A Princesa das Camélias

Por Ana Virginia Pinheiro Chefe da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional

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A camélia é flor que encanta pela fragilidade de suas muitas pétalas. Mas, a Princesa das Camélias não era encantada, nem frágil. Livros raros da Biblioteca Nacional brasileira testemunham isso.

A carioca Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela era muitas princesas numa só. Sua história e seu temperamento são pouco conhecidos. Isabel é descrita comumente com os 'defeitos' de uma dama aristocrática, de extrema domesticidade e singularmente religiosa. Muitos dos registros oficiais ainda validam o discurso de subestima ao referir-se à mulher que era a herdeira presuntiva do Império do Brasil como alguém com atribuições superiores à sua feminilidade.

Isabel nasceu para ser irmã de um imperador. Mas, as mortes prematuras de seu irmão mais velho, D. Afonso Pedro, e de seu irmão mais novo, D. Pedro Afonso, transformaram-na em sucessora de seu pai, o Imperador D. Pedro II - o destino fez dela uma mulher racional.

Isabel nasceu predestinada ao desafio: casou-se por arranjo de famílias e amou seu marido, procriou para garantir a descendência da Casa de Bragança, e enfrentou a bancada de políticos escravocratas que não hesitava em protelar, com projetos inconclusos e análises intermináveis, o final de um processo de emancipação do negro escravizado - a vida fez dela uma mulher generosa.

Isabel nasceu para ser mãe e teve três filhos: Pedro, Luís e Antônio, depois de dois abortos naturais e de uma filha natimorta, Luísa Vitória - a maternidade fez dela uma mulher forte.

Mas, o século XIX era o século da dor, imposta a pessoas que eram vendidas, compradas, alugadas, possuídas, tratadas como peças da engrenagem que sustentava o ócio - dos outros. Protestos eram emitidos em nome de uma sociedade que acolhia a política escravocrata do governo. Proliferavam rebeliões, fugas, mortes, conjurações por liberdade. Homens e mulheres empenharam seus nomes pela continuidade do escravismo, enquanto outros consagraram suas vidas pela libertação daqueles que reconheciam como iguais.

Há uma multidão de páginas impressas na coleção de livros raros da Biblioteca Nacional brasileira, frágeis como pétalas de camélias expostas à ininterrupta passagem do tempo e carentes de pesquisadores, oferecendo outros olhares sobre aquele tempo. Ali, é possível constatar, por exemplo, os argumentos contrários à Abolição - o que seria do liberto? É preciso tempo para prover moradia, planejar educação, gerar empregos. Como o estado se sustentará? É preciso pagar o prejuízo da liberdade.

Em 1884, Joaquim Nabuco questionou a conclusão dos escravocratas de que os 11 milhões de cidadãos não seriam aptos ao cuidado do próprio território - seu discurso ecoaria atemporal: "O dever dos bons patriotas, dos que amam a sua terra e a sua gente, é procurar modificar o estado de coisas que existe e destruir os motivos que afastam a nossa população do trabalho e as causas que a impedem de trabalhar. Bem ou mal, o Brasil é dos brasileiros".

A Princesa das Camélias encerrou a discussão assinando uma lei curta e objetiva: "Art. 1º É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil. Art. 2º Revogam-se as disposições em contrário". Talvez, faltou na Lei um Artigo 3º com uma ordem às suas excelências: "Criem-se as leis decorrentes e necessárias".

O significado da Lei, áurea por natureza, ainda não foi devidamente reconhecido, assim como os direitos que deveria promover. Afinal, a Lei não é incompleta por omitir o cuidado que o Estado deveria ter assumido sobre o destino de pessoas "desapropriadas" de repente, nem formalizou sua exclusão social - a liberdade, como direito inerente ao ser humano, não promove dano, não cria mácula.

No dia 13 de maio de 1888, domingo, às 15 horas, Isabel sancionou a Lei que libertava - não foi fácil, nem óbvio. Um buquê de camélias e violetas foi presenteado à princesa, enquanto era aclamada por cerca de dez mil pessoas no Largo do Paço, como "Isabel, a Redentora" de 600 mil cativos.

O plano escravagista de levar o Estado à bancarrota mediante indenizações milionárias não dava sinal de sucesso. Proclamou-se a República. A Princesa perdeu o Império, partiu para longe, e sua memória foi "insignificada". Mas, depois daquele dia 13 de maio, a imprensa noticiou que a Princesa conquistou um trono no coração do povo e era merecedora de honras e bendições. Desde então, camélias ornamentaram seus retratos, em todos os lugares.

Em algum momento, os livros raros impressos terão voz mais firme, como fonte primária de informação sobre a Princesa das Camélias, para uma releitura da história da libertação do negro escravizado no Brasil. Assim, quem sabe, como na letra e ao som da música de Caetano Veloso e Gilberto Gil, "as camélias da Segunda Abolição virão!".

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