Com as UPPs nos bairros, quedas d’água antes evitadas voltam ao roteiro da estação
Por thiago.antunes
Rio - Que tal sair de um calor desértico de mais de 40 graus e deleitar-se em um oásis onde a temperatura gira em torno dos 21, com sombra e água fresca? E isso sem sair da área urbana do Rio de Janeiro. Gostou da ideia? Então, pés à obra: basta subir o Morro da Formiga, na Tijuca, ou dar um pulinho no contíguo bairro do Grajaú para desfrutar das cachoeiras que brotam no meio da selva de concreto.
Há até bem pouco tempo esses paraísos ficaram fora do alcance de moradores e visitantes, porque haviam se tornado áreas de lazer de traficantes de drogas. Com a chegada das UPPs em morros da Tijuca e do Grajaú, o bucolismo das cachoeiras, cercadas por Mata Atlântica, já pode ser desfrutado por todos.
Emolduradas pela Mata Atlântica%2C quedas d’água e piscinas naturais compõem cenários paradisíacos%2C agora ao alcance de mais pessoasEstefan Radovicz / Agência O Dia
Agora, muitos moradores do asfalto estão descobrindo — ou redescobrindo — essas maravilhas da natureza e combatendo o calor excessivo do verão refestelados nesses refúgios. “Moro no Méier, e há um ano e meio conheci as cachoeiras do Grajaú. Venho sempre que posso, de manhã, antes do trabalho”, conta o técnico de som Felipe Lélis, 29 anos.
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Moradora do Grajaú há décadas, a bailarina Rita Serpa é uma caminhante assídua das trilhas que desembocam nos lagos de águas límpidas e geladas. “Não deixo de vir um só dia sequer. Isso aqui é o refúgio onde recarrego as energia”, afirma Rita, que na quarta-feira ia morro acima com seus cães Da Vinci e Joly.
Nos fins de semana, segundo um grupo de motoboys que trabalha no bairro e frequenta as cachoeiras, os três principais pontos de queda d’água ficam lotados de gente. “É patricinha para cá, playboy para lá... As cachoeiras estão cada vez mais lotadas. Todo mundo está indo se refrescar ali”, diz Renato Cardozo, 18 anos, com os amigos Carlos, Rafael, Pablo e Caiqui.
Emolduradas pela Mata Atlântica%2C quedas d’água e piscinas naturais compõem cenários paradisíacos%2C agora ao alcance de mais pessoasEstefan Radovicz / Agência O Dia
No Morro da Formiga, na Rua Conde de Bonfim sentido Usina, são três cachoeiras, nas quais moradores da comunidade dividem democraticamente o espaço com turistas nacionais e estrangeiros que se deslumbram com o visual.
“Há três anos, criamos um serviço de guias para fazer o passeio. Nos fins de semana, tem sempre grupos de turistas aqui. Mas nós da comunidade sempre usufruirmos das cachoeiras”, gaba-se Paulo Sérgio Oliveira dos Santos, o Tolil, 45 anos.
Que o diga a garotada. Na terça-feira, por volta das 13h, com uma temperatura que no asfalto já passava dos 40 graus, um grupo de crianças e jovens, entre 7 e 20, caminhava rumo às cachoeira do Formiga. Na bagagem, uma prancha de isopor e o cachorro Lince. “A gente vem todos os dias nesse horário, quando começa a esquentar. Lá para 15h, elas estão lotadas”, avisa Caio de Araújo, 13.
Rita Serpa mora no Grajaú há décadas%2C mas se sente mais segura agoraEstefan Radovicz / Agência O Dia
Temperatura amena e água puríssima
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O acesso às cachoeiras no Morro da Formiga é pela Rua Medeiros Pássaro, transversal à Rua Conde de Bonfim. O trajeto tem nível de dificuldade classificado como leve, mas o ideal é contratar um guia para não se perder na mata. No caminho, pode-se beber a puríssima água de uma mina e aproveitar para encher o cantil.
Para chegar nas cachoeiras no Grajaú — há no mínimo, seis —, dentro dos limites do Parque da Tijuca, basta ir até o fim da Rua Borda do Mato e virar à direita na Rua Marianópolis. O grau de dificuldade das trilhas para as quatro primeiras quedas d’água é de leve a médio. Nas duas primeiras, dá para ir sem guia. Mas se você quer conhecer as cachoeiras mais acima, é bom contratar um.
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A temperatura nesses refúgios fica entre 21 e 22 graus. Clima de montanha, contrastando com o calor senegalês de 43 graus que se verificou na parte baixa do Morro da Formiga, e dos 34 graus registrados na Rua Marianópolis, no Grajaú.
Dicas para um passeio seguro
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Se você decidir conhecer essas maravilhas incrustadas no coração do Rio de Janeiro, deve tomar alguns cuidados quando já tiver chegado nas cachoeiras — além do protetor solar e do repelente. Atenção com as pedras escorregadias, principalmente as pretas. Molhadas, elas viram um sabão. Não use tênis.
Uma boa opção é andar descalço para sentir melhor o apoio dos pés nas rochas. Andar de quatro não é vergonha nenhuma. Quando sentir necessidade disso, faça. É bem melhor do que levar tombo. Nunca mergulhe sem antes verificar qual é a profundidade do poço. Leve uma toalha e roupas extras. Depois do banho de cachoeira é preciso se enxugar e pôr roupa seca para percorrer o trajeto de volta. Caminhar com roupa molhada pode provocar assaduras.