Jaguar: Impeçam o impedimento

Quero apresentar uma proposta: abolir o nefando impedimento no futebol. Do que a torcida gosta mais? De gols

Por adriano.araujo , adriano.araujo

Rio - Quero apresentar uma proposta: abolir o nefando impedimento no futebol. Do que a torcida gosta mais? De gols. A bola a cem por hora, mortal, se aninhando no fundo da rede. Os dedos do goleiro ainda a roçam; ela os atravessa como se fossem de geleia, estufando o véu da noiva, entrando na última gaveta, onde mora a coruja. O goleiro ainda voa na curva da ponte, a torcida explode num orgasmo coletivo, os locutores urram “goool” enquanto tiverem um ínfimo fôlego.

O impedimento trunca e enfeia o balé do futebol. Os zagueiros recuam, o bandeirinha marca a falta do atacante que driblou quatro e avança triunfalmente para soltar a bomba no ângulo ou encobrir o goleiro num toque sutil. Com direito do goleiro voando num movimento — arte pura — de matar de inveja Mikhail Baryshnikov. Aí, a pintura é destruída estupidamente pelo apito do juiz. Lembra as cenas horripilantes da TV mostrando as obras de arte milenares explodidas pelo Estado Islâmico. O resultado é que 90% dos jogos têm um placar minguado: 1 a 0, muito 1 a 1, 2 a 1, e por aí vai. Um 4 a 1 é saudado como goleada. Como classificou um narrador empolgado: “Chocolate belga” ( pelo menos salva-se pelo humor). Zero a zero é uma brochada.

Por falar em narrador, meu Deus, que saudades de Ary Barroso, Luís Mendes, João Saldanha,e até Mário Vianna (“banheiiiira!”). A crônica esportiva se iguala à decadência do nosso futebol, escorraçado humilhantemente da Copa América. Só livro a cara do Tostão, que sabe do que fala, no mesmo estilo do seu futebol, simples e eficiente. E, na TV, do Paulo César Vasconcellos. Esse sabe, em detalhes, tudo sobre o esporte, se é que ainda podemos chamar de futebol aquela pancadaria impune. Os outros são uns analfas, como dizia Fausto Wolff.

Enquanto brasileiro (o tema já está me burrificando), nunca tive tanta vergonha de sê-lo (licença, Temer) depois do vexame da nossa Selecinha na Copa América. Enquanto os jogadores dos outros países correm atrás da bola como se fosse um prato de comida para um retirante, os nossos craques (risos) se arrastam como zumbis. Pra que arriscar suas preciosas pernas, pagas em euros e dólares, nos torneios cucarachas? Pelo menos algo se salvou: o Dunga — que fica de cara amarrada até em gol do Brasil — foi para as cucuias. Quem sabe um dia voltará a alegria ao futebol brasileiro?

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