Aventuras Maternas: A rotina de uma médica brasileira na Alemanha

Em tempos de coronavírus, a dermatologista Lídia Poppe conta como é seu dia a dia com os filhos, as tarefas domésticas e o atendimento a pacientes em uma clínica em Bad Kissingen

Por O Dia

Dra. Lídia e os filhos
Dra. Lídia e os filhos -
O depoimento da coluna esta semana conta a história de uma mãe brasileira, que está na Alemanha com seus três filhos. O local, no entanto, não faz a menor diferença no momento. A rotina da dermatologista Lídia Poppe inclui cuidados com os pequenos, com a casa, a preocupação com a pandemia, a realidade de uma quarentena obrigatória, e seu trabalho junto a pacientes que lutam contra o câncer de pele. Confiram!
A vida durante a quarentena obrigatória devido à pandemia de Covid-19
Por Dra. Lídia Poppe, médica dermatologista, em Bad Kissingen (Alemanha)
Meia-noite. Levo duas mamadeiras e deixo no quarto do bebê. Vejo os dois filhos mais velhos, de 5 e 8 anos, se estão bem, e apago a luz. De madrugada, umas 3 e meia da manhã, o bebê chora, mas logo se acalma depois de tomar o leitinho preparado. Duas horas depois, ele está acordado, sorrindo. Nove meses de simpatia.
Meu marido assume até as sete horas, para que eu descanse um pouco mais. Às seis horas, os outros dois pedem o café da manhã. A clínica abre às 8 horas, e meu esposo, que também é médico, inicia as cirurgias nesse horário. Eu chego meia hora depois, tempo para receber nossa baby-sitter, que vem para cuidar dos três - uma vez que escolas e creches estão fechadas. Antes de sair, checo o dever de casa já programado para o dia com o mais velho, vejo tarefas de pré-escolar com o filho do meio, e vou para a clínica.
Lá chegando, troco toda a roupa de casa pelo uniforme que é lavado e higienizado na lavanderia própria. Os sapatos também ficam lá. Coloco gorro, jaleco, máscara N99 (PFF3), óculos de proteção, luvas, e vou atender. Entre cada paciente todas as superfícies são higienizadas, as mãos lavadas, luvas, anamnese, exame físico, terapia...
Temos muitos pacientes oncológicos que estão correndo contra o tempo. Portanto, seguimos, de acordo com as regras do governo alemão, fazendo atendimentos de urgência, de pacientes em situação crítica e cirurgias para retirada de câncer de pele. Atualmente, fazemos uma rotação, de forma que eu possa ficar apenas um turno na clínica, e depois assumir as crianças e as tarefas domésticas.
Chego em casa, tiro a roupa, tomo um banho, assumo as crianças, cozinho, libero minha ajudante e vejo as tarefas de casa, checo os novos dados da pandemia de Covid-19, dou orientações na minha conta do Instagram, coloco o bebê pra dormir a soneca da tarde e vou jogar futebol no jardim com os dois maiores.
Nesse meio-tempo, leio as notícias do dia, analiso as estatísticas e preparo o jantar. Os meninos me falam de um youtuber que faz paródias com músicas “antigas, da década de 90” – eu dou um sorriso de canto da boca. Jantamos juntos, fazemos uma oração, eles pedem para a “crise do corona” acabar logo, porque querem visitar a avó e voltar ao Brasil nas férias... (o coração aperta nessas horas).
Coloco o bebê pra dormir, meu marido organiza a cozinha, e depois colocamos os outros dois – não sem antes ler uma história e fazer uma oração.
À noite, então, fazer lives, checar burocracias, discutir se vamos precisar rearranjar os atendimentos do próximo dia. Tento ler um livro por meia hora, mas uma amiga escreve ansiosa porque teve contato com alguém que positivou. Outra me pergunta se deve ir ao hospital, pois está com sintomas, grávida, e se sente insegura. Uma prima tem uma filhinha com sinusite crônica, cujo pai está isolado por conta de ter tido contato com um infectado numa reunião de negócios em São Paulo, e ela está apreensiva. Um amigo pede as diretrizes alemãs para casos mais graves de Covid-19. Minha tia manda um vídeo de meia hora perguntando se a informação procede.
Na verdade, estou exausta. Entre trocar fraldas, separar brigas, corrigir tarefas de casa, trabalhar, o receio ao acompanhar meus amigos e colegas médicos adoecendo, a incerteza se o quadro de funcionárias vai permanecer, se posso fazer mais uma doação para projetos que apoiam pessoas em situação crítica no Brasil, sinto que faço tudo e nada.
Matando um leão por dia, para que os meninos se sintam acolhidos e em paz, tratando pacientes, orientando, esclarecendo... Cabeça cheia.
Tiro cinco minutos para cuidar da pele, e a cada etapa parece que me desnudo de tudo que o dia me exigiu.
Última checagem nas redes sociais. Olho para alguns documentos que ainda preciso analisar. Eles ficam pra amanhã. Meia-noite.
 

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