao analisar o momento político do Brasil, Marina destaca o papel do samba na defesa da democracia e sua ligação histórica com as lutas populares. "Ele nasce como resistência e segue como resistência. Então, nesse momento político, mais do que nunca, estamos discutindo democracia. Não estamos discutindo só algumas ideias divergentes de projeto econômico. Estamos discutindo uma coisa que é básica da relação humana, do convívio social, da construção social, que é a democracia. O samba é fundamental porque sempre teve no seu discurso, no posicionamento de muitos sambistas históricos, a resistência às opressões. Ele sempre teve a luta na sua essência", afirma.




