Ato faz prefeitura rever plano do BRT e extinção de linha na área é adiada

Protesto deixou, pelo menos, 13 mil passageiros a pé

Por thiago.antunes

Rio - O protesto que fechou a Avenida das Américas e parou o BRT Transoeste, no sentido Barra, por mais de três horas, na manhã desta terça-feira, fez a prefeitura mudar o cronograma de extinção de linhas convencionais de ônibus para a implantação do Transcarioca.

Com o fechamento do corredor%2C 70 veículos do BRT ficaram parados em direção à Barra por três horasCarlos Eduardo Cardoso / Agência O Dia

A manifestação começou às 6h30, quando usuários fecharam a via, em frente à estação Salvador Allende, para reclamar contra a falta de ônibus na linha 736 (Cascadura-Riocentro) e só terminou por volta das 10h, quando o Batalhão de Choque chegou e dispersou cerca de 100 manifestantes com bombas de gás. Segundo o operador do BRT, 70 veículos ficaram parados por causa do bloqueio, prejudicando 13 mil passageiros.

Pelo plano de implantação do corredor Transcarioca, que prevê a substituição de linhas convencionais por alimentadoras do sistema BRT, a 736 deveria ser substituída, nas próximas semanas, pela 931A (Curicica-Recreio). Entretanto, após a manifestação, o secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, explicou que a 736 será mantida após o início da 931A por pelo menos duas semanas para que a população se acostume às alterações.

A secretaria também anunciou que multou o consórcio Transcarioca, responsável pela linha 736, em R$ 1.300 por causa da diminuição de frota. Segundo Sansão, a linha deveria operar com, no mínimo, 12 veículos e tinha, ontem, apenas cinco. Ele sustentou que essa redução, sem autorização da prefeitura, pode ter sido realizada pela empresa por causa da perda de receita gerada pelo funcionamento do BRT Transcarioca. “Cerca de 60% do trajeto da 736 já são cobertos pelo BRT Transcarioca, o que provavelmente derrubou o número de passageiros da linha convencional”, disse o secretário.

No meio do protesto, passageiros reclamaram do tempo excessivo perdido na espera por linhas convencionais e alimentadoras para chegar até o BRT. A babá Elisângela Pereira, de 34 anos, contou que sai de casa às 5h, em Campo Grande, e pega um ônibus até a estação Mato Alto, onde embarca no BRT até a Salvador Allende. Lá, ela precisa usar uma terceira condução até o trabalho, perto do Riocentro, que é a linha 736, que teve a frota reduzida. “Eu saio do trabalho às 16h, mas tem dias que só consigo chegar em casa depois das 20h. O BRT é rápido, mas, às vezes, fico mais de uma hora esperando por cada ônibus. Eles são poucos e sempre estão cheios”, reclamou.

Quem também criticou a demora foi a diarista Maiara Maia de Paulo, de 32 anos. Assim como Elisângela, ela alegou que sempre espera cerca de uma hora para embarcar na linha 736. Na manhã desta terça, para conseguir chegar ao trabalho, no Recreio, precisou descer antes e seguir a pé, por causa do engarrafamento, chegando duas horas e meia atrasada. “Normalmente, temos que ficar esperando o 736 ou então pegar um van, mas aí é uma passagem a mais”. Três manifestantes foram detidos por dano ao patrimônio público e depois liberados.

Mulher passa mal com gás lacrimogêneo e é socorrida por guardaSeverino Silva / Agência O Dia

Conceito do BRT prevê substituição

Apesar das críticas de alguns usuários, o conceito do sistema tronco-alimentador do BRT é considerado por especialistas a solução para melhorar o tráfego. O benefício ocorre ao se extinguir as linhas de coletivos sobrepostas e implantar um corredor expresso de alta capacidade, abastecidos por ônibus alimentadores do sistema.

Os especialistas alertam, no entanto, que é preciso cuidado para implementar as linhas que vão levar os passageiros até o sistema BRT, que já tem hoje, no Rio, 250 mil passageiros por dia. “O transbordo para o BRT tem de ser facilitado com a boa frequência das linhas alimentadoras. A prefeitura tem de fiscalizar”, alertou a professora de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da UFRJ Eva Vider.

Policiais usaram bombas de gás para dispersar manifestantes e reabrir as pistas da Avenida das AméricasSeverino Silva / Agência O Dia

Para o especialista em Sistemas de Transportes da Universidade Federal Fluminense (UFF) Aurélio Lamare Murta, a implantação do BRT foi feita de forma incompleta. “O BRT ganhou importância, mas se vê que o sistema, como um todo, não está sendo alimentado. É preciso montar um planejamento para identificar os possíveis deslocamentos que são feitos pelo público”, explicou.

Nova linha já foi criada

A Rio Ônibus, associação das empresas que fazem parte dos quatro consórcios que operam o serviço de ônibus da cidade, informou, em nota, que ainda apurava as circunstâncias da operação na 736, na manhã de ontem, e que o serviço da linha já estava normalizado na parte da tarde. O consórcio acrescentou que, como opção à linha 736, há as a 809A (Colônia-Recreio, via Curicica) e 959A (Curicica-Recreio, via Salvador Allende) na mesma área.

O secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, afirmou ainda que, em função do diálogo com a população, a prefeitura já fez mudanças no plano de implantação do corredor Transcarioca. “Nós já criamos uma nova linha de ônibus convencional, de Curicica, em Jacarepaguá, a Botafogo, que não estava prevista inicialmente e passou a operar em 4 de agosto, em atendimento à reivindicação de moradores do bairro do Camorim”, disse.

Colaborou Paulo Maurício Costa

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