Luís Pimentel: Ciro Monteiro, alma carioca

Conhecido no meio artístico e entre os amigos como Formigão, ele foi um carioca em tempo integral, nascido no bairro do Rocha, no Rio de Janeiro, cidade onde morreu em 1973, 60 anos depois de seu nascimento

Por O Dia

Luís Pimentel, colunista do DIA
Luís Pimentel, colunista do DIA -

Rio - Ele teria feito 105 anos em maio passado. Provavelmente sequer será lembrado por historiadores ou por instituições ligadas à memória da música brasileira. Mas é sempre bom falar daqueles que ajudaram a construir esse enorme prestígio que a MPB tem, hoje, no mundo inteiro. São muitos, mas me atenho aqui, nesta coluna, a Ciro Monteiro, que foi um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos - no gênero samba foi, seguramente, o melhor entre os melhores, em um plantel em que destacam-se Roberto Silva, Jorge Veiga, Blecaute, Noite Ilustrada, João Nogueira e Walter Alfaiate.

Ciro Monteiro, conhecido no meio artístico e entre os amigos como Formigão, foi um carioca em tempo integral, nascido no bairro do Rocha, no Rio de Janeiro, cidade onde morreu em 1973, 60 anos depois de seu nascimento.

Virou cantor por influência de um tio, o maestro Nonô, e o primeiro sucesso pipocou em 1938, quando gravou 'Se acaso você chegasse' (que ele chamava de "meu Hino Nacional"), criação imortal de um compositor gaúcho também iniciante chamado Lupicínio Rodrigues.

A voz suave e encorpada, cheia de ginga, bailando na síncope musical, caiu feito uma luva para os compositores de sambas. Daí para a frente, vieram gravações espetaculares de obras de Roberto Martins, Mário Rossi, Ary Monteiro e Wilson Batista, fazendo com que Ciro conquistasse definitivamente o Brasil, em 1942, com a gravação do samba 'Falsa baiana', do compositor mangueirense Geraldo Pereira. Tornou-se quase que intérprete oficial de Geraldo, gravando também, entre outros, o grande sucesso 'Escurinho'.

Flamenguista dos mais apaixonados, o Formigão tinha o hábito de presentear com uma camisetinha do clube do coração cada filho de amigo que nascia. E sentia prazer especial no gesto quando o pai torcia por outro time do Rio de Janeiro, como é o caso do compositor Chico Buarque.

Torcedor do Fluminense, Chico foi presenteado com o manto sagrado do Mengão quando nasceu sua primeira filha e devolveu o mimo a Ciro com um samba lindo, chamado 'Receita para virar casaca de neném' ("Amigo Ciro/Muito te admiro/Meu chapéu te tiro/Muito humildemente. Minha petiza/Agradece a camisa/Que lhe deste à guisa/De gentil presente/Mas, caro nego/Um pano rubro-negro/É presente de grego/Não de um bom irmão...").

Ciro Monteiro gravou ainda obras-primas como 'Beija-me' (Roberto Martins e Mário Rossi, 1943), 'Botões de laranjeira' (Pedro Caetano), 'Meu pandeiro' (Luiz Gonzaga e Ary Monteiro), 'Rosa Morena '(Dorival Caymmi), 'O amor e a rosa' (Pernambuco e Antonio Maria), 'A mesma rosa amarela' (Capiba e Carlos Pena Filho), 'Emília' (Wilson Batista e Haroldo Lobo), 'Filosofia' (Noel Rosa), 'Izaura' (Herivelto Martins e Roberto Roberti), 'Jura' (Sinhô) e 'Rugas' (Nelson Cavaquinho, Augusto Garcez e Ary Monteiro.

Luís Pimentel é jornalista e escritor

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