'Tenho mais dignidade que muita mulher de saia até o pé', diz Geisy Arruda

Modelo fala dos 10 anos do assédio coletivo que sofreu em universidade, prepara e-book de contos eróticos e lamenta que ainda hoje mulheres sejam julgadas pela roupa que usam

Por Gabriel Sobreira

Geisy Arruda e Marcelo de Carvalho
Geisy Arruda e Marcelo de Carvalho -

Rio - Até 2009, ela era uma estudante de turismo, que trabalhava em um mercadinho cortando frios, frangos, e que ganhava R$ 500 por mês. Dez anos e diversas intervenções cirúrgicas depois, ela ainda é presença constante em muitos programas de TV e sabe se manter em pauta na mídia. O que separa as duas frações de tempo é um episódio de assédio coletivo.

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Geisy Arruda no 'TV Fama' Reprodução
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia / Divulgação
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia/Divulgação
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia/Divulgação
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia/Divulgação
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia/Divulgação
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia/Divulgação
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia/Divulgação
Geisy Arruda em 2019 Cauê Garcia/Divulgação
Geisy Arruda no 'TV Fama' Reprodução
Geisy Arruda com Fábio Porchat Reprodução
Geisy Arruda no 'Bastidores do Carnaval' Reprodução
Geisy Arruda em 'A Fazenda' Reprodução
Geisy Arruda no 'TV Fama' Reprodução
Geisy Arruda com Danilo Gentili Reprodução
Geisy Arruda com Rodrigo Faro Reprodução
Geisy Arruda com Rodrigo Faro Reprodução
Geisy Arruda Reprodução
Geisy Arruda Reprodução
Geisy Arruda Reprodução
Geisy Arruda Reprodução
Geisy Arruda Reprodução
Geisy Arruda Reprodução
À esq., Geisy com Marcelo de Carvalho na RedeTV!; acima, no programa de Rodrigo Faro na Record; à dir., em poses sensuais Reprodução
Geisy Arruda em 2009 Reprodução
Geisy Arruda em 2009 Reprodução

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"Essas feridas nunca vão cicatrizar. Evito ver as imagens. Nunca uso o vestido (rosa). Usei agora para fotografar, pelos 10 anos, mas geralmente eu coloco ele no guarda-roupa e esqueço que ele existe. É uma roupa que, particularmente, eu não gosto de vestir, ela me remete a muitas lembranças horríveis", revela Geisy Arruda, que prepara uma coletânea de e-books de contos eróticos e tem um canal no YouTube.

PASSADO

Na noite de 22 de outubro de 2009, a loura foi hostilizada por homens e mulheres na faculdade só porque usava um vestido curto. Os planos de ir para uma balada foram interrompidos abruptamente. "Eram mais de três mil pessoas no campus", lembra ela, que precisou sair escoltada por cinco policiais e duas viaturas. "Me chamavam de puta, vadia", recorda-se a modelo, hoje com 30 anos.

Do episódio polêmico, Geisy tem ainda vivo na memória o misto de sensações. "Senti medo, desespero, inferioridade, culpa, vergonha. Eu pensava: 'Se eu tivesse ido de calça jeans, será que isso teria acontecido?'. Fui a primeira pessoa a me culpar", conta ela. O fato foi parar na imprensa, e só então a estudante passou a entender que era, na verdade, a vítima.

SEM PERDÃO

Questionada se perdoaria as pessoas que a agrediram moralmente, a youtuber diz que ainda guarda mágoas. "Ninguém me pediu desculpas até hoje. Nem vão pedir. E eu também não vou desculpar, nem perdoar ninguém porque eles foram escrotos comigo. Não tenho por que agora ser a 'boa samaritana' e falar: 'ah, perdoo todo mundo'. Ninguém me pediu perdão, e eu quero que todo mundo se lasque", dispara.

INFLUENCIADORA

Apesar de se passarem dez anos, Geisy não vê muita diferença entre 2009 e os dias atuais. "Infelizmente, ainda hoje, as mulheres são muito julgadas pela roupa. Algumas pessoas pensam: 'se a mulher está com uma roupa mais sexy, ela quer fazer sexo, ela pode ser assediada, pode faltar com respeito'. Que tipo de pensamento é esse?", questiona ela. "Hoje, debate-se muito isso graças a mim. Acredito que minha história influenciou muito", completa. Para a modelo, é ultrapassado quem julga o caráter e a integridade de uma mulher pelo tamanho da saia que veste. "Conheço um monte de mulher da igreja que tem saia até o joelho e não presta, é safada. Tenho mais dignidade que muita mulher de saia até o pé", provoca.

Geisy Arruda em 2019 - Cauê Garcia/Divulgação

LONGE DE PADRÕES

A modelo defende que a mulher é totalmente livre para fazer o que bem entende. "Costumo dizer que ser mulher no Brasil é uma chatice. É muito difícil. Tem que entrar nos 'padrões'. E se você sai dos 'padrões', é julgada'", avalia. No caso de Geisy, estar em um padrão nunca lhe atraiu. Muito pelo contrário. "Se eu quiser sair com um cara e transar no mesmo dia porque estou com vontade, vou fazer. Se eu quiser pagar conta, também pago. Acabei me tornando uma feminista ativa dos nossos direitos".
 
