Magé tem mais de 73 mil domicílios em áreas de alto risco climáticoDivulgação

Magé, na Baixada Fluminense, tem 73.541 domicílios localizados em áreas de alto risco de deslizamento e inundação, segundo o Mapa da Desigualdade 2026, elaborado pela Casa Fluminense. O número evidencia a vulnerabilidade do município diante dos eventos climáticos extremos, que incluem chuvas intensas, alagamentos e períodos de estiagem.
O cenário é preocupante em todo o estado. Dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mostram que 95% dos 92 municípios fluminenses estão classificados nas faixas de risco médio e alto de estresse hídrico. Mais da metade apresenta risco alto ou muito alto de deslizamentos de terra, enquanto 45% estão nessas mesmas faixas para inundações, enxurradas e alagamentos.
Na Região Metropolitana do Rio, quase 30 mil moradias foram danificadas ou destruídas pelas chuvas entre 2024 e 2025. O levantamento ressalta que o número pode ser maior, já que sete municípios não informaram os dados à Defesa Civil Nacional.
Justiça climática em Magé
Diante desse cenário, o Quilombo de Bongaba, em Magé, participou de uma formação sobre justiça climática e resiliência socioecológica promovida pelo Instituto Sinal do Vale, em parceria com o Programa Petrobras Socioambiental, por meio do Projeto Recôncavo da Guanabara — Escola de Restauração de Ecossistemas.
Realizada entre setembro e outubro, a iniciativa reuniu participantes em nove encontros, com atividades na sede do instituto, em Duque de Caxias, e no Quilombo de Bongaba. A programação abordou mudanças climáticas, prevenção de desastres, monitoramento comunitário, saúde mental e estratégias de mobilização política.
Os participantes também mapearam riscos ambientais em seus territórios, incluindo enchentes, calor extremo, deslizamentos e falta de água, além de discutirem medidas de prevenção e planejamento para o futuro.
Pai Paulo de Ogun, liderança religiosa do Asé Ogun Alakoro, no Quilombo de Bongaba, conduziu uma das atividades sobre justiça climática e território. Para ele, o enfrentamento das desigualdades ambientais passa pelo fortalecimento das comunidades tradicionais e pela valorização dos conhecimentos afrocentrados.
“Nosso lema quilombola é: não fale de nós sem nós”, afirma. Segundo ele, a participação comunitária e o acesso à educação são fundamentais para ampliar oportunidades e garantir que os moradores ocupem espaços de decisão.
Soluções precisam incluir moradores
A professora Aliny Pires, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), defende a inclusão de soluções baseadas na natureza nos planos de adaptação climática. Entre as possibilidades estão iniciativas de restauração ecológica e recuperação de ecossistemas, que podem contribuir para reduzir riscos e preservar a biodiversidade.
A pesquisadora Maria Clara Salvador, cofundadora da Coalizão O Clima é de Mudança, destaca que os impactos climáticos são desiguais e atingem de forma mais intensa populações negras e quilombolas, frequentemente expostas a condições precárias de infraestrutura e saneamento.
Para Mari Chiba, coordenadora executiva do Projeto Recôncavo da Guanabara, as ações ambientais precisam caminhar junto com o fortalecimento de quem vive nas áreas vulneráveis.
A proposta é ampliar o acesso à informação, estimular a organização comunitária e garantir que os moradores participem da construção das soluções. Em Magé, onde milhares de domicílios estão em áreas de risco, a mobilização local é apontada como parte importante da preparação para os efeitos das mudanças climáticas.