O apagar das luzes

Por Gabriel Chalita *

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Era um dia como outro qualquer. E a noite chegou. E, com a noite, a dor lancinante de quem perdeu o seu amor. Celina estava em pedaços. Quem já passou por isso sabe o quanto dói .

Rogério resolveu partir. E partiu partindo os mais lindos sentimentos de Celina. No dia do desfecho, só ele falou. Encheu-a de elogios, culpou-se a si mesmo, contou histórias que mais pareciam preparadas para uma saída delicada. E saiu. Ela ficou ouvindo o que ele disse, mesmo depois de ele não mais estar. E ficou ouvindo o que ele falava antes. As promessas de eternidade. O caminhar junto. A construção de uma história que atravessaria as estações e se manteria firme até o final, até o entardecer do existir dos dois.

Rogério escolheu uma outra mulher. Não foi isso o que ele disse. Foi isso o que ela entendeu. O chegar em casa, depois da tal conversa, foi difícil. As fotos ainda decoravam o ontem. Cheias de risos e de poses. Cheias de encantamento. Anos e anos de histórias. E, em um dia como outro qualquer, tudo se finda.

Celina tomou banho. Chorou o choro doído que desidrata os apaixonados. Enxugou apenas o corpo, a alma permaneceu como quis. Quisera ela ter o poder de esquecer tudo, quisera ela acender a luz e encerrar a noite de uma vez por todas. A noite tem o seu tempo.

Envolta em pensamentos, não adormeceu. Uma amiga sugeriu que ela tomasse algum remédio para dormir. Preferiu resistir. Choraria o tempo certo. E depois prosseguiria.

Alguns dias se passaram. Sem conseguir se controlar, enviou algumas mensagens. Ele as respondeu, educadamente. Mas nada de esperanças.

"Há uma outra", foi o que disse a amiga. A suspeita estava correta. Morava, Rogério, em uma casa em frente a uma praça. Era um sobrado onde tantas vezes eles fizeram amor. Pois bem, Celina resolveu ir até lá. Sentou-se em um banco onde pudesse ver sem ser vista. O entardecer já chamava a noite. Ao longe, ela viu os dois chegando. Ao longe, ela viu a luz do banheiro se acendendo. Era assim com ela também. E, de repente, o apagar das luzes. E o resto foi imaginação. Doida imaginação.

Que palavras ele estaria dizendo? Que promessas estaria fazendo? Que toques teria ela que foram mais convincentes que os seus? O choro não veio desta vez. Apenas um vazio e uma vontade de caminhar. E ela resolveu se levantar e ir. Enquanto caminhava, pensava com o luar, "Quanto tempo há de demorar para amanhecer"?

E um alívio, talvez provisório, trouxe uma brisa mansa que surpreendeu. A noite estava quente. Mas as temperaturas mudam quando menos se espera.

Já em casa, Celina arrumou-se em despedida do dia que se ia. E desejou um sono bom. O amanhã existe.

(* Professor e escritor)

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Gabriel Chalita, colunista do DIA Divulgação

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