Nássara, traçando o Rio

Por Ediel *

O grande cartunista e compositor Nássara, se vivo fosse, teria feito, no domingo passado, 108 anos (11 de novembro de 1910 - 11 de novembro de 1996).

Conheci Nássara em novembro de 1980, no lançamento do livro 'Natureza Morta e Outros Desenhos', do Chico Caruso, na época chargista do Jornal do Brasil.

Os grandes nomes do humor nacional estavam lá: Millôr Fernandes, Jaguar, Paulo Caruso, Lan, Nani, e Ziraldo, entre outros.

Houvesse, naquela época, esses telefones com câmeras - eram tempos de câmeras analógicas e nada era instantâneo: você levava meses para terminar um filme e conferir o resultado -, eu teria grandes lembranças daquela noite.

Outro encontro nosso, foi , anos depois, na casa dele, em Laranjeiras. Levei uma caricatura que fiz dele; ele autografou e, simpático, escreveu: me vejo mais jovem e bem desenhado.

Antônio Gabriel Nássara nasceu na Rua Esperança, no bairro de São Cristóvão, em 11 de novembro de 1910 - além dele, nasceram naquele ano, Adoniran Barbosa, Nelson Cavaquinho e Noel Rosa. Morou em Vila Isabel, onde foi vizinho de Noel, que sonhava em ser caricaturista.

Nássara começou no rádio em 1932, como locutor do 'Programa Casé', na rádio Philips. Lá, cantou o primeiro jingle nacional (composto por Luiz Peixoto) para a padaria Bragança.

Autor de mais de 200 canções, entre elas, 'Balzaquiana', 'Formosa', 'Periquitinho Verde', 'Florisbela' e seu maior sucesso, a marchinha 'Alá-lá-ô', de 1941 (em parceria com Haroldo Lobo). Tentou virar cantor, com o codinome de Luiz Antônio, mas o desenhista foi superior ao músico.

Nássara criou - paralela à vida no rádio - uma carreira brilhante no jornalismo gráfico. Cartunista, ilustrador e diagramador, trabalhou em 'O Globo', 'A Noite', 'A Hora', 'A Nação', 'Careta', 'O Cruzeiro', 'Última Hora' e 'O Pasquim'.

Foi um autêntico boêmio. Enquanto fazia caricaturas no jornal, frequentava os cabarés da Lapa e as rodas de samba com Chico Viola e Noel Rosa; sempre observando a cidade e seus moradores.

Descendente de libanês, era apaixonado pelo Rio, cidade que foi um de seus maiores cronistas, seja cantando ou desenhando.

"Millôr Fernandes definiu Nássara como o 'Mondrian do portrait-charge' e Jaguar o comparava a Miró. Tudo para dimensionar a capacidade de abstração de um artista que foi, acima de tudo, um verdadeiro boêmio

Parafraseando Jaguar - quando lhe perguntaram se Millôr Fernandes era melhor escritor ou cartunista: Nássara é melhor desenhista que compositor. E vice-versa.

(* Jornalista, escritor e cartunista)

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