Avanços no combate à doença de Chagas

O momento de fazer essa mudança é agora, no lastro da aprovação do PCDT, para garantir uma implementação completa e eficiente, que trará melhor atenção e melhor qualidade de dados sobre esta problemática no Brasil, para que novas e melhores políticas possam ser elaboradas

Por Vitória Ramos Especialista em Assuntos Humanitários de MSF-Brasil

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A doença de Chagas ainda existe. Grande parte dos brasileiros acredita que ela é algo do passado, já superada. Infelizmente, esse é um grande engano. A doença continua matando graças a décadas de negligência com essa agenda na saúde pública.

Há sete meses falamos do problema nesta mesma coluna, no Dia das Pessoas Afetadas pela Doença de Chagas, 14 de abril. Naquele momento, lembramos que, apesar de afetar entre 1,9 milhão e 4,6 milhões de brasileiros, ela é uma doença absolutamente negligenciada em termos de políticas públicas. Estima-se que mais de 80% dos afetados nunca tiveram sequer um diagnóstico.

Por ser silenciosa, a doença de Chagas muitas vezes só apresenta sintomas anos depois da infecção, podendo revelar-se por complicações graves nos sistemas cardíaco e digestivo e que poderiam ser evitadas caso as pessoas tivessem um diagnóstico precoce e um tratamento adequado.

Voltamos agora ao tema porque temos um motivo para celebrar: há poucos dias, em 30 de outubro, foi aprovado o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Doença de Chagas. Depois de mais de dois anos em construção, inúmeras idas e vindas, ameaças de arquivamento e, principalmente, de muita pressão da sociedade civil, teremos um documento oficial do SUS (Sistema Único de Saúde) que estabelece critérios para o trabalho médico, como o diagnóstico e o tratamento, podendo trazer visibilidade à questão e melhorar a atenção aos pacientes.

O documento traz diversos avanços. O maior deles é eliminar a recomendação de não oferecer o diagnóstico na população maior de 50 anos, que constava na proposta original.

Felizmente, o texto foi alterado, e a restrição de idade, retirada. A mudança é importante porque o grupo acima de 50 anos é provavelmente o mais afetado pela doença. Com a possibilidade de ser diagnosticada, essa pessoa poderá ter um acompanhamento integral mais cuidadoso e adequado.

No entanto, ainda há pontos nos quais é necessário avançar. Quando dissemos que existem de 1,9 milhão a 4,6 milhões de pessoas afetadas por Chagas no Brasil, você não leu errado. Há mesmo uma diferença abismal entre as estimativas (fornecidas por diferentes estudos).

Atualmente, somente os casos agudos de Chagas (os recentes) são de notificação obrigatória ao sistema de saúde. No entanto, grande parte das pessoas afetadas por Chagas no Brasil está na fase crônica da doença, pois foi infectada há anos, às vezes décadas.

É consenso entre os especialistas - e inclusive recomendado pelo PCDT - que os casos crônicos da doença também devem ser notificados. Desde setembro de 2017, o Ministério da Saúde se comprometeu a implementar a notificação compulsória destes casos. Apesar de a notificação ser defendida também na própria Secretaria de Vigilância em Saúde, mais de um ano depois de assumido o compromisso, isso ainda não foi colocado em prática. É triste, mas inevitável, concluir que esta é mais uma demonstração da falta de prioridade e importância dada ao tema.

O momento de fazer essa mudança é agora, no lastro da aprovação do PCDT, para garantir uma implementação completa e eficiente, que trará melhor atenção e melhor qualidade de dados sobre esta problemática no Brasil, para que novas e melhores políticas possam ser elaboradas. A mais brasileira das doenças não pode esperar mais 100 anos para ser encarada de maneira séria. As pessoas afetadas pela doença de Chagas não deveriam esperar nem mais um dia para serem encontradas e tratadas.

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