Animais do Zoo do Rio têm vida de cão sem dono

Veterinários enumeram problemas, como recintos pequenos e inadequados

Por O Dia

Rio - Na tarde de quinta-feira, famílias se aglomeram em volta do urso Zé Colmeia, que veio há dez anos de um circo para ser uma das grandes atrações do Jardim Zoológico do Rio. Mas o olhar de curiosidade das crianças que observavam o animal logo dava lugar a expressões de tristeza. “Pai, porque o urso só fica se arrastando para frente e para trás o tempo todo?”, questionava uma menina.

Mas não eram apenas as crianças que se comoviam com o estado de muitos animais , vivendo sozinhos e cabisbaixos em seus recintos. Rogerio Oliveira, de 43 anos, lamentava enquanto passeava com seus filhos. “Não está havendo renovação, os animais parecem velhos, acabados. Eles precisavam de uma atenção maior”, disse o visitante. Segundo a veterinária Andrea Lambert, os frequentadores têm razão em se queixar: “Os animais vivem em grupo na natureza, então é obrigação do zoológico oferecer uma companhia, há uma lei do Ibama que diz isso”.

O urso Zé Colmeia tem um comportamento estranho%3A fica andando para trás e para frente. Para os veterinários%2C ele trouxe essa mania do circoFernando Souza / Agência O Dia

Macaco Tião

Para a veterinária, o temperamento do famoso Macaco Tião era um exemplo dos problemas causados pelo modo com que esses animais vivem isolados, em viveiros pequenos: “O comportamento rabugento do Macaco Tião era estresse puro. A diabetes que causou a morte dele foi consequência disso”.

De acordo com Daniel Baltazar, veterinário do Zoológico do Rio, a história do urso Zé Colmeia ajuda explicar o seu comportamento. “Ele é um animal sequelado, porque no circo ficava em um ambiente pouco maior que o tamanho de seu próprio corpo. A gente tem plena consciência que pode controlar ele, mas não podemos curar. Nós estamos tentando sanear todos os problemas que ele encontra.”

A onça sofre de um problema congênito nos olhos%3A frequentadores dizem que os animais estão velhosFernando Souza / Agência O Dia

Mas Carlos Esberarb, professor de Zoologia da UFRRJ, vai além na explicação: “Como o urso fazia shows no circo, ele anda para frente e para trás para se manter ativo. Daí, este tipo de comportamento”, diz o especialista, que já trabalhou no Zoológico do Rio.

Reclamações sobre a falta de manutenção também são frequentes entre os visitantes. Segundo a RioZoo, uma equipe terceirizada realiza a limpeza nos banheiros. Mas na tarde de quinta-feira, a equipe do DIA constatou que não havia sabonete nem papel higiênico nos banheiros do parque. A assessoria da instituição informou que há projetos de revitalização para o início do próximo ano. O zoo planeja iniciar em janeiro uma série de melhorias nos recintos dos animais e nos banheiros.

No exterior, um novo conceito

Segundo a veterinária Andrea Lambert, enquanto os zoológicos mais modernos tentam ao máximo reproduzir o ambiente que os animais encontram na natureza, o do Rio sofre com as restrições que o seu próprio espaço físico impõe.

Jaulas interditadas e banheiros em más condições de higiene são problemas que incomodam os visitantes. RioZoo promete melhoriasFernando Souza / Agência O Dia

“É um zoo que tem um padrão antigo, e é pequeno. As condições de jaulas e recintos são sofríveis. Se você for a um zoológico no exterior, é muito diferente. Eles são novos, bem maiores, mais arejados. Tentam reproduzir o habitat do animal na natureza. O bicho devia ter uma qualidade de vida muito melhor do que está aí” afirma a veterinária. Na parte de comentários da página da Rio Zoo no Facebook, é possível observar as centenas de reclamações de pessoas que se frustram ao visitar o Zoológico do Rio.

Indicações políticas

A fundação RioZoo, que administa o parque, já teve quatro presidentes desde que o prefeito Eduardo Paes assumiu o cargo em 2009. No comando há dois anos, o administrador de empresas Sérgio Luiz Felippe é irmão do presidente da Câmara de Vereadores, Jorge Felippe (PMDB). Antes dele, a fundação era comandada por Mônica Valéria Blum Rocha, atualmente lotada no gabinete de Jorge Felippe. Por lá ainda passaram Marcelo José Rodrigues Maia e Anna Laura Valente Secco Freire. O Zoológico do Rio abriga 2.700 animais, número que pode variar levando-se em conta nascimentos e óbitos Do total, há 990 aves, 800 peixes, 600 répteis e 350 mamíferos.

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