Por adriano.araujo

Rio - Era um grupo de crianças conversando sobre a tal festa junina. Sabiam, inclusive, o que era quermesse. Um explicou sobre a Trezena de Santo Antônio. E por que era ele o santo casamenteiro. O outro disse de São João, e ainda houve quem falasse de São Pedro. E falaram dos doces e das danças. E dos enfeites. Foi quando surgiu a conversa sobre as bandeiras.

Bandeirinhas enfeitam as festas juninas e outras festas. Trazem uma certa alegria. Uma dança de cores que nos convida a olhar para o alto onde elas se encontram. Olhar para o alto é sempre bom. Retira-nos do chão. Relembra-nos a imensidão do céu.

Iam se reunir em um determinado dia para arrumar as bandeirinhas. Foi quando um dos meninos surgiu com uma ideia inusitada. Por que não intercalar, entre as bandeirinhas coloridas, algumas bandeiras com algumas palavras para melhorar o mundo?

Uma menina, com expressão de sabida, concordou e explicou como deveriam fazer. Alguns estavam atentos; outros, nem tanto. Mas o fato é que, naquelas crianças, havia um sopro novo em tempos quentes, mesmo no inverno.

Crianças não vivem anestesiadas em tempos de dor. Sofrem, também. Sofrem com o sofrimento dos pais. Estão inseridas na sociedade. Crescendo de acordo com o que veem e sentem. Sorvem pequenas ou grandes doses de violência. Simbólica ou real. Apanham, nas ruas, espinhos cortantes. Estão ainda destreinadas, desprevenidas. Não entendem os porquês. Será que os adultos entendem?

O fato é que aquelas crianças iam além das danças, das quadrilhas, dos casamentos festivos. Queriam bandeiras. Bandeiras que melhorassem o mundo.

Bandeiras são símbolos de uma causa, de um caminhar comum, de uma identidade. Seja a bandeira de uma nação, seja a bandeira da paz. O que queremos ver tremular nos amanhãs?

Crianças sabem mais do que imaginamos. Do seu jeito. Desconsiderar a sensibilidade de uma criança é desconhecer a força das nascentes. Parecem pequenas quando surgem, mas delas se originam os rios que banharão e que alimentarão as gentes. Os rios estão sujos. As nascentes, não.

Naquelas mentes de criança, havia muita limpeza. E passaram a decidir o que escrever. Com calma, foram dizendo o que melhora o mundo. “Verdade”, disse uma, explicando que a mentira dá muito trabalho; que a verdade é mais fácil porque é o que aconteceu. “Paz”, dentro da casa da gente, disse uma menina com os olhos marejados. O que será que acontece entre aquelas paredes? “Comida boa para todo mundo”, disse um menino todo festivo, lambendo os beiços e confessando a comilança.

“Bondade”, disse outro, trazendo o exemplo da mãe que cuida de muita gente. “Amor”, falaram três, ao mesmo tempo. O amor é o que mantém a nascente sempre ativa. É o que faz com que a água não pare de brotar. E, com ela, outros brotos. Vidas que vão surgindo e apontando para alguma esperança. Outras palavras foram ditas. Depois seriam escritas. Depois seriam expostas em bandeiras que intercalar iam com as bandeiras coloridas para aquela festa de junho. A alegria expressa na dança das cores ficaria ainda mais decidida com as palavras. E a festa será um aprendizado. E um convite, talvez. Nada de acomodação. É preciso deixar a música sensibilizar o corpo e caminhar em uma quadrilha boa, fugindo da cobra, da chuva, da ponte quebrada, dando meia volta ou arrumando a ponte e prosseguindo. Pontes são sempre necessárias. Para a travessia. Para o encontro.

Como serão essas crianças amanhã? Perderão a capacidade de olhar para o alto? Eles se esquecerão do dia em que sonharam em melhorar o mundo? Das palavras com os seus significados? Bem, a cada dia a sua preocupação. O dia de hoje foi bom. Depois de ver aquela roda de conversa. Depois de imaginar como seria aquela festa. Quem sabe a fogueira queime as vaidades, as arrogâncias que atrapalham tanto. Quem sabe os doces espantem as amarguezas das relações. Quem sabe o casamento seja entre o discurso e a ação. E que a dança das cores explique a lindeza das diferenças.

Hoje foi um dia bom.

Viva São João! 

Gabriel Chalita é professor e escritor


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