Arte perene, governo passageiro

Por Roberto Muylaert Jornalista e editor

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"Quando ouço alguém falar em cultura, saco o meu revólver".A frase é atribuída a Hermann Goering, um dos dirigentes máximos do regime nazista, chefe da Força Aérea, a Luftwaffe.

Hitler, que tem servido de comparação livre para Bolsonaro, não tinha a mesma opinião: conhecia ópera e havia estudado a planta das principais casas líricas da Europa em detalhes, além de ser um pintor, embora frustrado.

No caminho oposto temos o aforismo "A cultura é o melhor instrumento para o desarmamento de corpos e mentes".

Diante disso, não há dúvida de que nosso presidente eleito preferiria a primeira frase. Mas antes que ele opte por sacar o revolver, quero aconselhá-lo a visitar a exposição do chinês Ai Weiwei, na Oca, prédio do Ibirapuera, em São Paulo.

Contra esse artista o regime chinês já fez de tudo, como confiná-lo numa prisão domiciliar por quatro anos, de onde ele saiu revigorado. Seu crime foi ser um artista independente, livre das diretrizes do partido no poder.

Quando Bolsonaro chegar à Oca, vai se impressionar com o prédio de Niemeyer, que foi precursor do edifício do Senado Federal, com seis anos de antecedência.

O artista chinês ficou alguns meses no Brasil, no litoral Sul da Bahia, e também em Juazeiro do Norte, terra de Padim Ciço.

Ele foi considerado persona non grata na China, porque a ditadura chinesa só admitia o realismo socialista, onde as obras de arte podem parecer publicidade de dentifrício da década de 1950.

Da Bahia vieram as figas de madeira, com o dedo médio ereto, que ele faz para mostrar sua permanente revolta contra os abusos de autoridades em geral. De Juazeiro veio mais de uma tonelada de sementes de olhos de cabra, de notável poder hipnótico.

Existem outras performances impressionantes nessa mostra, como o vídeo em que ele deixa cair uma urna da dinastia Han, de dois mil anos, estraçalhando a valiosa peça.

Mas para fazer o gesto de destruição da antiguidade, ele se preparou, aprendendo tudo sobre o objeto que iria destruir, de tal forma que pode apresentar, na exposição, uma pilha de vasos 'Ming', com motivos contemporâneos, como o terremoto da cidade de Sichuan, que matou cinco mil crianças, por má qualidade da construção. As ferragens dessa obra criminosa estão também na exposição.

Um barco inflável gigante, com passageiros maiores que o tamanho natural é um libelo contra o sacrifício de milhões de refugiados de regiões em conflito.

Senhor Bolsonaro, é bom o senhor entender que não adianta prender artistas. Eles continuarão a pensar livremente. E o que é mais importante: "A Arte é perene, o governo, passageiro".

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Roberto Muylaert, colunista do DIA Divulgação

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