Deia Cassali - Thais Monteiro
Deia CassaliThais Monteiro
Por Juliana Pimenta
Rio - Não, nós não erramos no crédito da entrevista. A modelo das fotos é mesmo a roqueira Deia Cassali, que se apresenta na próxima sexta no palco do Rock District, do Rock in Rio. Acostumada com looks sóbrios ou com um armário de ‘50 tons de cinza’, como ela mesma classifica, a cantora aceitou o convite do DIA para fazer um ensaio com looks inspirados nas roupas que as celebridades vestem nos festivais de música mais badalados do mundo.

“Eu nunca imaginei vestir roupas assim, mas até que eu gostei. Vou tentar usar algo assim, mais colorido no dia a dia. Descobri que eu posso usar outros estilos e não só camisa preta. Quem vai ficar feliz com isso é a minha mãe, que sempre quis me ver com roupas de ‘menininha’”, brinca a cantora, de 31 anos, que mudou todos os seus planos após ser convidada para se apresentar no festival.

Reviravolta

No dia 14 de agosto do ano passado, Deia comemorava seu 30º aniversário com alguns amigos próximos. “A gente tava tomando uma cervejinha barata e comendo cachorro quente”, conta. Na ocasião, ela se preparava para contar que abandonaria a carreira de cantora por conta da dificuldade de viver de música no país.

Enquanto tomava coragem para tocar no assunto, Deia foi surpreendida por uma ligação de sua produtora. “Ela disse que tinha uma coisa muito importante para me falar. Eu achei que ela ia contar que estava grávida, sei lá, mas ela falou que eu tinha sido convidada para cantar no Rock in Rio”, lembra, emocionada, ao falar do momento em que resolveu dar mais uma chance para a carreira de roqueira.

“A partir daí, eu tive que reorganizar meus pensamentos e definir meu foco. Eu sou formada em Letras, dou aulas de inglês e, todo o dinheiro que eu ganho, eu invisto em música. E aí, depois de 12 anos de carreira, a coisa que eu sempre pedi, quis e sonhei aconteceu aconteceu: vou tocar no Rock in Rio”, comemora a cantora, que não dorme e nem come direito há mais de um mês na expectativa pelo seu show. “Como artista, eu não queria demonstrar toda a minha ansiedade. Mas eu estou muito nervosa pela oportunidade única de mostrar quem eu sou de verdade, minha música, meu talento e o que eu quero passar para as pessoas”, destaca.

Caldeirão do Huck e Malhação

Antes de ser convidada para se apresentar no Rock in Rio, Deia já tinha chegado perto do sonho de tocar no festival quando ainda fazia parte da banda ‘Agnela’. O grupo de rock, formado apenas por meninas do subúrbio do Rio, ganhou reconhecimento nacional em 2008 após participar do quadro ‘Olha A Minha Banda’, no ‘Caldeirão do Huck’.

“Agora imagina uma menina criada em Vila Valqueire, que pegava ônibus para ir trabalhar e que, no outro dia, tinha tudo de graça: restaurante, dentista, roupa. A gente estourou no Brasil inteiro. Nós fomos, por dois anos consecutivos, trilha sonora da ‘Malhação’ e estávamos indo muito bem”, conta.

A etapa final da competição, no entanto, reuniu as meninas da ‘Agnela’ e outros três grupos. O prêmio do vencedor? Um contrato com gravadora, R$ 30 mil, quatro carros zero quilômetro e a oportunidade de tocar no Palco Mundo do Rock in Rio. “A Agnela não ganhou, as meninas ficaram tristes e decidiram acabar com a banda. E foi aí que eu segui minha carreira solo e as coisas começaram a acontecer de uma forma diferente”, revela Deia, que faz questão de dizer que ela e as outras meninas não ficaram brigadas e que a ajuda de Luciano Huck foi muito importante para sua formação como artista.

“Eu tinha 19 anos e não sabia nada sobre a vida. O Luciano Huck conheceu a gente muito nova e a primeira coisa que ele disse é que nós precisávamos dar um tapa no visual. Ele deu uma repaginada no nosso estilo e disse que queria que eu ficasse loira. Toda essa mudança foi muito boa para nós quatro, porque a gente teve uma outra perspectiva de como as coisas funcionam em um programa de televisão”, admite a cantora.

Desafios

Depois de tanto tempo de aprendizado, Deia consegue fazer uma análise dos desafios da profissão e destaca que, em uma sociedade machista, o ambiente é menos favorável para as mulheres. “O cenário do rock nacional está muito difícil. E é claro que piora quando se é mulher.O principal exemplo disso é que a única representante que nós temos é a Pitty. Óbvio que a Rita Lee é uma referência incrível, mas nós só temos a Pitty como atuante no cenário musical do rock. Ela é muito importante para mim. Ela mantém o equilíbrio vivo, se é que podemos falar que existe equilíbrio”, diz a roqueira que também lembra de colegas que a apoiaram em momentos difíceis.

“A gente sofre muito com o machismo indiretamente. Mas, diretamente, eu já recebi convites bem indiscretos. Como mulher, acaba sendo o que toda mulher sofre: que é uma virada de olho ou uma atenção que não querem te dar. Só teve uma pessoa que acreditou em quem eu era, que foi o Chorão. Ele me inspirou muito e me inspira até hoje”, revela Deia, emocionada, ao falar do amigo, ex-vocalista da banda Charlie Brown Jr., morto em 2013.

Apesar dos momentos difíceis, Deia quer aproveitar intensamente a nova fase. A roqueira acaba de lançar seu clipe ‘Sete Vezes’, no Youtube, e espera que o trabalho seja o maior sucesso. Afinal, foi a plataforma de vídeos que a ajudou a chegar ao Rock in Rio. “Na primeira reunião que nós tivemos com os organizadores do festival, eles disseram que o Roberto Medina [idealizador do Rock in Rio] viu um vídeo meu cantando um cover no YouTube, achou super legal e pediu para a produção entrar em contato comigo. Eu fiquei muito feliz”, conta a cantora que aproveita para deixar um recado a quem ainda não se acostumou a ver mulheres no universo do rock: “O rock não tem gênero: é atitude e representatividade. E nós, mulheres, temos voz”.