O mundo já aqueceu aproximadamente 1,4 °C em relação à era pré-industrialLouisa Gouliamaki / AFP
Mesmo que os países cumpram integralmente seus compromissos climáticos mais recentes, as temperaturas globais podem continuar aumentando 2,6 °C acima dos níveis pré-industriais até o ano de 2100, segundo o estudo.
Isso superaria em muito a meta histórica do Acordo de Paris, tratado global sobre mudança climática que estabeleceu manter o aquecimento bem abaixo de 2 °C, ao mesmo tempo em que se busca um limite mais seguro de 1,5 °C.
Segundo o Relatório sobre a Lacuna de Emissões (Emissions Gap Report 2026), qualquer possibilidade de manter o nível de 1,5 °C foi "perdida" por décadas de ações insuficientes.
"Inundações mortais, ondas de calor brutais, incêndios florestais devastadores, vidas perdidas, economias paralisadas, desigualdades cada vez mais profundas, e aqueles que têm menos responsabilidade são os que sofrem primeiro e com maior intensidade", alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em comunicado.
Em termos gerais, as emissões globais de gases de efeito estufa em 2025 se mantiveram praticamente no mesmo nível dos recordes de 2024, com uma diferença entre os dois anos pequena demais para ser distinguida, segundo o relatório.
Nenhum país está a salvo
O mundo já aqueceu aproximadamente 1,4 °C em relação à era pré-industrial e espera-se que o limite de 1,5 °C seja superado em questão de anos.
A perspectiva do Pnuma piorou em relação à do ano passado devido à retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris e às revisões para cima das emissões históricas, destacou a coautora do estudo, Anne Olhoff.
Entre os seis principais emissores do mundo, os dados preliminares para 2025 mostraram aumentos nos Estados Unidos, na Indonésia e na China, e reduções na Índia, na Rússia e na União Europeia.
Em termos de magnitude, o aumento de 133 megatoneladas de CO2 equivalente nos Estados Unidos "superou de longe" o de qualquer outro país, impulsionado por uma maior demanda de eletricidade e pela geração de energia a carvão.
O segundo maior aumento foi registrado na Turquia, país que sediará a cúpula climática da ONU de 9 a 20 de novembro.
A secretária executiva do Pnuma, Inger Andersen, disse a jornalistas que nenhum país está a salvo das mudanças climáticas, "incluindo os Estados Unidos".
"Fracasso histórico"
Para isso, é necessário atingir um máximo de 1,8 °C em 2050 e remover grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera. Isso pressupõe cortes imediatos nas emissões de 6% ao ano, todos os anos, até 2035.
Alguns países em desenvolvimento vulneráveis às mudanças climáticas acusaram os maiores emissores de abandonar as metas de Paris.
Este relatório "é um novo sinal de alerta, mas os governos continuam apertando o botão de adiar", declarou Jasper Inventor, diretor adjunto de programas do Greenpeace Internacional.
"Este é um fracasso histórico da liderança política. A ciência tem sido clara há décadas, mas os governos optaram por adiar em vez de agir. As consequências serão medidas em vidas perdidas, não apenas em graus de aquecimento", afirmou Mohamed Adow, diretor do centro de estudos Power Shift Africa.
"Chegou o momento decisivo, aquele em que tudo está em jogo, é agora, e não mais tarde", declarou Inger Andersen.
Para isso, os países deverão "ampliar" os avanços já conquistados, apontou Anne Olhoff.
A capacidade mundial em energias renováveis cresceu três vezes mais rápido do que o previsto, e a implantação da energia solar fotovoltaica se multiplicou por sete.
Mas persistem obstáculos, em particular no que diz respeito aos combustíveis fósseis, onde "não observamos nenhum avanço à altura das exigências", destacou Olhoff, assim como na área de desmatamento.
"Não observamos que essa redução progressiva (das emissões e do uso de combustíveis fósseis) esteja ocorrendo no ritmo que deveria", acrescentou Andersen em declarações à AFP.
Por isso, ela insta todos os governos a acrescentar 5.000 gigawatts adicionais de energia renovável nos próximos cinco anos.
El Niño sem precedentes
"Hoje lançamos um apelo conjunto por medidas antecipadas, urgentes e coordenadas (...) Não podemos impedir o El Niño, mas podemos prevenir muitas de suas consequências humanas mais graves", declarou à imprensa em Genebra a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo.
Também pediu aos países, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras que liberem recursos "antes que os danos ocorram, e não depois".
"Atingirá sua intensidade máxima no fim de 2026, mas suas repercussões serão sentidas muito depois dessa data", advertiu.
O El Niño é um fenômeno natural que ocorre a cada dois a sete anos.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.