Dona Ivone, Fabiana... identidades

Discute-se o privilégio de ser pardo no cenário onde o povo negro começa a ter espaço

Por Frei David Santos Filósofo, Teólogo e Especialista em Ações Afirmativas

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Acompanhamos a reflexão em torno destas duas importantes mulheres: Dona Ivone Lara e Fabiana Cozza. Este debate é muito oportuno. Nós, pardos, estamos sendo chamados à uma nova e forte reflexão, pois há um debate inesperado: discute-se o privilégio de ser pardo no cenário onde o povo negro começa a ter espaço.

A soma de preto e pardo é o que convencionamos com o IBGE de chamarmos de negros. Nós, pardos, somos negros, mas não somos pretos. Se não abrirmos nossa mente crítica, seremos usados para escamotear a opressão aos pretos.

Em Angola se deu o mesmo: logo após a guerra da libertação, assim que os colonizadores saíram corridos do país, os pardos, por terem pai branco, tinham mais privilégios, oportunidades e formação e, consequentemente ocuparam todos os altos postos do governo de Angola. O preto angolano passou a ter uma forte marcação com os pardos. Até hoje, em Angola, os pardos não são aceitos como pretos. No Brasil, nós pardos teremos maturidade para não nos deixarmos ser usados pelos que são consciente ou inconscientemente racistas.

O racismo é uma doença. Como todas as doenças, sua cura só vem quando a descobrimos e nos conscientizamos de que precisamos de tratamento. A atitude da grande e admirada cantora Fabiana Cozza, desistindo do papel, está provando a grandeza de seu espírito!

Mesmo que ela não tenha tematizado na linha que estou abordando, deu uma grande contribuição para o debate e para a defesa dos pretos.

Uma outra situação merece a nossa reflexão - é a novela da Globo, chamada 'Segundo Sol'. Eu duvido que a Globo teria a ousadia de rodar esta novela, só com negros nos papéis principais, em Blumenau (SC), contando uma história acontecida naquela cidade.

O racismo faz mal à saúde da integração pluriétnica e positiva da nação brasileira. São identidades destruídas por anos de escravidão. Queremos uma nação integrada e para isto precisamos ver momentos como este, como a grande oportunidade do nosso encontro com as nossas próprias identidades.

Precisamos entender o jogo de poder que ai se dá. O bacana é que, grande parte das pessoas inteligentes, da própria Globo, já percebem isto e, acreditamos, as mudanças ainda virão dentro desta novela - 'Segundo Sol' - pois a Globo quer ter uma nova e sadia relação com a sociedade brasileira!

Tem males que vem para nos fazer abrir nossos olhos. Foi assim comigo, quando não assumia a minha negritude e será assim com a Globo: assumirá e mudará seu racismo inconsciente.

Os poderosos que dominam os meios de comunicação, para não serem apontados como discriminadores, estão dando oportunidades para os pardos e deixando os pretos "retintos" de fora. Não podemos cair nesta!

Após darem os espaços aos mais pretos e mais vítimas do racismo, queremos também nossa representatividade. Queremos oportunamente ver Fabiana representando nossa grande dama Ivone Lara.

O debate da identidade brasileira é um movimento que vai crescer e a grande imprensa precisa ajudar neste debate e reflexão. Este artigo já está na linha desta missão. Agora é a vez dos pretos, pois não podemos deixar a Globo encher seus espaços de pardos, como Camila Pitanga, e dizer que está incluindo pretos.

A Camila é inteligente e sabe muito bem disto. Todos somos negros, mas quanto mais pretos maior é a possibilidade de sofrermos racismo na entrevista de emprego, na seleção para artistas das novelas da Globo e demais situações do dia a dia.

Frei David Santos é Filósofo, Teólogo e Especialista em Ações Afirmativas

 

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