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Poluição, ineficiência e altos custos

O Brasil precisa criar condições para que os setores privados, nacional e internacional, se sintam atraídos para investir na infraestrutura

Por Antonio Freitas Diretor da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA)

Antonio Freitas
Antonio Freitas -

As perdas com a greve dos caminhoneiros superaram R$ 75 bilhões, mas o prejuízo será ainda maior se o Brasil não despertar para os malefícios do desequilíbrio da nossa matriz de transporte - majoritariamente rodoviária - que mostra cada vez mais sinais de insustentabilidade e impactos negativos para todo o país. A sociedade precisa intensificar essa discussão junto ao poder público e exigir um plano estruturado imediato e de longo prazo para corrigir os gargalos logísticos do Brasil, causados pela falta de diversificação, de desenvolvimento e de integração dos modais.

Os números assustam: 75% de tudo que é produzido no Brasil é transportado em rodovias. Apenas 9,4% passa pelo modal marítimo; 5,8% pelo aéreo; 5,4% pelo ferroviário; 3% via cabotagem e apenas 0,7% por sistema hidroviário, segundo dados da Fundação Dom Cabral. O transporte rodoviário no Brasil enfrenta a baixa qualidade das estradas - são apenas 200 mil km de pavimentação em 1, 6 milhão de km de malha viária.

É alto o índice de roubos de cargas, e isso sem falar na poluição ambiental. Somente em 2016, o modal rodoviário emitiu quatro vezes mais gases de efeito estufa do que todos os setores da Noruega, por exemplo. Só os caminhões lançaram no ar 84,5 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

O elevado custo do transporte rodoviário no Brasil também é um dos entraves à competitividade e à exportação dos produtos brasileiros. Com tantos pontos negativos, é difícil compreender como o governo ainda continua "refém" do transporte rodoviário.

Aparentemente, pode parecer que o único interesse do poder público é deixar as empresas cada vez mais dependentes da rodovia, ou seja, do uso do combustível. Será isso verdade? De uma forma ou de outra, a opção pelo transporte rodoviário deságua na equação de quanto mais se gasta com combustível, maior é a arrecadação de impostos. Será isso proposital?

Isso sem contar o viés político: o que é mais fácil mostrar para a população, uma nova estrada ou uma malha hidroviária mais fluente? Serão as estradas construídas, de forma adequada, para suportar o transporte contínuo de carga pesada?

Além disso, assim como ocorre com os modais aquaviários, o transporte ferroviário também está há anos fora dos planos. É importante destacar que as ferrovias não apenas deixaram de avançar, como andaram para trás

Dado o momento de transição que estamos vivendo, da necessidade de preservação dos recursos do tesouro e do fato de o Estado nunca ter sido um bom gestor, uma proposta para descontinuar a dependência do transporte rodoviário seria abrir uma concorrência internacional para explorar os transportes ferroviário, marítimo e fluvial, semelhante ao que ocorre nos aeroportos.

Outra importante iniciativa seria passar a remunerar o frete por condições do mercado, assim como também já ocorre no transporte aéreo. Toda a logística deve ser negociada entre quem produz e quem transporta, considerando as variadas flutuações do mercado.

O Brasil precisa criar condições para que os setores privados, nacional e internacional, se sintam atraídos para investir na infraestrutura, o que envolve aprimorar o processo de licitação; redigir contratos factíveis, que levem a uma alocação de riscos eficientes, e melhorar a governança das agências reguladoras, apolíticas e técnicas.

Somente com todas essas ações vamos conseguir, enfim, dar racionalidade à logística brasileira e fazer com que o país passe a transportar as suas riquezas, para uso doméstico e exportação, de forma mais eficiente, conectada para alcançar o desenvolvimento sustentável de que tanto precisa.

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