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Bruno Sobral: a Síria não é aqui

O que falta ao Rio não é ser polo de negócios, mas sim polo de uma economia regional organizada por complexos produtivos

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Rio - Aqui não se mata por insurgências e terrorismo, nenhuma morte visa a tomar o Estado oficial. Aqui não se vive uma guerra, mas sim um ambiente de negócio diferente do idealizado pelas associações de empresários. Nesse ambiente, não há visão politico-estratégica para maior agregação de valor, é feito de controle dos circuitos de circulação e poder monopólico sobre territórios que tem centralidade nesses circuitos. A lógica da concorrência é resolvida pelo elevado gasto armamentista.

Seria uma reflexão fácil se falasse que isso é culpa do capitalismo. Digo fácil, porque seria uma explicação generalista. Mas, na verdade, a questão é mais específica. É indagar que tipo de capitalismo. Logo, é indagar que o desenvolvimento do capitalismo no Rio de Janeiro manteve um padrão de acumulação sobre domínio de capitais mercantis. Esses capitais se reproduzem com recorrente uso de forças extraeconômicas, mas especificamente uso da força para impor estruturas de mercado baseadas na expropriação permanente.

Mata-se porque é necessário para um negócio que, mesmo gastando muito em custo fixo e sendo próximo da barbárie, é uma das âncoras da economia local. Nenhuma surpresa para uma região que fazia o mesmo, gastando muito e próximo da barbárie, para produzir café de base escravista. O mesmo sangue negro escorrendo entre atividades de dominância de capitais mercantis (lembrando que o café do Rio não era dominado por capitais agrários e sim urbanos).

É claro que choca, mas indo além de refletir sobre o horror, é preciso interpretar por que é um padrão de acumulação tão lucrativo apesar de seus limites. Investigar esses limites é importante não só para entender como pode ser superado civilizatoriamente, mas, em particular, como pode ser também fortalecido por uma lógica que, apesar de cruel, é feita com menos desperdício de recursos e vidas como aplicada pelo PCC. Como nossa cafeicultura foi superada pela paulista, nossa economia do ilícito pode seguir o mesmo caminho.

Evidentemente, o que se deve buscar nesse intervalo que tal cenário não se concretizou é como introjetar novas forças produtivas com relações de produção mais avançadas. O que se associa ao desenvolvimento de complexos produtivos que faça esse território passar a ter um padrão de acumulação finalmente sob comando de capitais produtivos. Isso ganha o nome de industrialização.

O que falta ao Rio não é ser polo de negócios, mas sim polo de uma economia regional organizada por complexos produtivos. Meramente achar que desenvolvimento é ter ambiente de negócios é esquecer de perguntar para qual negócio? É sempre necessário lembrar que o que choca é feito porque tem um cálculo empresarial e uma lógica econômica por trás que, não sendo superada por outra base econômica, reproduz ao não permitir que nada atrapalhe o domínio de seus negócios.

Bruno Sobral é economista e professor da FCE/Uerj

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Bruno Barth Sobral, economista Divulgação

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