Pri Helena comenta trajetória de personagem no folhetim Divulgação/Marcella Calixto

Depois de integrar o elenco de "Volta por Cima" (2024), Pri Helena retorna à televisão em "Quem Ama Cuida", novela das 21h da TV Globo. A atriz interpreta Lyris, uma ex-detenta que tenta reconstruir a vida após deixar a prisão e acaba envolvida nos planos de vingança de Adriana (Letícia Colin). As duas se conheceram na cadeia, onde também surgiu a amizade com Nancy (Jeniffer Nascimento).
"Inicialmente o que une essas três mulheres é a dor e também um instinto de sobrevivência. Elas se encontram num momento de muita solidão, num ambiente muito hostil física e psicologicamente, e ali acabam formando uma espécie de tribo, de fortaleza umas pras outras. O que elas viveram ali dentro, só elas sabem. E esse tempo na prisão cria uma cumplicidade muito profunda entre as três", afirma. 
A atriz ressalta que a amizade não se mantém apenas pelo passado doloroso. "Não é só essa experiência que une elas. Existe empatia, lealdade, senso de justiça. A dor pode ter sido o lugar onde elas se encontraram, mas não é o que sustenta essa relação. O que sustenta é o amor. Pra mim, essa amizade fala muito sobre o poder que existe na união entre mulheres, sobre como a gente se fortalece quando tem alguém do nosso lado nos momentos mais difíceis". 
Embora compartilhem uma história em comum, a personagem estabelece relações distintas com as amigas. A dinâmica com Nancy passa pelo equilíbrio entre os temperamentos. "Eu penso que todas as relações são diferentes. A Nancy sempre teve um lugar meio de mãezona. Das três é quem tem um pouco mais de juízo, pensa mais nas consequências e acaba ocupando esse lugar protetor e responsável. A Lyris já é mais impulsiva, mede menos as consequências, é muito parceira, mas também é um pouco atrapalhada", diz.
Enquanto isso, a relação com Adriana é marcada pela admiração e confiança. "Lyris acha a 'princesa' uma pessoa linda, e não estou falando de beleza física. Ela sabe o quanto a Adriana foi injustiçada e tem uma empatia muito grande pela história dela. Quando compra o barato da Adriana, vem muito desse lugar: ela acredita naquela mulher. São relações diferentes, mas eu não acho que exista mais amor em uma do que na outra. Cada uma traz uma coisa e, juntas, elas se completam", destaca. 
Depois de passar anos privada da liberdade, Lyris encara a vida fora da prisão com cautela e cada escolha tem um peso diferente. "Você caminha sobre uma linha tênue entre a liberdade e a possibilidade de voltar pra prisão. Isso dá medo e uma sensação de ser monitorada o tempo inteiro. A gente vê isso, por exemplo, quando a polícia bate no cassino onde ela trabalhava. Pra qualquer pessoa aquilo já seria um problema, mas pra ela ganha uma dimensão maior. Não pode vacilar, porque tem muita coisa em jogo". 
Ao mesmo tempo, a personagem experimenta a felicidade de reviver momentos simples. "Existe uma felicidade enorme de estar do lado de fora. Trabalhar, reencontrar as pessoas, amar, fazer planos e tentar reconstruir a própria história. É uma liberdade que ela esperou muito pra ter. Quer aproveitar essa segunda chance e fazer as coisas da maneira mais certa possível, apesar de alguns desvios pelo caminho". 
Fora da prisão, Lyris também reencontra o irmão, Nicolau (Rodrigo Fagundes). Para Pri Helena, no entanto, o termo "reconstruir" não define essa relação, já que o vínculo entre os dois nunca foi interrompido. "Ele continuou presente na vida dela, ia visitá-la, movimentou céus e terras pra tentar tirá-la de lá e trabalhou muito pra pagar um bom advogado. Esse período, apesar de toda dificuldade, acabou fortalecendo o vínculo dos dois. Ao mesmo tempo que existe uma gratidão absoluta, existe também uma certa culpa dentro da Lyris por tudo que ele precisou fazer e viver por causa das escolhas dela", avalia. 
