Lucas Nunes Hardie, de 40 anos, tornou-se doador múltiplo após sua morte e teve órgãos e tecidos captados no HPM de MacaéFoto: Divulgação
A história de Lucas ganha ainda mais significado no dia 27 de setembro, data nacional dedicada à conscientização sobre a importância da doação de órgãos. A família precisou tomar uma decisão difícil em meio ao luto, mas optou por respeitar uma vontade que o servidor já havia manifestado em vida: ajudar outras pessoas por meio da doação.
Técnico em radiologia, Lucas havia sido aprovado em concurso público e trabalhava no Pronto-Socorro Municipal. Segundo a irmã, Lidiane Nunes, ele era conhecido pela humildade, generosidade e educação. A vida da família mudou no dia 29 de agosto, quando Lucas sofreu uma grave colisão de moto a cerca de quatro minutos de casa.
O falecimento foi confirmado em 9 de setembro. Lucas deixou uma filha de 11 anos e a mãe. No dia seguinte, a família autorizou a captação dos órgãos no HPM.
Para Lidiane, a autorização teve um significado ainda mais marcante. A assinatura do documento que permitiu a doação ocorreu justamente no dia do aniversário dela. Ao mesmo tempo em que enfrentava a perda do irmão, precisou conversar com familiares sobre uma decisão capaz de beneficiar pessoas que aguardavam por um transplante.
Segundo Lidiane, parte da família inicialmente tinha resistência à doação. Ela, porém, recordou a vontade manifestada por Lucas.
“Parte da família tinha um tabu, queria prolongar a situação a qualquer custo. Minha pergunta para eles foi direta: por que não doar? A vontade dele era essa”, relata.
A captação realizada no HPM incluiu seis tipos de órgãos e tecidos. O coração, que exige logística específica para o transporte após a retirada, foi levado de helicóptero no mesmo dia.
Para Lidiane, a experiência mostrou de maneira concreta o alcance que uma decisão familiar pode ter.
“A gente só tem noção da importância da doação quando acontece dentro da nossa casa. Não levamos nada daqui, mas temos a oportunidade de deixar outras pessoas vivas.”
A experiência também chama atenção para uma das etapas fundamentais do processo de doação: a autorização da família. De acordo com os dados apresentados pela unidade, o HPM de Macaé registra taxa de aceite familiar de 55,5% nos casos viáveis. A média informada para o Estado do Rio de Janeiro é de 33%.
A coordenadora da Equipe Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos (e-DOT) de Macaé, Waneska Madeira, destaca o trabalho realizado junto aos familiares durante o momento de luto.
“Essa taxa de 55,5% de aceite familiar está diretamente ligada ao compromisso humanizado da nossa equipe. Estar ao lado dos parentes, esclarecer dúvidas e dar o suporte necessário no momento do luto faz toda a diferença para que o desejo do doador seja respeitado. É um resultado que nos orgulha e nos motiva a continuar sensibilizando a população sobre o poder de salvar vidas”, ressalta.
A e-DOT promove nos dias 28 e 29 de setembro o Congresso Municipal de Conscientização, na Câmara de Macaé, com o tema “Doar é transformar uma despedida em novos começos”. O evento será das 9h às 15h, gratuito e aberto à comunidade. As inscrições podem ser realizadas pelo link da bio no Instagram @edotmacae.
Para Lidiane, a decisão tomada após a morte do irmão deixa uma mensagem que ultrapassa a própria família.
“A mensagem que fica é simples: doem órgãos e salvem vidas. Uma única pessoa pode transformar a história de várias famílias. Saber que meu irmão continua presente em outros corpos é o que traz consolo”, conclui.



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