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Luís Pimentel: terror nosso de cada dia

Que fazia a vereadora covardemente assassinada, se não usar a voz para defender a vida, os direitos e a dignidade de tanta gente sem voz? Em sua bravura, ela não demonstrava ter medo, mas talvez tivesse

Por Luís Pimentel Jornalista e escritor

Luís Pimentel, colunista do DIA
Luís Pimentel, colunista do DIA -

Rio - Em 'Terror e miséria no Terceiro Reich', obra-prima da dramaturgia universal e do cardápio indigesto da guerra, o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) põe no centro do palco e de suas inquietações  um casal dominado pelo medo que, durante um período, dominou o mundo, partindo da Alemanha. O filho saíra sem avisar, pai e mãe arrancavam os cabelos temendo a delação-traição tão em voga naqueles tempos a que o poeta chamou de "sombrios".

O diálogo que se dá, e que reproduzo de memória, é mais ou menos esse:

"Por que você está tão nervosa, só porque o menino saiu?"

"Eu, não. Você que está nervoso. Parece que teme alguma coisa."

"Temo, sim. Nos tempos em que vivemos, todos temem tudo.

"O nosso filho é um bom menino".

"Eu sei. Mas e daí? O filho do vizinho denunciou o próprio pai".

"Ele deve ter ido ali. Volta logo."

Tocam a campainha.

Os dois se olham, em pânico.

"Quem será?", pergunta a mulher.

"Não sei" , diz o marido. "Mas seria prudente colocarmos o retrato de Hitler em cima da escrivaninha...

A mãe vai abrir. Volta aliviada:

"É ele. Disse que foi apenas na mercearia, comprar chocolates".

"Será verdade?", pergunta e se pergunta o pai.

São tempos que não vivi, não vivemos, mas que me vêm à memória (memória atávica de medos, que persegue tantos de nós?) diante dos últimos acontecimentos que têm transformado em território minado, assustado e soterrado (no medo!) a cidade que escolhi para viver (em tempos tão diferentes desses).

Os tempos sombrios que empurraram Brecht e tantos outros para o exílio, a clandestinidade ou os campos de concentração nos ameaçam com sua volta, mesmo que em outra moldura. Os tempos que estamos vivendo aqui, de um jeito ou de outro, são tempos de guerra, nos quais se morre por descuido, por engano, por vulnerabilidade ou até por defender, apenas defender, a própria vida ou a vida dos outros.

Que fazia a vereadora covardemente assassinada, se não usar a voz para defender a vida, os direitos e a dignidade de tanta gente sem voz? Em sua bravura, ela não demonstrava ter medo, mas talvez tivesse. Talvez dividisse com todos nós (como dividiu tanto com tantos) esse sentimento de que a violência, a estupidez e a covardia estão nas ruas. E dessas monstras não temos como nos defender, porque não sabemos em que bueiro está o cano da arma.

É o nosso terror de cada dia, nossa miséria própria. Por isso tenho medo, sim.Tenho muito medo.

Luís Pimentel é jornalista e escritor

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