Valentina Daniel faz primeira aparição nos cinemas em ’Se Eu Fosse Você 3’Divulgação/Maria Magalhães

Valentina Daniel, de 23 anos, começou a filmar profissionalmente em 2024 e, desde então, participou de sete longas. Só agora, com a estreia de "Se Eu Fosse Você 3", que chegou aos cinemas em 8 de outubro, ela começa a acompanhar esses trabalhos como espectadora. No filme, a atriz interpreta Maria Clara e passa a integrar uma franquia que assistia desde a infância, cujos dois primeiros títulos foram dirigidos por seu avô, Daniel Filho.
"Foi uma virada de chave: 'Então tá bem, eu sou atriz'. É isso que eu faço, é isso que eu estudo para ser. Porque a gente às vezes precisa de uma validação externa, como seres humanos. 'Tá bom, então se vocês me veem assim, então eu sou assim'. Eu fiz muita coisa que ninguém viu. E acho que, pela primeira vez, as pessoas vão começar a me assistir", conta. 
Em "Se Eu Fosse Você 3", esse reconhecimento aconteceu primeiro na pré-estreia, acompanhada por familiares tanto por parte do pai quanto de mãe. "Foi muito bonito assistir com eles. Foi o encerramento de um ciclo ou a abertura de um ciclo. Foi passar por um portal, eu sinto. De estar numa telona e de poder prestigiar e honrar minha família, deixar eles orgulhosos". 
Embora esteja começando a acompanhar a reação aos filmes, a atriz diz que sua parte favorita da profissão acontece antes de o trabalho chegar ao público, destacando o valor que enxerga no processo de criação. "Eu gosto muito de fazer, de trabalhar. O assistir é consequência e, às vezes, uma consequência que eu tento fugir um pouco", explica. Já a presença da família e dos amigos nas sessões tem outro peso. "O que me move mais, claro, é orgulhar a minha família e meus amigos. Isso para mim é um sentimento de 'ufa, consegui'". 
Ao olhar para a tela, a artista também encontrou uma versão de si da qual já se sente distante. "É isso que o cinema é, de certa forma, é um retrato daquela pessoa naquele momento da vida dela. Foi muito engraçado entrar em contato com essa menina que não existe mais. A Valentina do meio de 2025 é outra, já não participa mais da minha vida, mas ela está ali", reflete. 
Maria Clara, personagem do terceiro filme da franquia "Se Eu Fosse Você" trouxe características que Valentina encontrou com mais facilidade em si. Além da conexão com Cleo Pires, que ajudou a desenvolver o vínculo entre mãe e filha na ficção. "Já se estabeleceu uma relação de mamãe e filhinha. Então estava mais próximo a mim. Existe talvez um lado meu menina, moleca, que eu puxo com mais facilidade. Mas também houve esse trabalhinho de relação. A Cleo eu chamo de mamãe até hoje: "Mamãe... Mami'", entrega.
A comédia foi gravada depois de "Cinco Júlias", longa de Matheus Souza com lançamento previsto para 24 de dezembro. Foi nesse primeiro set que colocou em perspectiva as dificuldades do ofício tanto abordadas pelos avós de Valentina. "Eu vi a força do cinema independente. Era um pessoal jovem fazendo desde a produtora, assistente de direção, até o diretor. Todo mundo descobrindo ali como é que a gente vai fazer acontecer esse filme na marra."
Rodado em São Paulo, a produção acompanha a história de cinco meninas chamadas "Júlia" após um vazamento que expõe mensagens, fotos e outras informações privadas. "Acompanhar essa jornada dessa menina vai da sensação de 'não quero mais existir' até 'essa sou eu, eu sou uma pessoa importante e tá tudo bem eu ter esse corpo, essa voz, essa orientação sexual'. Foi muito bonito, realmente me moveu muito", destaca.
Já a preparação passou pelo corpo, figurino e por aulas de voz. "Foi muito no físico. Acho que, a partir do momento que eu consegui jogar a voz para o peito, me abriu para as outras possibilidades que aquela pessoa que fala aqui agiria ou sentiria". 
O processo se estendeu por quase cinco meses, incluindo uma pausa nas gravações. Para a atriz, o filme também se aproxima de dúvidas que ainda fazem parte de sua vida aos 23 anos, relacionadas ao crescimento, à identidade e à maneira como os outros a enxergam.
Antes de se dedicar à atuação, Valentina considerou arquitetura e Letras. Chegou a cursar cinema, interessada no trabalho atrás das câmeras, mas deixou a graduação e passou a concentrar os estudos na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), onde pretende se formar neste ano com um trabalho de Nelson Rodrigues.
"Eu me lembro muito bem de entrar na faculdade de cinema nesse lugar de ficar atrás das câmeras, focada na escrita, que é algo que eu amo e ainda quero focar muito. Dirigir meus próprios projetos autorais também é um desejo muito grande meu. Mas, por fazer teatro desde a adolescência, também fui sendo puxada pra esse lugar da atriz, para trabalhar mais a minha interpretação."
Para Valentina, a aproximação gradual com a profissão precisa estar acompanhada de preparação. "Deixar a vida me levar para o lugar que ela quer me levar, mas ao mesmo tempo com consciência e entendendo que, até com esse fluxo, a gente precisa estudar para caramba, porque é uma profissão muito difícil. Pelo menos para mim, faria mal para minha autoestima até não me ver nesse lugar de dedicação", afirma. 
Junto com o gosto por interpretação, o interesse por escrever continua presente. Nos textos e cenas que desenvolve para teatro e cinema, Valentina identifica temas recorrentes ligados à experiência feminina, ao corpo e à maternidade. "O ser mulher para mim é muito curioso. Então eu reparo que os meus textos ou cenas curtas que eu escrevo, de longas ou de teatro, sempre batem nessa tecla do ser mulher. O que é ser mulher? Como se posicionar como mulher? O que o nosso corpo, nosso gênero, causa no outro", comenta.
Como espectadora, procura circular entre gêneros diferentes, um hábito que diz ter aprendido com o avô. "Eu assisto de tudo. Desde o filme ucraniano underground (pouco conhecido) até o reality show. É importante não ter preconceito com os gêneros, estar sempre aberto, porque todo gênero ensina alguma coisa pra gente como artista."
Na televisão, são as vilãs que mais despertam sua vontade de interpretar. Tereza Cristina, Carminha e Nazaré estão entre as referências. "A vilania caricata brasileira é sempre o que mais me move assistindo alguma obra. São personagens que me chamam mais a atenção e despertam esse desejo: 'Nossa, eu ia amar fazer essa cena'", diz. 

