Niterói na mira das milícias

Por Sandro Araújo*

Sandro Araujo
Sandro Araujo -

Rio - Momentos após falar para uma associação de moradores da cidade, conclamando-a a não se curvar às soluções propostas por seguranças particulares, um agente público tomou a palavra e, identificando-se como policial, ofereceu seu serviço de vigilância ostensiva no bairro, com carros, armamentos e mais alguns homens que ele também apontou como policiais. O preço não era módico e toda essa cena está escriturada na ata da reunião da associação, incluindo os orçamentos.

Enquanto isso, bandos armados de pistolas e fuzis implantam o terror, sobretudo na região de Icaraí, assaltando fregueses de bares noturnos para roubar alguns celulares.

A conta não bate: bandidos não usam armamentos caros para faturar tão pouco.

Depois da primeira denúncia, nosso gabinete na Câmara passou a receber informações de todos os lados: estabelecimentos comerciais são visitados por homens oferecendo segurança, e, dias após a recusa, sofrem assaltos; indivíduos armados obrigam comerciantes do Centro de Niterói a vender cigarros contrabandeados; na Região Oceânica, moradores só podem utilizar determinados fornecedores de gás, internet e TV por assinatura; nas escolas particulares, alunos, pais e professores são forçados, sob ameaça, a pagar por segurança.

Aproveitando-se da fragilidade e do medo, empresas de segurança privada clandestinas operam em toda cidade.

Depois de se instalar na Região Oceânica, hoje dominada, em breve, se não forem reprimidas, as milícias ocuparão Icaraí e outros bairros centrais. E fica o alerta: se a estratégia der certo em Niterói, por que não ousariam também em bairros de classe média do Rio, como Copacabana, Ipanema e Leblon?

Não são conjecturas. São fatos. Todos já reportados às autoridades. O prefeito Rodrigo Neves os conhece e está preocupado. Mas é preciso atuar mais, a começar por uma reestruturação da Secretaria Municipal de Ordem Pública, como condição necessária para mudanças na política de segurança, saindo da mesmice dos gestores militares para ir muito além. A inteligência é fundamental nesse enfrentamento.

Ações envolvendo todos os níveis de poder, incluindo o gabinete da intervenção federal, são urgentes.

Na Câmara Municipal recolhemos as assinaturas necessárias e já protocolamos um pedido de instalação de uma CPI para investigar empresas de segurança que atuam na cidade de forma irregular.

Niterói, a 'Cidade Invicta', não pode cair nas mãos da milícia.

(* Policial federal e vereador pelo PPS)

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