A relação com Nicolau é atravessada pelos segredos que Lyris precisa guardar para proteger Adriana e o plano de vingança contra a família Brandão. "Ela também tenta proteger o Nicolau. Quando esconde algumas coisas dele, tem uma tentativa de não expor o irmão ao perigo. Isso incomoda, gera culpa, porque existe uma relação de confiança entre os dois. Só que tem uma coisa forte com a palavra dela. Se apalavrou uma coisa, se prometeu pra Adriana que não vai trair a confiança dela, vai cumprir até o fim, mesmo sabendo que depois pode ter que responder pelas consequências". 
A paixão por Ulisses (Alexandre Borges) é um dos pontos de tensão na trajetória de Lyris. O que começou ligado à estratégia de Adriana colocou a personagem diante de um conflito entre o plano de vingança e os sentimentos que desenvolveu pelo empresário. Pri comenta que a questão não pode ser reduzida a uma escolha entre os dois lados.
"Olha, se fosse uma amiga minha, eu ia querer que ela escolhesse. [...] A própria Adriana, apesar de uma reprovação inicial, não rompeu com ela por causa disso. Ela acolheu a amiga. E eu tento entender muito ela. A gente está falando de uma mulher que passou muito tempo presa, com uma ausência enorme de afeto, carinho e troca. Ela encontra no Ulisses não só um interesse amoroso, mas um amigo, um cara que é legal com ela, que dá carinho, atenção e companhia". 
A artista acredita em uma possível transformação de Ulisses ao longo da trama. "Ele foi muito manipulado pela Pilar, inclusive por conta do vício em jogo. Parece começar a perceber quem é a irmã e que talvez a vida seja muito mais do que dinheiro, poder, status e aparência. Então será que a Lyris necessariamente vai precisar escolher? Talvez exista uma terceira possibilidade. Quem sabe o Ulisses não muda de posição, passa pro lado de cá e começa até a ajudar a gente nesse plano de vingança?", cogita.
Apesar das turbulências, a irmã de Nicolau tenta construir uma vida própria depois da prisão. "Não vejo ela deslumbrada e querendo pular etapas. Quer voltar a ter uma vida comum. Trabalhar, conquistar a independência financeira, restabelecer vínculos e fazer planos. Coisas que parecem simples, mas que pra quem perdeu a liberdade ganham um outro tamanho. E o Ulisses também entra nesse lugar, como uma possibilidade de recomeço no amor".  
Em "Quem Ama Cuida", Pri Helena reencontrou Claudia Souto, que escreve a trama ao lado de Walcyr Carrasco. A autora foi responsável pela novela "Volta Por Cima", na qual a artista interpretou Carla, rival da protagonista vivida por Jéssica Ellen. 
"A Cacá começou como uma personagem mais coadjuvante e foi ganhando espaço até se tornar uma peça importante. Sou muito grata à Claudia porque ela teve um olhar generoso e atento pro meu trabalho e foi dando cada vez mais possibilidades pra personagem. Então chegar agora numa segunda novela juntas é muito especial, porque já existe uma confiança e uma afinidade artística sendo construídas". 

Premiação 

Antes de ganhar destaque na televisão, Pri Helena construiu uma trajetória ligada ao teatro. Mas a participação em "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, representou um momento importante nessa transição para o audiovisual.
"Foi o trabalho que me deu visibilidade dentro do mercado profissional que eu ainda não tinha. Venho de uma trajetória muito construída no teatro, então o audiovisual ainda era um espaço que eu estava começando a ocupar. E, a partir desse filme, muitas portas começaram a se abrir. Vieram outros trabalhos, séries, depois 'Volta por Cima'... Foi essencial pra que mais pessoas conhecessem o meu trabalho". 
A participação no longa-metragem ganhou um significado especial pelo reconhecimento que a produção alcançou internacionalmente. "É muito especial que isso tenha acontecido justamente com 'Ainda Estou Aqui'. Acompanhar o filme ganhar o mundo e chegar até o Oscar foi emocionante. É um marco pro cinema brasileiro e eu tenho um orgulho enorme de ter feito parte dessa história. Acho que vou olhar pra isso daqui a muitos anos e continuar pensando: 'Caramba, eu estava ali'", celebra.