Reação da família e privilégios artísticos

A primeira conversa com Daniel Filho sobre trabalhar com cinema aconteceu quando Valentina tinha cerca de 11 ou 12 anos. Ao ouvir o desejo da neta, o diretor respondeu: "'Que merd*.' De todos, é o que mais tem consciência de como é ingrata essa profissão. Então ele: ‘Cara, pensa bem aí, vamos ver se é mesmo isso aí, porque a gente sabe que não é fácil'", relembra. 
Com Betty Faria, a escolha foi sendo apresentada por meio dos próprios trabalhos. "Nunca cheguei a verbalizar: 'Vó, quero ser isso'. Acho que, com a minha avó, fui me provando ser isso. Os dois sempre me jogaram muito a real e me testaram muito para entender se era realmente isso que eu queria. Era um teste constante, era uma pergunta constante."
A atriz entende que os questionamentos vinham de uma preocupação com seu futuro. "Existia um pouco desse desestímulo de uma forma muito afetuosa e responsável, de 'calma, vamos ver'", recorda. Hoje, os avós acompanham o início da carreira e reforçam a importância do estudo. "Com certeza são as pessoas que têm mais senso crítico sobre o que eu faço ou deixo de fazer", reforça. 
Valentina reconhece que o parentesco desperta interesse e facilita aproximações no meio artístico. "Quando as pessoas descobrem de quem eu sou neta, sempre abre para o diálogo. Sempre tem alguém que quer falar alguma coisa: 'Trabalhei com a sua avó em tal coisa', 'Conheci a sua avó de tal lugar'. Então causa um maior interesse das pessoas em mim, consequentemente. Isso é realmente uma abertura de portas."
Por outro lado, ela revela que recebe mensagens que atribuem suas oportunidades ao sobrenome e questionam seu mérito. "Acho que um desafio é entender quando é por minha conta ou por conta de um nome, ou talvez seja pelos dois, talvez nunca se saiba. Acho que nada é muito preto no branco. Acho que o maior privilégio é o privilégio cultural, sempre, 100%. Esse é o maior de todos. Agora de resto, eu não sei assim... os meus avós nunca me deram a mão, falaram: 'você vai fazer isso, tá? Botem ela em tal lugar’. Não. Mas com certeza existem privilégios". 
A comparação com as trajetórias dos avós, porém, não aparece como uma meta pessoal. “Eles chegaram num lugar que, para mim, é incrível, e não me cobro em momento algum de chegar nesse lugar. Seria uma maldade comigo mesma. A única coisa que eu quero e sempre bato nessa tecla com eles é: ‘Gente, eu só quero trabalhar", declara. 
Reportagem da estagiária Carolina Irigoyen, sob supervisão de Leticia Pessôa