Letícia Nolasco: A saúde mental após uma catástrofe

É importante a integração dos cuidados de saúde mental a outras atividades de saúde

Por O Dia

Letícia Nolasco
Letícia Nolasco -

Rio - Roupas no varal, cheiro de comida no fogo e toda a rotina de um dia qualquer, interrompida por um turbilhão de acontecimentos que “tiram o chão” da gente. É assim que inúmeras pessoas se sentem, quando uma catástrofe ou um episódio de violência as arrebata de suas vidas quotidianas para uma nova realidade. Podem ser guerras, desastres, acidentes ou agressões físicas. Após esses eventos potencialmente traumáticos, existe sofrimento intenso, que é a resposta à experiência do episódio. E, para lidar com isso, é fundamental que ela se sinta amparada, acolhida, em um ambiente de escuta.

O sofrimento intenso pode ser manifestado por dores físicas, insônia, fadiga ou mesmo uma sensação de que está vivendo um filme, como se o que viveu não fosse real. Os pacientes voltam muitas vezes para consultas médicas na busca de um diagnóstico. Isso faz com que seja tão importante a integração dos cuidados de saúde mental a outras atividades de saúde: o cuidado para não haver um diagnóstico precoce, uma vez que o sofrimento é esperado diante de tal impacto.

O trabalho de saúde mental de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em emergências tem como principal objetivo oferecer apoio às pessoas expostas a determinadas situações de sofrimento e apoiar na busca de seus mecanismos de enfrentamento. O uso de medicação (psicotrópica) nesse primeiro momento não é recomendável em boa parte dos casos, embora cada um deles necessite ser avaliado singularmente, levando-se em consideração o histórico, os sintomas e a capacidade de reação de cada um. A medicação precoce pode se tornar um entrave para que a própria pessoa busque seus mecanismos de defesa e crie suas estratégias de reabilitação. É comum que pacientes revivam o episódio potencialmente traumático, permaneçam hipervigilantes em um primeiro momento, não tenham um sono de qualidade. O apoio de saúde mental as auxilia a elaborar seus sentimentos e ter condições para seguir adiante.

Frequentemente, esse trabalho é realizado por conselheiros locais especialmente treinados por MSF. Psicólogos e psiquiatras da organização oferecem suporte técnico e supervisão clínica.

Na região mineira de Brumadinho, por exemplo, a ação de MSF articulada com o Ministério da Saúde é voltada para apoiar a coordenação e oferecer ajuda psicossocial a pessoas de todas as idades, afetadas pelo rompimento da barragem. São atendidas tanto as pessoas que perderam familiares e conhecidos quanto os próprios profissionais que trabalham nas buscas e resgates. A tristeza pode estar relacionada à incerteza, à falta de informação sobre amigos e familiares. Com o passar do tempo, quando permanece o clima de incerteza e falta de informação, isso pode gerar raiva. Para contrapor-se a isso é preciso criar um ambiente de escuta, de acolhimento e de comunidade, para que as pessoas afetadas possam se fortalecer com seus próprios mecanismos e estratégias.

Outro exemplo que podemos citar é a experiência no projeto de saúde mental na Ucrânia (2015), na cidade de Gorlovka, inteiramente bombardeada no inverno extremo. A população que permaneceu era formada majoritariamente por idosos, porque eles não viam sentido em ir para outro lugar. Trabalhamos para que eles próprios buscassem estratégias e mecanismos de lidar com aquilo que viveram. Algumas dessas pessoas já haviam visto outros conflitos, como a II Guerra Mundial. Muitas já tinham experiência no enfrentamento deste tipo de problemas e foi importante poder resgatar esse conhecimento.

Com apoio de profissionais de saúde mental e, principalmente, com o amparo de uma rede de amigos e familiares, as pessoas que são impactadas por um evento potencialmente traumático conseguem buscar ajuda e se reestabelecer.

Letícia Nolasco é psicóloga de Médicos Sem Fronteiras (MSF) com experiência em emergência de saúde mental

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