NÃO É OBRIGADA
 
Geisy se identifica com o termo "mulher à frente do seu tempo" e diz que nasceu na época errada. "Talvez daqui a 200 anos eu volte e as coisas estejam melhores", brinca ela, que diz ter a alma "muito livre". "Não acredito que a mulher tem que seguir um padrão de vida, ou de comportamento, ou de roupa. Não sou obrigada a casar, não sou obrigada a ter filho se eu não quiser. E não preciso ser o que as pessoas esperam", destaca a moça, que vai além. "Talvez esse meu excesso de liberdade seja confundido com libertinagem. E as pessoas me julgam, mas é porque eu afronto mesmo. Sou muito assim. Eu respiro e transpiro liberdade".
 
FAMA PROLONGADA
 
Diferentemente de muitas celebridades que vêm e vão, Geisy conseguiu estender os seus minutos de fama em anos. Ela entrega sua fórmula. "Tem pouquíssimas pessoas que dão a cara a tapa, que falam o que pensam, que expõem suas vidas, fraquezas, medos, que colocam o dedo na ferida. O problema de alguns artistas, alguns ex-BBBs, essa galera que tem a fama e perde, é que eles começam a achar que não precisam do jornalista, que ele (repórter) faz um favor ao ligar. Mas, na verdade, é uma via de mão dupla", frisa. "Eu preciso do jornalista, sim, dou muito valor a ele. Tenho produtores de TV que já passaram em '50 emissoras' e ainda me põem em pauta porque gostam de mim porque eu topo, falo, sou acessível", acrescenta.
 
PERSONALIDADE ASSUSTA
 
Quando o assunto é a vida amorosa, Geisy diz que está solteira há mais de um ano. "É difícil namorar uma mulher como eu por causa da minha personalidade, que é muito forte", justifica, aos risos. "Mas agora estou focada mesmo nos contos eróticos, namorar não, mas se aparecer, estou aí (risos)", diverte-se. A loura, que é bissexual assumida, conta que é muito assediada nas redes sociais. Mas no cara a cara, o clima é bem diferente. "Mulher independente e tão dona de si, assusta um pouco. Mas o assédio é mais pelas redes sociais. Pessoalmente, eu assusto", entrega, às gargalhadas.
 
Geisy Arruda em 2019 - Cauê Garcia/Divulgação
 
NUDES
 
Ela revela que recebe cantadas de homens e mulheres, mas a maioria é do público masculino — que inclusive também manda mais nudes pelo Instagram. "Normalmente, as mulheres me perguntam coisas do tipo: 'como que você conseguiu ser livre desse jeito? Como é casa de swing? Nunca gozei na vida, como é que é? Como faço para meu marido não me trair?'", explica ela, que ainda ouve das fãs coisas do tipo: "Não sou lésbica, mas com você eu ia".
 
E-BOOKS E YOUTUBE
 
No momento, Geisy tem apostado na internet para tirar seu sustento. Um dos projetos é uma coletânea de e-books (livros online), a qual ela se dedica há mais de quatro meses. "Começou como hobby nas horas vagas e depois virou profissão. O título provavelmente vai ser 'O Prazer da Vingança'", adianta a escritora, toda empolgada. "Estou vivendo 24 horas os meus contos eróticos, pesquisando, fazendo laboratório", acrescenta.
 
Outra iniciativa é o canal Ponto G - Geisy Arruda, que "estreou" só há três semanas — foi criado em 2014 — e já acumula mais de 41 mil inscritos e mais de 800 mil visualizações. "Infelizmente no YouTube, a gente sofre uma censura muito grande sobre vídeos com conteúdo sexual. A gente monetiza muito pouco", desabafa ela, que está negociando com marcas para anunciar nos vídeos para tentar aumentar o lucro.
 
Geisy Arruda - Reprodução
 
SEXO
 
Entre os próximos entrevistados da youtuber estão Kid Bengala e um ator pornô anão — na última sexta, Geisy invadiu um estúdio de gravação de filme pornô para realizar a missão e compartilhou nas redes sociais. "Se é para falar sobre o que quero, vou ciente de que posso ser censurada, que o meu vídeo não vai monetizar como se eu tivesse falado sobre uma receita de bolo de limão. É o preço que pago", reclama ela, que enche o cofrinho como digital influencer no Instagram. "Tenho 1,5 milhão de seguidores. Lá, faço ações que rendem bastante, tanto no stories quanto no publipost. Dá pra ganhar uma grana", comemora.
 
Questionada sobre a importância do sexo em sua vida, Geisy não usa meias palavras. "Nos meus relacionamentos é 80% fundamental. Sou muito sexual, muito! Sou do tipo que, se não transar, fica mal-humorada, chata. Eu brigo para transar, arrumo briga para depois fazer as pazes", revela, aos risos.
 
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